Quando se trata de comunicar no campo de batalha, as forças de operações especiais, muitas vezes, recorrem a rádios de alta frequência.
Mas as Forças de Defesa do Quénia (KDF) descobriram que tinham um problema com esta ferramenta vital. Ao longo dos anos, o Quénia adquiriu dispositivos de vários fabricantes, como a Motorola, a Hytera e a Harris. Estes rádios eram eficazes, mas não eram interoperáveis. Utilizam encriptação diferente, operam em comprimentos de onda diferentes e em frequências diferentes.
Felizmente, as KDF contam com o seu próprio laboratório de soluções. O Centro de Manutenção e Inovação de Sistemas de Comunicação e Informação (CISMIC), criado em 2021, desenvolve e repara equipamento electrónico e software para as forças armadas. Foi encarregado de resolver o problema.
“O objectivo aqui é garantir que as nossas tropas no terreno estejam seguras,” o Coronel Stephen Kinyanjui, director do CISMIC, disse à ADF. “Para que qualquer comunicação entre elas não seja interceptada por um adversário e não acabemos por ter baixas por estarmos a comunicar de forma insegura.”
A solução que desenvolveram é conhecida como “Gate Bridge.” A ferramenta pode receber o sinal de um dispositivo, encriptá-lo e enviá lo para o dispositivo seguinte de forma protegida e compatível. Os técnicos das KDF conceberam e construíram a ferramenta, utilizando peças disponíveis localmente e a sua própria propriedade intelectual.

SEGUNDO SARGENTO AMBER LITTERAL/FORÇA AÉREA DOS EUA
Kinyanjui afirmou que era importante para as KDF encontrar uma solução desenvolvida internamente, para que o Quénia não precisasse de depender de doadores e fabricantes externos.
“Quando o fazemos nós próprios, o apoio e a manutenção tornam-se parte integrante do nosso trabalho, formamos as nossas próprias equipas e garantimos a sustentabilidade da solução,” afirmou.
O Quénia está a seguir este modelo à medida que desenvolve mais tecnologia para proteger as tropas no campo de batalha. Os técnicos militares estão a testar dispositivos anti-DEI, sistemas de satélite e tecnologia para melhorar a segurança alimentar. O princípio da auto-suficiência continua a ser central, segundo Kinyanjui.
“Quando se mantém a propriedade intelectual, torna-se barato,” afirmou. “O conhecimento pode até estar disponível em código aberto, por isso, cabe a vocês ir buscá-lo, trabalhar nele, aperfeiçoá-lo e depois distribuí-lo às tropas. Dessa forma, conseguimos sustentar a solução.”
Em todos os ramos militares, e particularmente nas forças de operações especiais (SOF), a tecnologia está a oferecer novas possibilidades e a apresentar novos desafios. Os operadores debatem-se com a questão de como se podem adaptar da melhor forma para defender as suas nações neste panorama em rápida mudança. Eles estudam como as mudanças afectarão a sua missão ou encorajarão os seus inimigos.
“Há uma melhoria tecnológica de que precisamos para podermos enfrentar a ameaça dos terroristas que já estão a usar essa tecnologia,” o Coronel Jerome Francis Nko’o Ella, comandante da Operação Bataillon d’Intervention Rapide Alpha dos Camarões, disse à ADF. “Temos de recuperar o atraso, para colmatar a lacuna.”
AS INCUBADORAS DE INOVAÇÃO
Os operadores das SOF, muitas vezes, estão entre os primeiros a adoptar novas tecnologias. Como tendem a trabalhar em pequenas unidades em missões de alto risco e longe das estruturas de comando centrais, precisam de ferramentas que lhes dêem uma vantagem.
As unidades das SOF destacadas na linha da frente têm um historial de testar tecnologia militar antes de esta ser distribuída ao conjunto das forças, o que lhes valeu o nome de “incubadoras de inovação.” Um exemplo ocorreu em 1990, quando a tecnologia GPS foi utilizada pela primeira vez em combate durante a Operação Tempestade no Deserto. Isso permitiu aos operadores navegar atrás das linhas inimigas e realizar reconhecimento. Actualmente, a tecnologia GPS é omnipresente.
Os especialistas consideram as SOF a melhor opção para a prototipagem rápida pelas mesmas razões pelas quais são seleccionadas para missões de alto risco: “a sua maturidade, flexibilidade, processos de selecção rigorosos e potencial de tolerância ao risco,” Leo Blanken, Philip Swintek e Justin Davis escreveram para a War on the Rocks, uma plataforma de análise online.

A tecnologia está a mudar o mundo dos operadores das SOF de várias formas.
Os sistemas aéreos não tripulados (SANT) são utilizados para vigilância e identificação de alvos, fornecem alertas precoces de possíveis ataques e oferecem apoio aéreo a equipas terrestres em território hostil. Os operadores das SOF também estão na vanguarda dos testes de tecnologia antidrones, incluindo bloqueadores portáteis para contrariar ataques.
A inteligência artificial mostra-se promissora para uma variedade de utilizações. Pode ajudar os operadores a prever o que os adversários irão fazer. Pode ser integrada em sistemas legados para os tornar mais eficientes e auxiliar na tomada de decisões. Também pode ajudar os operadores a filtrar muitas informações de inteligência. Melhora a segurança cibernética e a logística, antecipando falhas e pontos fracos antes que ocorra uma avaria.
As ferramentas de consciência situacional digital levam os operadores das SOF a testar tecnologia de utilização junto ao corpo que lhes permite identificar soldados aliados, mapear o terreno e localizar as posições inimigas. Alguns dispositivos oferecem realidade aumentada, que projecta informações num visor. Além disso, o tempo de entrega “do sensor ao soldado” está a acelerar, com dados adquiridos a partir de equipamentos como SANT e aeronaves tripuladas que podem ser acedidos quase instantaneamente.
Para Kinyanjui, uma cultura de inovação e flexibilidade é fundamental. Se as forças não se adaptarem, ficam vulneráveis.
“Acredito que, sem abraçar a tecnologia, ficaremos para trás,” afirmou. “Se continuarmos a utilizar métodos tradicionais, os próprios indivíduos ficarão expostos. Quando inovamos, procuramos uma forma melhor de manter as nossas tropas protegidas.”
DOUTRINA E FORMAÇÃO
À medida que novas tecnologias chegam ao campo de batalha, os especialistas acreditam que a doutrina e o treino devem acompanhar essa evolução. Os operadores das SOF já treinam com simulações avançadas que criam cenários com dados de missões reais e complexas. O treino das SOF incorpora competências cibernéticas; técnicas de inteligência, vigilância e reconhecimento; e SANT. Os especialistas afirmam que os comandantes devem acolher e capacitar jovens operadores com conhecimentos tecnológicos e dar prioridade ao recrutamento daqueles que possuem competências tecnológicas.
O vice-almirante aposentado dos EUA, Collin Green, da DZYNE Technologies, afirmou que os comandantes das SOF devem reconhecer que os jovens que sobem na hierarquia são “nativos digitais” que utilizam a tecnologia “como um quinto membro.”
“Não se sintam inseguros enquanto líderes; estejam dispostos a explorar o poço de talento local,” Green disse no simpósio Silent Warrior 25 das SOF, em Nairobi. “Incentive os jovens a serem criativos com soluções militares.”

Uma parte essencial disto é tornar a segurança cibernética e a sensibilização uma prioridade. As SOF precisam de manter-se à frente dos malfeitores que procuram infiltrar-se e causar perturbações. Grupos terroristas, organizações criminosas e piratas informáticos patrocinados pelo Estado têm como alvo o pessoal militar, os sistemas informáticos e o hardware. Na África do Sul, por exemplo, as agências militares e governamentais relatam uma média de 1.450 ataques cibernéticos por semana. Os sistemas de comando, controlo e comunicações; as cadeias de abastecimento; e até mesmo a tecnologia de armamento estão na mira dos piratas informáticos.
“A segurança cibernética deve começar, acima de tudo, pela defesa,” afirmou Green. “Sabe o que se encontra dentro das suas fronteiras, nas suas cadeias de abastecimento? Protege as suas tácticas, técnicas e procedimentos? Trata-se, acima de tudo, de fortalecer-se antes de pensar no que vai fazer na vertente ofensiva.”
Parte disto exigirá a actualização da doutrina. Kinyanjui defende processos escritos que definam como a tecnologia emergente deve ser utilizada e protegida. Este documento pode ser actualizado conforme necessário.
“É preciso incorporá-lo na doutrina; tem de ser documentado e integrado na vossa forma de operar,” afirmou Kinyanjui. “Se não o incorporarem nos vossos procedimentos e processos, pode ser utilizado por um grupo de forças especiais, mas quando se for embora, já não estará lá.”
TECNOLOGIA QUE ELEVA O COMBATENTE
À medida que a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante nas operações das SOF, alguns operadores referem-se a uma verdade fundamental das SOF publicada pelo Comando de Operações Especiais dos EUA: “Os seres humanos são mais importantes do que o equipamento.”
Isso significa que, embora a tecnologia possa ajudar, são a competência, o discernimento e a coragem do operador que determinam o sucesso de uma missão.
“Os operadores das SOF são a ‘tecnologia’ decisiva em qualquer missão,” o site do grupo de reflexão Battelle Insider escreveu numa série de ensaios que analisava a optimização da saúde dos combatentes. “Eles integram e operam sistemas avançados. Interpretam ambientes caóticos e ambíguos. Tomam decisões rápidas e de alto risco sob pressão extrema. E adaptam-se de formas que as máquinas e as plataformas não conseguem.”

Da mesma forma, Green afirmou que as SOF estão a passar por um “período de renovação,” acrescentando que é importante reforçar os seus pontos fortes, como o conhecimento cultural e a experiência no terreno, enquanto se adaptam, evoluem e adquirem novas capacidades.
“Controlem o que podem controlar, mantenham a curiosidade intelectual, cultivem uma cultura de experimentação,” disse. “Aceitem o desconforto.”
À medida que as novas tecnologias alteram o campo de batalha, os elevados padrões de desempenho e profissionalismo das SOF devem permanecer intactos, o Tenente-General John Omenda, vice-chefe das KDF, disse aos participantes da conferência das SOF em Nairobi.
“Os guerreiros silenciosos operam em áreas onde a complexidade é maior e as margens de erro são muito pequenas,” disse Omenda. “É neste ambiente exigente que a disciplina, a integridade, o respeito pelos direitos humanos e a adesão às normas internacionais devem permanecer inabaláveis. As ferramentas podem mudar, mas o carácter permanece.”
