O som de tiros e explosões começou por volta da 01h00 da manhã de 29 de Agosto, dando início a uma noite de combates intensos na Base Aérea 101, uma instalação militar no Aeroporto Internacional Diori Hamani, na capital do Níger.
O terceiro ataque do ano contra Niamey, após um em Janeiro perpetrado por um grupo afiliado ao Estado Islâmico e outro em Junho pelo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, da al-Qaeda, foi diferente. Este teve origem no seio do exército e, ao contrário do conflito do Níger com os terroristas, foi reprimido pelos mercenários do Africa Corps da Rússia.
Segundo Héni Nsaibia, analista sénior para a África Ocidental, do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, a revolta fracassada “revela graves divisões no seio das forças armadas do Níger.”
“O regime acabou por recorrer ao apoio do Africa Corps da Rússia para reprimir a revolta,” escreveu numa análise de 1 de Setembro.
E acrescentou: “Mesmo que o Presidente Abdourahamane Tiani permaneça no poder, as consequências da revolta poderão enfraquecer ainda mais as forças armadas do Níger. É provável que o regime desvie recursos da luta contra os grupos jihadistas para monitorizar ameaças internas, enquanto uma purga provavelmente enfraqueceria ainda mais a coesão no seio das forças armadas do Níger.”
Abdel Nasser Elyessa, investigador do Instituto de Estudos Estratégicos da Academia Internacional para a Luta contra o Terrorismo, na Costa do Marfim, disse que recorrer a mercenários para resolver um problema no seio das forças armadas era “sem precedentes” e expõe os fracassos do Africa Corps da Rússia em obter quaisquer ganhos significativos contra a propagação contínua do terrorismo no Sahel.
“Na África Ocidental, os golpes de Estado militares estão a tornar-se um risco estrutural,” disse à Agence France-Presse.
Quando tomou o poder num golpe de Estado em 2023, a junta militar tentou justificar as suas acções com uma retórica sobre soberania e independência face à influência estrangeira. Depois de apelar à Rússia para que a resgatasse do seu próprio exército, a junta encontra-se agora em contradição com a sua missão original, argumentou o Instituto Tombuctu.
“Embora o governo de Abdourahmane Tiani tenha feito da soberania em matéria de segurança um dos pilares da sua legitimidade, a intervenção de um parceiro externo para ajudar a conter uma crise interna levanta uma questão central: até onde pode ir a busca da autonomia estratégica quando esta anda de mãos dadas com uma dependência crescente de Moscovo?,” o grupo de reflexão sediado em Dakar disse num relatório de 30 de Agosto.
A televisão estatal nigerina disse que o ataque envolveu “centenas de soldados descontentes.” Quando tudo terminou, foi lida em directo uma declaração do Ministro da Defesa, o General Salifou Modi, que descreveu a revolta como um “ataque de raiva” por parte de um “grupo de soldados que violou os regulamentos militares.”
Analistas e fontes de segurança afirmaram que os amotinados tinham servido na linha da frente da luta contra grupos terroristas. Alguns teriam sido originários de zonas como Dosso, Ouallam e Tera, no sudoeste do Níger, onde o exército sofreu pesadas perdas.
“Ainda há uma semana, cerca de 18 soldados foram mortos num ataque à sua posição na região sul de Dosso,” Nsaibia disse à Reuters no dia 29 de Agosto. “Estes ataques de invasão que causam baixas em massa contra as forças armadas do Níger estão a tornar-se comuns e continuarão a alimentar a agitação e a agravar as tensões nas fileiras do exército.”
Os analistas afirmam que os mercenários do Africa Corps no Sahel se revelaram ineficazes no combate ao terrorismo, enquanto testemunhas e grupos de direitos humanos documentaram a forma como os combatentes russos ignoram sistematicamente as vidas dos civis.
“Combater os jihadistas é uma segunda prioridade (para o Africa Corps), mas a primeira prioridade é sustentar regimes, e estão a ter sucesso nisso,” Wassim Nasr, investigador sénior do The Soufan Center, disse à The Associated Press.
Sob a influência russa, o governo de Tiani isolou-se dos países vizinhos, retirou-se do seu bloco regional e afastou-se dos parceiros internacionais, ao mesmo tempo que reprime os civis e elimina a dissidência.
“Os grupos jihadistas serão os únicos vencedores nesta situação,” Nsaibia disse à Reuters.
