Por necessidade, as forças de operações especiais são secretas e operam em unidades pequenas e ágeis. As suas missões são de alto risco e, se a sua presença for conhecida, provavelmente fizeram algo de errado.
Mas há um reconhecimento crescente de que as forças de operações especiais (SOF) africanas precisam de se interligar. As ameaças transfronteiriças exigem que os operadores partilhem informações e coordenem esforços. Operar sozinho já não é uma opção, dizem os especialistas. As SOF precisam de formar uma comunidade.
Durante o Silent Warrior 2025, a principal conferência das SOF de África, reuniram-se 400 participantes de 32 países africanos e 14 parceiros internacionais. Um lema repetido na conferência de Nairobi foi: “A sua rede de contactos é o seu património líquido.”
Para muitos, construir essa rede das SOF que colmata lacunas e derruba barreiras à cooperação foi a razão do evento.
“Os adversários estão a evoluir, e as nossas forças têm de evoluir mais rapidamente,” o General John Kinyua Njeru, comandante do Comando das Forças de Operações Especiais do Quénia, disse aos líderes das SOF. “Embora as capacidades sejam importantes, a confiança, a interoperabilidade e a liderança profissional continuam a ser os factores decisivos ao definir a forma como as SOF africanas respondem a estas ameaças.”

Os participantes não tiveram de ir longe para observar os perigos de um continente dividido. O Burquina Faso, o Mali e o Níger abandonaram a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental e formaram a Aliança dos Estados do Sahel. O resultado é uma menor partilha de informações, menos coordenação e a ausência de mecanismos como o direito de perseguição, que permite às unidades das Forças de Operações Especiais seguir terroristas para além das fronteiras.
Os especialistas afirmam que os terroristas prosperam neste ambiente fragmentado. Os países do Sahel são agora responsáveis por mais da metade dos ataques terroristas a nível mundial.
“Vemos que esta falta de coordenação está a prejudicar a eficácia da luta contra o terrorismo,” o Dr. Adal Rhoubeid, antigo conselheiro de segurança do presidente do Níger, disse à ADF. “Cada lado torna-se um refúgio para grupos terroristas e, a nível militar, devido aos desacordos políticos, não se vê a coordenação que costumávamos ter. E a coordenação é o primeiro passo antes de sequer podermos pensar em interoperabilidade.”
Durante o Silent Warrior, os participantes discutiram formas de melhorar a interoperabilidade, incluindo intercâmbios de oficiais de ligação, patrulhas conjuntas, mecanismos de partilha de informações e o reforço das estruturas regionais.
“Os nossos adversários atravessam fronteiras, por isso, as nossas parcerias devem fazer o mesmo,” disse o Major-General Peter Muteti, comandante-adjunto da Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália.

HARMONIZAÇÃO DA DOUTRINA
As unidades e capacidades das Forças Especiais (SOF) podem variar muito de país para país. As estruturas das SOF surgem tipicamente da história colonial e são concebidas para responder a ameaças mais prementes de uma nação. No Egipto, por exemplo, as SOF têm experiência em combate ao terrorismo e resgate de reféns. No Chade, as SOF são conhecidas pela sua rapidez e capacidade de conduzir guerra no deserto. Nações costeiras, como a Nigéria e o Gana, desenvolveram unidades marítimas capazes de abordar embarcações e operar em mangais difíceis.
Alguns países têm unidades do tamanho de uma brigada que podem exercer uma força significativa contra um inimigo, mas enfrentam dificuldades em termos de velocidade e discrição. Outros têm unidades especializadas mais pequenas. Existem diferenças significativas na linguagem, na doutrina e no equipamento.
“Não temos SOP [procedimentos operacionais padrão] semelhantes, não temos TTP [tácticas, técnicas e procedimentos] semelhantes; portanto, mesmo quando estamos juntos no teatro de operações, verificamos que a operação é desarticulada, porque as tropas não têm uma doutrina comum que partilhem,” afirmou o Coronel Charles Mugo, comandante-adjunto do Comando das Forças de Operações Especiais do Quénia.
O planeador militar, Dr. Alex Cann, que serviu na Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália, escreveu que existem alguns pontos em comum, apesar da variedade de desafios de segurança africanos. Muitos países enfrentam adversários como bandidos, terroristas e traficantes que empregam tácticas assimétricas em zonas geográficas desafiantes. Isso requer uma abordagem africana às SOF que priorize a rapidez e promova a confiança das comunidades locais.
“África não precisa de copiar e colar os modelos das SOF ocidentais,” escreveu Cann. “O que precisa é de uma abordagem africana às operações especiais — enraizada nas realidades locais, construída com base na confiança e impulsionada pela clareza da missão.”
Cann apontou para Moçambique, onde uma força ruandesa relativamente pequena recuperou território dos terroristas e superou forças maiores. Em muitos países africanos, escreveu, unidades pequenas e ágeis são as mais eficazes.
“Por vezes, basta uma dezena de guerreiros bem treinados para impedir uma guerra antes que ela comece,” escreveu Cann.
MODELOS DE INTEROPERABILIDADE
Alguns participantes do Silent Warrior identificaram formas de melhorar a interoperabilidade.
O Brigadeiro Gaboratanelwe Tshweneetsile, director de operações especiais do Botswana, disse que, uma vez que as unidades das SOF podem ser destacadas para terrenos e culturas civis e militares com os quais não estão familiarizadas, seria útil ter centros regionais de excelência onde possam aprender com antecedência.
“O que defendo são centros de excelência em diferentes regiões para que possamos operar juntos como uma força comum,” Tshweneetsile disse à ADF. “Se for guerra no deserto, pode ir a um país especializado em combate no deserto. Se for guerra na selva, pode-se ir a um país que tenha selvas; por isso, penso que estas especializações se estendem por todo o continente.”
Outros apontaram para a Força Africana em Estado de Alerta da UA, que inclui mecanismos de resposta rápida a crises, mas não inclui uma componente dedicada às SOF. Se houvesse uma unidade regional permanente de SOF, esta poderia ser destacada para crises de forma rápida e eficaz.

O Major-General Mohamed Ali Barise, do Exército Nacional da Somália, reconheceu a necessidade de capacidade adicional de SOF no seu país natal. As forças especiais de elite Danab, da Somália, libertaram cidades do al-Shabaab, mas a sua dimensão relativamente pequena — 2.000 soldados — significa que têm dificuldade em manter o controlo do território.
Uma unidade de SOF alinhada regionalmente dentro da estrutura da Força em Estado de Alerta pode ser um trunfo importante em situações como esta. Também apoiaria o projecto mais amplo de interoperabilidade das SOF.
“As SOF são um facilitador,” Barise disse à ADF. “Utilizar forças especiais de diferentes países como facilitadoras para os elementos de combate no terreno seria algo louvável.”
Um modelo possível para a integração das SOF em África vem da NATO, onde o Comando das Forças de Operações Especiais Aliadas (SOFCOM) dirige, sincroniza e viabiliza as actividades das SOF em 28 países-membros e duas nações parceiras da aliança. A Universidade de Operações Especiais da NATO, na Base Aérea de Chièvres, na Bélgica, oferece formação e educação para desenvolver as capacidades, a competência e a interoperabilidade das SOF.
A ideia é que, quando chamadas, as unidades das SOF da NATO possam falar a mesma língua no campo de batalha e estejam prontas para trabalhar em conjunto.

“Este esforço promove o desenvolvimento de relações e estruturas das SOF capazes, realistas e orientadas geograficamente para produzir efeitos em tempos de paz, crise e conflito,” o SOFCOM disse no seu site.
Para os líderes das SOF presentes no Silent Warrior, a reunião anual é um primeiro passo para a criação de estruturas continentais semelhantes. E, segundo eles, tudo começa com a construção de relações.
“O facto de nos estarmos a reunir como SOF faz a diferença,” disse Tshweneetsile, do Botswana. “Fazemos amizades, fazemos contactos e sabemos o que os outros podem fazer e são capazes de fazer. Vamos operar juntos no futuro, por isso, precisamos de saber quais são as tácticas e os procedimentos em todo o continente.”
Outros afirmaram que regressariam a casa com novos conhecimentos sobre a mais recente tecnologia das SOF e sobre o que está a ser feito noutras partes do continente. Mas, segundo eles, o verdadeiro trabalho começa após o término da conferência, quando os participantes têm de desenvolver as relações estabelecidas no Silent Warrior.
“Já falámos; é hora de passar à parte prática,” o Coronel BI Amajuoyi, vice-chefe de Estado-Maior do Comando das Forças Especiais da Nigéria, disse à ADF. “Podemos levar estas palestras e estas discussões connosco e pô-las em prática.”
