Já não é apenas uma forma de produzir propaganda; a IA tornou-se uma ferramenta fundamental para os grupos terroristas, que a utilizam para planear ataques, ensinar a fabricar explosivos e muito mais.
“Digita-se a pergunta ou utiliza-se a voz e ela [a IA] dá uma resposta detalhada, do tipo ‘Como posso fabricar uma bomba?,’ e depois explica como o fazer. É como um robot humano! Utilizávamo-la muito,” um antigo membro do Boko Haram disse a um investigador da Universidade de Cambridge.
Num estudo publicado recentemente, a investigadora Antonia Juelich revelou até que ponto o Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental utilizam ferramentas de IA, tais como o ChatGPT, o Grok e o DeepSeek, para obter instruções e orientação.
“Esta utilização da IA está institucionalizada através de unidades especializadas e de formação interna,” escreveu Juelich. “Tem ajudado no planeamento de ataques, na resolução de problemas com armas e na concepção de dispositivos explosivos, visto que os utilizadores conseguiram contornar com sucesso algumas medidas de segurança.”
Juelich baseou o seu relatório em entrevistas a 27 antigos membros do Boko Haram e do ISWAP no nordeste da Nigéria. Entre os entrevistados contavam-se comandantes de nível médio e especialistas técnicos que estiveram envolvidos com os grupos pela última vez em 2024.
Avaliações anteriores que sugeriam que os terroristas utilizavam a IA apenas para produzir propaganda subestimaram a realidade da situação, segundo Juelich.
“Os antigos membros descrevem a IA como uma solução de eleição para a resolução de problemas,” escreveu no seu relatório intitulado “‘Deus ajudou-nos, e a IA também o fará’: Como o Grupo Terrorista Boko Haram Utiliza a IA de Ponta.”
Quando os terroristas do ISWAP viram os seus ataques frustrados pelas trincheiras defensivas em torno das bases militares, os comandantes recorreram à IA para encontrar formas de saltar por cima das trincheiras com as suas motas, a fim de romper as defesas das bases.
Antigos membros do ISWAP contaram a Juelich que formadores estrangeiros do grupo Estado Islâmico, a quem descreveram como os “homens brancos,” forneceram aos líderes do ISWAP computadores portáteis, ligações à internet encriptadas e contas online. Também deram formação aos membros do ISWAP sobre como redigir consultas de IA que contornam as restrições relativas à informação potencialmente prejudicial.
Num relatório separado, Steph Guerra, investigadora da Rand Corp., observou que os sistemas de IA variam na sua capacidade de bloquear o tipo de informação e instruções que os terroristas procuram.
“Infelizmente, as salvaguardas actuais estão fragmentadas entre empresas, governos e países e não foram concebidas para funcionar em conjunto,” Guerra escreveu no seu relatório “Construindo uma Estratégia de Biossegurança de Defesa em Profundidade para a Era da IA.”
“Um indivíduo isolado, com recursos ou conhecimentos técnicos limitados, pode ser impedido de agir através do corte do acesso a materiais e informações essenciais,” escreveu Guerra. “Um grupo bem financiado ou um programa estatal constitui um alvo mais difícil e é mais provável que seja dissuadido através do aumento dos custos de um ataque — ou das probabilidades de ser apanhado.”
Antigos combatentes do Boko Haram e do ISWAP afirmaram a Juelich que as actuais restrições da IA em matéria de, por exemplo, fabrico de bombas são “geríveis, em vez de proibitivas.” Equipas especializadas sabem como manipular a pesquisa da IA para obterem o que pretendem.
“Dizem que precisam disso para um filme ou algo do género,” um entrevistado disse a Juelich.
Caso uma consulta resulte numa rejeição ou suspensão, os terroristas limitam-se a tentar novamente utilizando outra conta online.
Embora nem o Boko Haram nem o ISWAP tenham conseguido adquirir armas químicas, biológicas, radiológicas ou nucleares, a ameaça é real. As empresas tecnológicas e os governos devem reforçar as medidas de segurança à medida que os modelos de IA continuam a evoluir, a fim de impedir a sua utilização no planeamento de ataques com vítimas em massa, escreveu Juelich.
“A adopção da IA pelos terroristas avançou, assim, mais e de forma mais sistemática do que as análises anteriores reconheceram, tornando-a uma realidade actual e crescente que merece a atenção dos decisores políticos, das comunidades de segurança e dos desenvolvedores de IA,” acrescentou.
