O motim ocorrido no final de Agosto contra a junta governante do Níger levantou questões sobre a sua dependência do Africa Corps da Rússia em matéria de segurança, o crescente descontentamento entre os soldados da linha da frente e a aparente fragilidade da aliança de defesa do país com o Burquina Faso e o Mali.
A violência eclodiu na capital nigerina e arredores por volta da 01h00 da manhã de 29 de Agosto, quando dezenas de soldados abriram fogo contra o palácio presidencial enquanto tentavam assumir o controlo do aeroporto internacional de Niamey e da adjacente Base Aérea 101. Muitos dos soldados rebeldes faziam parte de missões de combate ao terrorismo no sul e no oeste do país. A Base Aérea 101 é o principal posto avançado militar do Níger e o quartel-general do contingente de 200 a 300 elementos do Africa Corps no país. A revolta de Agosto constituiu o terceiro ataque ao aeroporto este ano.
Os combatentes do Africa Corps viram-se brevemente retidos como reféns devido ao ataque. Por fim, responderam recorrendo a armas e a drones do tipo kamikaze para ajudar a retomar o aeroporto, depois de a guarda presidencial ter enfrentado dificuldades para o fazer.
O papel da Rússia na repressão da revolta revelou fraquezas que provavelmente irão criar mais problemas para a junta liderada pelo General Abdourahamane Tiani, Yvan Guichaoua, investigador sénior do Centro Internacional de Estudos sobre Conflitos de Bona, disse numa entrevista à RFI.
“O envolvimento dos russos e o seu papel decisivo na reconquista da base [Base Aérea 101] tornam o regime dependente da Rússia,” afirmou. “Tiani está agora em dívida para com os russos.”
O envolvimento da Rússia serviu para relembrar que, tal como noutros países do Sahel, o papel principal do Africa Corps é proteger a junta no poder, Wassim Nasr, investigador sénior do Soufan Center, disse à ADF.
Os analistas afirmam que a revolta também expôs divisões no seio das forças armadas entre membros de alta patente, incluindo a guarda presidencial, e soldados subalternos que combatem os terroristas. Entre os terroristas contam-se o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP) no sul e oeste do país, bem como o Estado Islâmico na Província da África Ocidental no leste.
Tiani liderava a guarda presidencial antes de derrubar o presidente democraticamente eleito Mohamed Bazoum em 2023. Desde então, o descontentamento tem vindo a aumentar, enquanto os militares de alta patente servem em zonas mais seguras e com salários mais elevados do que os militares de patente inferior, mal remunerados, que enfrentam ataques mortíferos e condições de vida cada vez mais difíceis em território hostil. Esses soldados da linha da frente, muitas vezes, deparam-se com terroristas equipados tão bem quanto eles, se não melhor, Ryan Cummings, analista-chefe da Signal Risk, disse à Al Jazeera.
Em Junho, pelo menos 85 soldados nigerinos morreram quando o ISSP atacou bases militares em Inates e Banibangou, perto da fronteira com o Mali. O ISSP também destruiu ou roubou dezenas de veículos militares durante o ataque. Os combatentes do ISSP têm atacado Inates e outros postos fronteiriços repetidamente, na tentativa de expulsar as forças de segurança da área. Desde o golpe de Estado de 2023, o ISSP consolidou o controlo sobre grandes partes das regiões de Tahoua e Tillabéri, no Níger, de acordo com o Projecto Critical Threats, do American Enterprise Institute.
Inates e Banibangou são posições operacionais avançadas fundamentais para as forças nigerinas na região de Liptako-Gourma, um foco de violência terrorista onde se encontram o Burquina Faso, o Mali e o Níger. O JNIM e o ISSP disputam o controlo em toda a região.
O Burquina Faso, o Mali e o Níger formaram a Aliança dos Estados do Sahel, um pacto de defesa mútua. Este pacto não conseguiu angariar o apoio dos parceiros do Níger durante a revolta. Nem o Burquina Faso nem o Mali enviaram tropas enquanto o ataque estava em curso. O Mali enviou alguns soldados após a restauração da calma, tal como a Líbia.
Romane Dideberg, analista de investigação do Programa África da Chatham House, disse à Al Jazeera que a ausência de resposta à revolta no Níger ecoou a falta de uma resposta regional aos ataques do JNIM e da Frente de Libertação do Azawad no Mali, em Abril.
“O que a resposta de segurança revela sobre a coesão da Aliança dos Estados do Sahel poderá ser um dos elementos mais reveladores do motim,” afirmou Dideberg. “Este motim põe em causa a eficácia, mas também, em certa medida, a sinceridade do pacto de assistência mútua.”
