Numa altura em que a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante nas missões das forças de operações especiais (SOF), os líderes continuam a acreditar que são os seres humanos, e não o equipamento, que fazem a diferença.
Operadores altamente treinados usam a sua coragem, ética e adaptabilidade para tomar decisões em fracções de segundo no campo de batalha. No meio da agitação provocada por ferramentas como a inteligência artificial (IA), os profissionais de segurança africanos enfatizam a importância de manter o “capital humano” no centro do planeamento das SOF.
“O factor determinante nas SOF é o pessoal, o ser humano,” o Major-General Mohamed Ali Barise, do Exército Nacional da Somália, disse na conferência Silent Warrior 2025, em Nairobi. “A forma como se treina, a forma como se doutrina, molda e instrui determinará o sucesso da missão.”
Mas qual é a melhor maneira de desenvolver estes operadores? Os especialistas acreditam que é uma combinação de selecção rigorosa, treino adaptativo, mentoria e apoio ao longo da carreira.

Processo de Selecção Superior
O treino das SOF é notoriamente extenuante. Os novos recrutas são levados aos seus limites físicos e psicológicos para os preparar para o combate. As unidades das SOF são conhecidas por terem as taxas de desistência mais elevadas nas forças armadas. Alguns grupos de elite formam apenas cerca de 10% dos candidatos.
Os famosos Recces, da África do Sul, por exemplo, têm de suportar um teste conhecido como o desafio supremo, que envolve caminhadas no deserto carregando blocos ou sacos de areia, juntamente com sobrevivência na selva e privação de sono. Os especialistas acreditam que as SOF não devem fugir a esta dureza. Na verdade, deve ser um símbolo de honra usado para atrair jovens dispostos a testar os seus limites.
“Levemos os agentes até um ponto, quase até ao limite, para que, quando chegarem ao terreno e atingirem esse mesmo ponto, não desistam,” disse o Coronel Charles Mugo, comandante adjunto do Comando das Forças de Operações Especiais do Quénia.
No Silent Warrior 25, uma conferência anual das forças especiais, um comandante recordou uma situação em que uma unidade em patrulha na Somália foi emboscada e vários soldados ficaram separados do grupo. Passaram semanas a ter de sobreviver na selva, contando com o seu treino para se manterem vivos. O treino deve preparar os operadores das SOF para tais dificuldades, o comandante disse aos participantes.
As SOF não devem procurar apenas candidatos fisicamente aptos, mas também aqueles que sejam mentalmente resistentes, criativos na resolução de problemas e líderes.
“Analisemos o processo de recrutamento,” disse Mugo. “Recrutemos voluntários que compreendam a natureza do trabalho que irão enfrentar.”

Treino Progressivo
O Coronel Jérôme Francis Nko’o Ella, comandante da Operação Alpha do Bataillon d’Intervention Rapide (BIR), a unidade de elite dos Camarões, conhece bem a importância das unidades das SOF altamente treinadas. O seu país enfrenta terrorismo e banditismo no extremo norte, separatistas no oeste e pirataria ao longo da costa, o que significa que os operadores do BIR devem estar preparados para lidar com diversos tipos de terreno e conjuntos de problemas. Para refrescar as competências e manter a agilidade, os operadores do BIR regressam a cada dois anos para receber formação adicional, a fim de adquirir novas capacidades e assumir novas responsabilidades.
Nko’o Ella disse que esta ênfase na formação é importante. “Noutras partes do mundo, dão ênfase à tecnologia e ao equipamento; em África, não temos os mesmos recursos financeiros, por isso, precisamos de dar ênfase à formação dos soldados em vez de ao equipamento,” disse à ADF durante o Silent Warrior. Acrescentou que é necessário trabalhar com parceiros externos, para que a formação que ministram seja progressiva. Isso significa que, cada vez que um parceiro estrangeiro vem ministrar formação, esta se baseia no que foi aprendido anteriormente. Em última análise, isso resulta num modelo de “formação de formadores” que desenvolve a capacidade interna dos Camarões.
“Nós, os destinatários da formação, devemos sentir que estamos realmente a melhorar as nossas capacidades. Com o tempo, ficamos mais bem organizados,” afirmou. “Os formadores externos também precisam de saber que, cada vez que vêm, estão a obter mais em termos de aumento de capacidades.”
Os melhores módulos de formação têm um ciclo de feedback rápido que utiliza a experiência de combate para actualizar a instrução. Por vezes designado por formação adaptativa ou tentativa e erro, mantém as tácticas, técnicas e procedimentos das SOF actualizados em relação ao que os adversários estão a fazer.
Os líderes das SOF acreditam que a melhor forma de o conseguir é adicionando capacidade de formação local e auto-sustentável nos países africanos. Um exemplo é a Academia Internacional de Combate ao Terrorismo da Costa do Marfim, inaugurada em 2021. Esta oferece 19 programas de treino de forças especiais baseados nos desafios reais enfrentados pelas SOF da África Ocidental.
“Para termos um treino adequado ao contexto de segurança africano, precisamos de olhar para as realidades africanas,” aconselhou Mugo. “Que o nosso treino se baseie nas realidades que enfrentamos no contexto de segurança africano e que todos adaptemos o nosso treino em função do que estamos a viver nos países. A análise de ameaças deve orientar-nos.”
Mugo acredita que o melhor treino decorre de uma doutrina bem elaborada que permita que as unidades das forças especiais da Marinha, da Força Aérea, do Exército, bem como o pessoal policial, trabalhem em conjunto. Esta doutrina, de acordo com as melhores práticas, deve ser actualizada pelo menos a cada cinco anos.
“Todos estes desafios enfrentados no treino das SOF têm origem principalmente na doutrina,” afirmou Mugo. “Se tivermos uma boa doutrina, uma doutrina comum para os operadores especiais, seremos capazes de ter bons líderes.”

Mentoria
Os militares reconhecem que o melhor treino pode não acontecer na sala de aula ou no campo de tiro. Algumas das forças de combate mais eficazes consideram agora a mentoria um pilar estratégico no desenvolvimento do quadro de oficiais.
“Seja nos quartéis, nas academias militares ou em missões de manutenção da paz, os comandantes experientes estão cada vez mais a orientar os oficiais subalternos não só em tácticas, mas também em ética, diplomacia e na natureza em evolução da liderança nas zonas de conflito africanas modernas,” King Richard Igimoh escreveu para o site African Defence & Security.
Quando os jovens operadores das SOF são lançados em ambientes complexos e em rápida mudança, a mentoria pode ser uma força estabilizadora. Promove a transferência de conhecimento intergeracional, reforça a ética e constrói o espírito de corpo.
Mais de 12 países africanos têm programas formais de mentoria, com 62% dos oficiais subalternos a citar a mentoria como chave para a promoção, informou o African Defence & Security.
Entre os países que estabeleceram programas de mentoria com sucesso estão:
A Força de Defesa do Ruanda, que designa comandantes seniores para cadetes na formatura, que trabalham com eles durante cinco anos.
As Forças Armadas do Gana, que designam um oficial mentor em cada batalhão responsável por emparelhar mentores com novos tenentes e capitães.
No Quénia, a mentoria faz parte da Escola de Ética Militar e Liderança, com especial ênfase em garantir que os oficiais em missões de manutenção da paz sejam emparelhados com mentores. As Forças de Defesa do Quénia organizam fóruns após as missões para recolher lições aprendidas e oferecem apoio aos oficiais que regressam.
Outra componente fundamental é o desenvolvimento dos suboficiais (NCO), responsáveis por treinar e manter uma força pronta para a missão e por executar estratégias que têm origem no corpo de oficiais. Na maioria das forças armadas, um novo recruta dependerá de um suboficial para o treino básico, instrução em exercícios e cerimónias, e para manter a ordem e a disciplina.
Um coronel ganês captou a importância da prática quando disse ao site African Defence & Security: “As patentes desvanecem-se, as medalhas enferrujam, mas as lições transmitidas de um soldado para outro — esse é o legado que perdura.”

SOF do Futuro
À medida que os líderes das SOF se preparam para o futuro, procuram formas de apoiar a saúde e o bem-estar dos combatentes. A melhoria das taxas de retenção pode ser feita através de programas que garantam promoções baseadas no mérito e incentivos para que os operadores continuem a sua formação e adquiram competências essenciais. Unidades eficazes das SOF também se concentram em apoiar a vida familiar e a saúde mental dos operadores.
Mas, à medida que a formação das SOF se adapta a novas ameaças e novas tecnologias, os especialistas acreditam que os operadores devem manter-se focados no que os torna únicos: o seu conhecimento, os seus valores e a sua adaptabilidade.
“A guerra é um empreendimento humano,” o vice almirante aposentado dos EUA, Collin Green, da DZYNE Technologies, disse no Silent Warrior, observando que, na sua melhor forma, as SOF são o “tecido conjuntivo” das forças armadas, com conhecimentos regionais, compreensão cultural e competências linguísticas. Isso advém da presença no terreno em áreas disputadas, e “isso não vai desaparecer,” afirmou Green.
À medida que se traça um caminho para o futuro, os líderes exortam as SOF a reforçarem os seus valores fundamentais.
“O operador das SOF deve estar bem treinado e preparado como uma máquina de combate, mas o valor vai além disso,” considerou Barise, da Somália. “É a ideologia, a doutrina, a razão pela qual vestem o uniforme. É a forma como conduzem a operação, o espírito em que acreditam, a integridade, o profissionalismo, a coragem. Estes são os factores determinantes para um soldado ser um soldado.”
Um Modelo para Apoiar o Combatente
À medida que os líderes procuram apoiar o capital humano das SOF, um modelo utilizado pelas forças armadas e grandes organizações a nível global pode ser útil. Este quadro de identificação de soluções para problemas organizacionais complexos é conhecido por uma sigla — DOTMLPFI — que pode ser útil para concentrar esforços. Significa:
- Doutrina: estes princípios fundamentais, oficialmente sancionados, orientam a forma como as forças militares se organizam, treinam e utilizam as suas capacidades para alcançar os objectivos de segurança nacional. A doutrina é um quadro de acção comum que evolui constantemente. Quando a doutrina não está alinhada com as realidades da missão, os operadores têm dificuldade em ter sucesso.
- Organização: é assim que as forças combatem em unidades dentro de uma estrutura de comando. Apoiar o desenvolvimento do capital humano significa oferecer aos operadores percursos de carreira claros e promoções baseadas no mérito dentro da sua organização.
- Formação: na melhor das hipóteses, o treino das SOF incorpora lições aprendidas e adapta-se às realidades no terreno. Deve também estar voltado para o futuro, de modo a antecipar as tácticas do inimigo. O melhor treino é progressivo, em vez de repetitivo. É também auto-sustentável, liderado por formadores e instituições nacionais.
- Material: os operadores das SOF estão a adoptar rapidamente novas armas e ferramentas de alta tecnologia para enfrentar adversários obscuros e assimétricos. No entanto, dizem os veteranos das SOF, o melhor equipamento não é necessariamente o mais avançado, mas aquele que pode ser mantido de forma consistente no terreno e reparado quando necessário.
- Liderança: a liderança das SOF exige coragem moral, disciplina e a capacidade de tomar decisões rápidas no meio da confusão da guerra e aceitar a responsabilidade por elas. À medida que as unidades das SOF procuram desenvolver líderes, promovem cada vez mais relações de mentoria intergeracional.
- Pessoas: desenvolver capital humano significa apoiar os guerreiros fora do campo de batalha. Isso requer apoiar as suas famílias, as suas aspirações profissionais e a sua saúde física e mental.
- Instalações: operadores eficazes são forjados em bases, quartéis, campos de treino e instituições de ensino superior. Para apoiar o seu capital humano, as SOF devem dispor de instalações adequadas.
- Interoperabilidade: à medida que as ameaças atravessam fronteiras, torna-se cada vez mais importante que as SOF sejam interoperáveis com um vasto leque de parceiros de segurança. Isso inclui forças de outros países, os ramos das suas próprias forças armadas e outras agências de segurança nacionais.

