O Gana tem sido um farol de paz e estabilidade ao longo da costa da África Ocidental há anos, mas o seu panorama de segurança evoluiu para abranger uma variedade diversificada de ameaças.
Grupos terroristas do Sahel, em expansão e determinados a chegar à costa, ameaçam o norte do país. Na fronteira oriental com o Togo, um movimento separatista tem alimentado o sentimento antigovernamental. No mar, a pirataria representa uma ameaça marítima agressiva e não convencional que exige uma resposta especializada.
O Esquadrão de Barco Especial, da Marinha do Gana, está a enfrentar todas estas ameaças e muito mais. Quando o espectro da pirataria pairava sobre o Golfo da Guiné entre 2009 e 2015, as autoridades perceberam que as forças convencionais não seriam suficientes, afirmou o Comandante Seth Dzakpasu, líder do esquadrão.
“Na altura, a Marinha do Gana estava muito familiarizada com as ameaças convencionais no mar,” Dzakpasu disse à ADF. “E a pirataria não era uma dessas ameaças convencionais.”
Foi então que o Gana se juntou às fileiras das marinhas africanas com esquadrões de forças especiais de elite, como o Quénia e a Nigéria. Estas unidades pequenas e altamente treinadas realizam abordagens e revistas de embarcações sob resistência, operações de combate ao tráfico no mar, em lagos e rios, e resposta a catástrofes, entre outras coisas.

NOVAS AMEAÇAS E NOVAS RESPOSTAS
Várias marinhas já demonstraram capacidade para fazer face a ameaças marítimas em algumas das águas mais difíceis do planeta. A Marinha da Nigéria é reconhecida como uma das mais fortes do continente no relatório Global Firepower de 2026. Ocupa o 22.º lugar a nível global. A classificação baseia-se em grande parte nos seus 152 recursos totais, que consistem principalmente em navios de patrulha offshore.
No entanto, o seu Serviço de Barco Especial (SBS) oferece uma ferramenta mais ágil. Este serviço enfrenta uma matriz de ameaças em constante evolução que inclui traficantes em alto mar e terroristas que navegam no Lago Chade e noutras vias navegáveis interiores.
O contra-almirante reformado Dolapo Kolawole, ex-director de operações do Quartel-General da Marinha da Nigéria e ex-comandante do SBS, disse à Arise News em Fevereiro de 2026 que o serviço ajuda a Marinha a lidar com ameaças assimétricas e missões complexas de combate ao terrorismo. Formado em 2006, pode realizar “ataques cirúrgicos” e destruir acampamentos terroristas.
“É inspirado nos SEALs da Marinha dos Estados Unidos,” disse Kolawole. “O seu pessoal e marinheiros são treinados para a guerra assimétrica em terra e no mar. Eles podem operar em ambos os ambientes.”
Por exemplo, o SBS da Nigéria juntou-se ao Exército e às forças civis numa operação de limpeza e resgate de quatro dias, em Junho de 2021, em Baga, uma cidade estratégica no Estado de Borno, nas margens do Lago Chade.
Um dos maiores sucessos do serviço ocorreu em Maio de 2020. Enquanto o Hailufeng 11, de bandeira chinesa, pescava com redes de arrasto em águas da Costa do Marfim, 10 piratas invadiram o navio, abordaram os seus 18 tripulantes e desligaram o sistema de identificação automática. Mesmo assim, as autoridades marítimas ao longo da costa ocidental de África rastrearam o navio até este entrar em águas nigerianas dois dias depois, a 16 de Maio, onde um barco de patrulha da Marinha aguardava.
O NNS Nguru aproximou-se do barco sequestrado a cerca de 140 milhas náuticas a sul de Lagos. Os comandos do SBS abordaram-no enquanto navegava a 9 nós, depois de os piratas se terem recusado a obedecer às ordens para parar. Nenhum marinheiro ou tripulante ficou ferido. Os piratas foram levados para terra e julgados.
Em todo o continente, membros da Unidade de Barco Especial (SBU) da Marinha do Quénia, a servir na Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália, responderam a um pedido de socorro quando o dhow MSV Fazlerabbi pegou fogo ao largo da costa de Kismayo, no dia 29 de Outubro de 2025.
O navio, a caminho de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, estava em chamas a cerca de 5 milhas náuticas a nordeste do porto, de acordo com as Forças de Defesa do Quénia. O pessoal da SBU, em colaboração com embarcações locais, resgatou todos os 16 tripulantes.

Menos de um mês depois, 15 comandos do SBU da Marinha integraram uma força interagências que interceptou um navio a cerca de 340 milhas náuticas ao largo da costa de Mombaça, no Quénia. Os fuzileiros navais partiram em pequenas embarcações do navio de patrulha da Marinha, KNS Shupavu, e abordaram e apreenderam o navio a motor sem bandeira, Mashallah.
O navio ilegal, que estava sob vigilância de agências internacionais de combate ao tráfico de drogas, foi escoltado até ao porto. Uma vez lá, as autoridades descarregaram 769 pacotes de metanfetamina, pesando 1.024 quilogramas e avaliados em 63 milhões de dólares. A operação foi apelidada de Operação Bahari Safi, que significa “mares limpos” em Swahili. Tratou-se da segunda maior apreensão de drogas da história do Quénia.
Essas pequenas equipas especializadas permitem que as forças armadas mobilizem forças capazes de se adaptar às ameaças específicas de cada nação. Apesar de serem componentes das forças navais, a sua alçada não se limita às ameaças marítimas. O esquadrão do Gana, por exemplo, tem sido utilizado para lidar com uma série de incidentes relacionados com a terra. Um deles é a mineração ilegal de pequena escala, conhecida internamente como “galamsey,” termo derivado de uma gíria que significa “recolher e vender.” Esta prática priva o país de receitas e prejudica o ambiente.
Anteriormente conhecido como Costa do Ouro, o Gana continua a ser o maior produtor de ouro de todo o continente, de acordo com um relatório do Wilson Center de Novembro de 2024. A galamsey custa ao país mais de 2,3 bilhões de dólares por ano em receitas perdidas. A mineração legal é fortemente regulamentada, mas os mineiros ilegais de pequena escala, muitas vezes, utilizam cianeto e mercúrio, que poluem as fontes de água doce.
Dzakpasu afirmou que as forças armadas ganesas têm trabalhado para combater a galamsey. “O Esquadrão de Barco Especial tem estado no centro dessa operação, particularmente devido à complexidade dessa ilegalidade. Isso ocorre tipicamente em cursos de água em locais isolados, onde não há acesso rodoviário directo. Assim, o esquadrão empregou as suas competências em rios, na água e no ar, sendo mobilizado por meios aéreos, e tem sido eficaz no combate a essa actividade desde cerca de 2017 até 2021.”
O esquadrão do Gana também respondeu ao movimento separatista da Togolândia Ocidental em 2020, segundo Dzakpasu. Os separatistas pretendem criar uma nova nação a partir dos limites do antigo Território de Confiança da Togolândia, que existiu sob administração britânica. Um incidente perto de uma base militar no leste levou os separatistas a “pegar em armas, bloquear pontes e o resto,” disse Dzakpasu. “O esquadrão foi rápido e eficaz na restauração da ordem pública ao entrar em confronto com membros desse movimento.”
Da mesma forma, os membros do esquadrão realizaram operações preventivas de contra-insurgência e combate ao terrorismo no norte do Gana para dissuadir terroristas que operam no Burquina Faso e na região mais ampla do Sahel.

FORMAÇÃO ESPECIALIZADA
O esquadrão do Gana, criado em 2016 com o apoio da Dinamarca, da Nigéria e dos Estados Unidos, formou em 2022 o seu primeiro grupo de operadores treinados no país. Os oito novos membros foram os únicos, de um total de 25, que concluíram o rigoroso treino de seis meses.
De 2016 a 2020, o Gana enviou cinco grupos à Nigéria para treino. Após o regresso, os marinheiros trabalharam em várias equipas, mas sem uma unidade formal ou estrutura de comando e controlo. Em 2021, o chefe do Estado-Maior da Marinha formou oficialmente o esquadrão, e Dzakpasu foi nomeado seu comandante em Março de 2022.
A capacidade de treinar internamente foi uma parte fundamental de um plano de desenvolvimento de cinco anos elaborado em parceria com os EUA e o Grupo de Guerra Especial da Dinamarca, conhecido como Frogman Corps. O plano estende-se até 2026.
Uma ferramenta que ajuda a treinar o esquadrão é um “navio numa caixa” no valor de 1,2 milhões de dólares, que foi encomendado em Agosto de 2024 com a ajuda do governo dinamarquês e do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime. O simulador metálico, que se assemelha a um navio, permite que os membros do esquadrão e outros pratiquem exercícios de visita, abordagem, busca e apreensão. Encontra-se no Comando de Treino da Marinha em Nutekpor, no leste do Gana.
“Em vez de lançar um navio ao mar sempre que se quer realizar operações de abordagem, temos um navio em terra no qual podemos simplesmente entrar, revistá-lo, criar diferentes cenários e treinar novamente,” disse Dzakpasu.
O então ministro da Defesa, Dominic Nitiwul, afirmou que o navio simulado simbolizava um compromisso com a excelência, a dedicação à protecção do Golfo da Guiné e um ambiente de treino realista para diferentes tipos de missões, de acordo com uma reportagem do Ghana Peace Journal de Agosto de 2024.
“As ameaças que enfrentamos hoje, desde a pirataria, o tráfico de drogas, o contrabando, a pesca ilegal e o terrorismo marítimo, entre outras, exigem que dotemos o nosso pessoal do melhor treino possível, preparando-os para todos os cenários imagináveis que possam encontrar no mar,” Nitiwul disse na cerimónia de inauguração.

ESPECIALISTA MARIO HERNANDEZ LOPEZ/EXÉRCITO DOS EUA
Acrescentou que as instalações beneficiarão aliados e nações parceiras, promovendo a cooperação e ajudando as forças marítimas a trabalharem em conjunto de forma harmoniosa. A Nigéria também possui um simulador “navio na caixa” no Centro Conjunto de Formação em Segurança Marítima, em Lagos.
A Nigéria criou o seu próprio Comando de Operações Especiais no Rio Benue em 2025. Este integra o SBS e a Unidade de Segurança Marítima do Projecto Deep Blue.
O treino do SBS é notoriamente difícil e inclui testes de resistência, privação física e natação de longa distância. Os cursos especializados centram se na demolição subaquática, mergulho de combate, pára-quedismo, treino de sobrevivência, combate corpo a corpo, manuseamento de armas e recolha e análise de informações. O treino culmina com a “semana infernal,” na qual os candidatos são levados ao limite físico e mental.
Em Agosto de 2025, o SBS da Nigéria incorporou 33 formandos, menos de metade dos que iniciaram o Curso Básico de Capacidade Operacional de 36 semanas do programa. O Capitão Andrew Zidon, comandante do SBS, afirmou que os formandos “desgastaram milhares de cartuchos de munições e pirotecnia, queimaram milhares de litros de petróleo, óleo e lubrificante, nadaram quilómetros no mar e realizaram inúmeras horas de treinos de alta intensidade.”
O treino tem como objectivo ajudar a força a vencer antes mesmo de pisar no campo de batalha. “Eles demonstraram a aptidão física, a tenacidade mental, a prontidão psicológica e a resistência emocional necessárias para desempenhar as funções que lhes serão atribuídas pela Marinha Nigeriana,” Zidon disse ao jornal nigeriano, This Day.
Dzakpasu disse que prevê que o esquadrão do Gana partilhe mais os seus conhecimentos com os vizinhos africanos e nações parceiras, da mesma forma que a Dinamarca, a Nigéria e os EUA ajudaram a treiná-los.
“Já iniciámos esse caminho,” afirmou. “Com a Nigéria, os planos estão bastante avançados para realizar mais programas de treino de intercâmbio bilateral com o Senegal, com a Costa do Marfim e outras nações. Partilhámos a nossa experiência durante um evento de treino sob os auspícios do Comando de Operações Especiais dos EUA na África, o Exercício Flintlock. Durante o Exercício Flintlock, reunimo-nos e treinamos juntos; ficamos a conhecer-nos melhor.”
Através da sua parceria com a Dinamarca e os EUA, o Gana tem, nos últimos três anos, convidado líderes de nível médio do Benin, da Costa do Marfim, do Quénia e do Senegal para participar num curso de orientação em operações especiais e de planeamento de operações, disse Dzakpasu. “Iniciámos essa parceria e acredito que ela crescerá com mais participação nos próximos anos.”
