O investigador zimbabweano Charles Moyo acredita que a região da África Austral está numa encruzilhada. Embora desfrute de paz e estabilidade em comparação com o resto do continente, enfrenta a ameaça da expansão do terrorismo por parte de afiliados do Estado Islâmico no norte de Moçambique e no leste da República Democrática do Congo.
Moyo, investigador sénior e director de política regional e investigação no Centro da África Austral para a Mediação e Prevenção do Extremismo, disse que a mineração ilegal de ouro está a emergir como uma ameaça à segurança que os grupos extremistas violentos podem explorar.
“A proximidade da Zâmbia à República Democrática do Congo (RDC) e a insurgência e mobilidade transfronteiriça em Moçambique aumentam o risco de tráfico de ouro e de extremismo violento,” escreveu numa análise de 7 de Julho para o site sul-africano defenceWeb. Disse que o seu relatório tinha como objectivo analisar “como a corrida ao ouro, os fluxos financeiros ilícitos e a fraca regulamentação podem contribuir para o extremismo violento, não só na Zâmbia, mas em toda a África Austral, e o que os governos podem fazer para impedir que esse risco se agrave.”
O comandante do Exército da Zâmbia, o Tenente-General Geoffrey Zyeele, liderou esforços intensificados para combater a mineração ilegal desde Janeiro de 2025, quando anunciou a criação de um grupo de trabalho multissectorial composto por soldados, agentes da polícia e funcionários governamentais. Em meados de 2025, a Zâmbia destacou forças especiais para a província do Noroeste, a fim de expulsar os mineiros de ouro ilegais de pequena escala.
“Os nossos serviços de informação indicam que alguns dos indivíduos envolvidos são altamente sofisticados, enquanto outros possuem treino militar,” Zyeele disse num comunicado de Janeiro de 2026. “Não se trata de mineiros comuns, mas de sindicatos criminosos organizados.”
As agências de segurança também detectaram a presença de drones de vigilância, munições, explosivos e armamento pesado.
“Isso eleva a questão a uma grave preocupação de segurança nacional,” afirmou Zyeele.
A ligação entre a exploração de ouro e a actividade terrorista foi estabelecida no Sahel e na RDC, onde a exploração ilegal de coltan e cobalto também tem estado interligada com milícias armadas e redes criminosas transnacionais.
Visto que a província do Noroeste da Zâmbia, rica em ouro, faz fronteira com a RDC e o país também partilha uma fronteira com Moçambique, que é o epicentro do extremismo violento na África Austral, Moyo considera que o recurso às forças armadas se justifica.
“Moçambique, que é vizinho da Zâmbia e está mais próximo das comunidades mineiras, tem assistido ao Estado Islâmico em Moçambique (ISM) ir além da exploração de queixas relacionadas com os recursos naturais, integrando sistematicamente a mineração de ouro, rubis e grafite nas suas estratégias operacionais e de financiamento,” escreveu. “Na mesma linha, há relatos que associam o ouro, sobretudo no Zimbabwe, ao contrabando, à lavagem de dinheiro e à violência por parte de quase-milícias. Tal situação deve ser evitada na Zâmbia, numa altura em que avança para uma crise de segurança tanto a nível nacional como regional.”
Moyo alerta que o ISM poderá obter acesso a jazidas de ouro para financiar ainda mais a violência em toda a região da África Austral. Os mineiros armados de diferentes países constituem também alvos fáceis para o recrutamento terrorista, devido às suas queixas e à sua situação de indocumentados.
“Embora a corrida ao ouro na Zâmbia e a insegurança nas áreas em causa não tenham sido directamente associadas a grupos extremistas, se a situação policial continuar fraca, grupos extremistas de Moçambique e da RDC poderão encontrar uma oportunidade para explorar o ouro a fim de financiar e sustentar as suas actividades extremistas,” escreveu. “A radicalização de jovens e comunidades nas zonas de mineração de ouro também poderá ser fácil para esses grupos, dada a sua proximidade com armas e factores de radicalização.”
