Grupos terroristas e gangues criminosas estão a transformar o sequestro para obtenção de resgate num negócio lucrativo na Nigéria.
Estes grupos receberam 5,8 milhões de dólares em resgates entre Julho de 2025 e Junho de 2026, mais do triplo do montante pago no período anterior. Os sequestradores raptaram pelo menos 7.825 pessoas, um aumento de 66%, e mataram pelo menos 1.142 pessoas, incluindo 895 civis.
Isto é o que revela um relatório da SBM Intelligence, uma empresa de consultoria sediada em Lagos, que constatou que 90% dos resgates pagos foram para a facção Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati Wal-Jihad (JAS) do Boko Haram. Dois sequestros em massa perpetrados pelo grupo representaram mais de 5,2 milhões de dólares em pagamentos de resgate.
No dia 3 de Março, os sequestradores raptaram 416 pessoas, na sua maioria mulheres, crianças e idosos, na área do governo local de Gwoza, no Estado de Borno, no nordeste da Nigéria. Os terroristas lançaram um ultimato de 72 horas para receberem um resgate de mais de 3,7 milhões de dólares. A irmã adolescente de Aisha Ibrahim estava entre as vítimas.
“Como a minha irmã é adolescente, todos temos estado preocupados com o seu estado desde o dia em que lançaram o ultimato de 72 horas, porque são sempre as primeiras vítimas,” Ibrahim disse ao jornal nigeriano Daily Trust. “Vão casá-las e nunca mais a voltaremos a ver. Apelamos ao governo para que faça tudo o que for possível para garantir a libertação delas antes que seja tarde demais.”
Segundo consta, o resgate foi pago na totalidade e as vítimas foram libertas no início de Junho.
No dia 21 de Novembro de 2025, homens armados raptaram 303 crianças e 12 professores durante um ataque à Escola Católica Santa Maria, no centro-norte do Estado do Níger, sinalizando um ressurgimento dos raptos em escolas. As vítimas foram libertas em Dezembro. O governo nigeriano pagou um resgate de, pelo menos, 1,5 milhões de dólares pela libertação das vítimas, de acordo com a Agence France-Presse, embora as autoridades tenham negado este facto.
Bulama Bukarti, analista de segurança e advogado nigeriano especializado em direitos humanos, sediado em Londres, disse que os sequestros em massa, que representaram quase 80% dos incidentes de rapto, são motivados por razões financeiras.
“O que estes bandos costumam fazer é manter estas crianças em cativeiro durante semanas, por vezes meses, e extorquir resgates às suas famílias ou ao governo,” Bukarti disse à Al Jazeera. “Estes resgates podem ascender a centenas de milhares de dólares antes da libertação das vítimas.”
O pagamento de resgates, no entanto, não garante a sobrevivência. Em pelo menos seis casos, os sequestradores mataram as vítimas após o pagamento do resgate, e quem paga o resgate é, cada vez mais, alvo de sequestro, de acordo com a SBM Intelligence. Embora as exigências de resgate tenham diminuído 52% durante o período abrangido pelo relatório, a taxa de cobrança subiu para 34%.
“Trata-se de um aumento impressionante em relação aos 5,35% cobrados no ciclo anterior, e é a mudança mais importante nos dados deste ano,” informou a consultora.
O maior número de incidentes, vítimas e mortes foi registado no noroeste da Nigéria, onde só o Estado de Zamfara registou 236 incidentes de rapto e 1.921 vítimas, cerca de um quarto do total nacional. Zamfara registou também o maior número de raptos em massa, 92, seguido pelo Estado de Sokoto, com 76.
No norte, as vítimas de rapto, muitas vezes, são levadas para acampamentos na floresta, e algumas são obrigadas a trabalhar na agricultura e na mineração artesanal, tornando o rapto uma fonte de mão-de-obra em empreendimentos controlados pelos raptores. A vasta extensão geográfica do norte “também dilui a presença de forças de segurança destinadas a cobrir a região, tornando a área muito difícil de policiar e as operações de combate ao rapto muito complexas de executar,” informou a SBM Intelligence.
“Na ausência de uma estratégia coordenada que visa tanto a rentabilidade do crime como as suas raízes socioeconómicas, a Nigéria corre o risco de consolidar o sequestro não apenas como uma indústria criminosa, mas como um mecanismo de financiamento para os próprios grupos que mais ameaçam a sua estabilidade,” lê-se no relatório.
A tendência de sequestros tem-se mantido desde que o relatório da SBM foi divulgado. No dia 24 de Agosto, membros armados do grupo terrorista Lakurawa, aliado ao Boko Haram, raptaram cerca de 600 fiéis numa mesquita no Estado do Níger. O Lakurawa divulgou posteriormente no Facebook e no WhatsApp um vídeo de um grande grupo de pessoas mantidas reféns numa zona florestal. Os residentes locais confirmaram as identidades de alguns dos reféns.
“Identificámos os nossos anciãos e familiares, e alguns de nós viram as suas esposas e filhos no vídeo,” o residente Abdulmutallib Muqaddas Dindi disse à Al Jazeera.
O Lakurawa voltou a atacar a 12 de Setembro, quando os sequestradores raptaram mais de 100 pessoas durante uma incursão nocturna na comunidade de Maburya, no Estado do Níger.
“Os atacantes aproveitaram-se da localização remota de Maburya, aproximando-se a partir da floresta circundante e utilizando motociclos para se deslocarem rapidamente antes de se dispersarem com os residentes raptados,” o Brigadeiro-General reformado Rabe Umar Abdullahi, especialista em combate ao terrorismo sediado em Abuja, disse ao meio de comunicação digital TruthNigeria.
