Os Camarões estão a trabalhar para cancelar o registo e sancionar embarcações estrangeiras que se registam ilegalmente no país para evitar a detecção. Estes petroleiros da frota-sombra, muitas vezes, transportam petróleo iraniano, russo e venezuelano e há muito que abusam da bandeira do país para evitar sanções.
As reformas incluem a suspensão de novos registos de navios que operam fora das águas camaronesas e a auditoria ao registo marítimo do país. Os Camarões estão a implementar estas mudanças na sequência da pressão exercida pela União Europeia e pela Organização Marítima Internacional. As autoridades estão também a envidar esforços para reforçar o processo digital de registo de navios do país, com vista a reduzir a fraude e melhorar a rastreabilidade.
“Embora louváveis, estas reformas, por si só, não podem pôr fim à exploração do registo dos Camarões,” escreveu Raoul Sumo Tayo, investigador sénior do Instituto de Estudos de Segurança (ISS). “As alterações legislativas, a devida diligência e as verificações dos proprietários efectivos abordam uma parte do problema, mas não resolvem a questão de certificados falsos, de sites fraudulentos, das identidades digitais comprometidas ou das embarcações que se fazem passar por navios com pavilhão dos Camarões.”
Correctores na Geórgia, no Montenegro e na Turquia têm utilizado plataformas digitais piratas para falsificar as assinaturas dos chefes dos distritos marítimos dos Camarões, a fim de obter certificados de registo falsos, notas de pagamento e outros documentos, segundo relatou a ISS Today, uma publicação do ISS.
Os Camarões são um dos vários países da África Ocidental que foram vítimas do sistema das “bandeiras de conveniência,” no qual um navio arvorava a bandeira de um país diferente daquele que o detinha. Os navios da frota-sombra também se dedicam à prática do “flag hopping,” que consiste em registar-se regularmente em novos Estados de bandeira para evitar a detecção.
O registo de bandeira de Yaoundé é considerado um dos registos de maior risco do mundo, de acordo com a Lloyd’s List, uma plataforma digital de notícias marítimas. Em Fevereiro de 2026, a Clarksons Research informou que os Camarões registaram um aumento de 126% nos registos de navios nos 12 meses anteriores.
Os navios estrangeiros abusam do registo dos Camarões devido a falhas de governação e a controlos administrativos, técnicos e sociais inadequados. A propriedade dos navios é difícil de verificar, visto que os petroleiros da frota-sombra geralmente estão associados a esquemas empresariais complexos. Segundo Tayo, 100 navios foram associados à frota-sombra russa desde Dezembro de 2025.
“A administração marítima dos Camarões carece de capacidade para verificar potenciais ligações com uma entidade sancionada, aceder a plataformas para analisar o histórico da bandeira de um navio e subscrever ferramentas básicas de verificação de conformidade,” escreveu Tayo. “Além disso, o país não dispõe de capacidade tecnológica para monitorizar diariamente os seus navios registados.”
A frota-sombra da Rússia é composta por cerca de 591 navios que transportam cerca de 4,1 milhões de barris de petróleo por dia, embora alguns transportem agora gás natural. A frota, que opera a nível global, gera cerca de 100 bilhões de dólares em receitas anualmente.
De acordo com a Bloomberg, 11 dos 14 petroleiros que arvoravam pavilhão dos Camarões em 2023 podiam ser rastreados até portos petrolíferos russos. Em 2024, o The Maritime Executive noticiou que os Camarões eram amplamente considerados um refúgio seguro para a frota fantasma de Moscovo.
“Historicamente, os navios registados nos Camarões têm estado ligados a outras operações de contrabando de petróleo, particularmente no Irão e na Venezuela,” escreveu o jornal.
O Irão, que também depende fortemente das exportações de petróleo, opera cerca de 170 navios sombra, de acordo com a S&P Global, uma empresa de dados e análises financeiras. As exportações de petróleo de Teerão totalizaram cerca de 1,6 milhões de barris por dia em 2024 e 2025, um aumento em relação aos 434.000 barris diários registados em 2020. A frota sombra transporta a maior parte do petróleo iraniano. Ambas as frotas são compostas principalmente por petroleiros envelhecidos que, muitas vezes, operam sem cobertura de seguro adequada.
As frotas sombra que operam nos Camarões também são acusadas de facilitar crimes marítimos, tais como a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada e o contrabando de drogas. O país perde cerca de 33 milhões de dólares anualmente devido à pesca ilegal.
Em Agosto de 2025, os Camarões retiraram do seu registo o Sky White, que estava registado como navio de pesca sob a bandeira camaronesa. O navio foi retirado após uma operação conjunta das marinhas marroquina, espanhola e norte-americana ter descoberto 3 toneladas de cocaína a bordo, segundo noticiou a revista camaronesa Le Continent.
Os especialistas afirmam que os Camarões têm de fazer mais do que actualizar o seu registo para vigiar adequadamente as suas águas.
“Para que os Camarões transformem as suas vulnerabilidades num modelo regional de modernização da gestão marítima, é necessário um corpo especializado da marinha mercante com capacidades de controlo, ferramentas de conformidade e sistemas de localização em tempo real,” escreveu Tayo.
Tayo sugeriu também que Yaoundé optimize a colaboração com parceiros internacionais para melhorar a segurança marítima e se ligue ao Sistema Global Integrado de Informação Marítima da Organização Marítima Internacional, a fim de aceder aos históricos dos pavilhões das embarcações antes de estas serem registadas.
