O ataque terrorista de Abril, que matou o Ministro da Defesa do Mali na sua residência, reforçou a ideia de que o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin pode um dia assumir o controlo do país.
Ao longo do último ano ou mais, o grupo, também conhecido como JNIM, impôs um bloqueio económico ao país sem litoral, o que paralisou em grande parte a capital, Bamako. A sua aliança com a Frente de Libertação do Azawad (FLA), de origem Tuaregue, expulsou as forças governamentais e os mercenários russos do norte do país durante a mesma operação que matou o Ministro da Defesa, Sadio Camara.
O ataque que matou Camara em Kati, onde se situa a principal base militar do país, nos arredores de Bamako, atingiu o coração da junta, pois muitos dos seus principais líderes residem nessa localidade. Um ataque tão ousado tão perto da capital aumenta a possibilidade de a junta, que governa o país desde 2020, acabar por cair, segundo os analistas.
“Este ataque em grande escala expõe a vulnerabilidade da junta militar liderada por Assimi Goïta,” o analista David Doukhan escreveu para o Instituto Internacional de Combate ao Terrorismo. “A captura de Bamako torna desnecessária a conquista de territórios mais vastos e poderá decidir o destino do conflito sangrento no Mali.”
O JNIM conta com cerca de 6.000 combatentes activos, mas reúne vários grupos jihadistas com o objectivo de criar um califado regional que apagaria fronteiras nacionais com décadas de existência. Também começou a expandir-se para além do Mali, para o Benin e o noroeste da Nigéria. Os outros membros do Mali na Aliança dos Estados do Sahel não conseguiram mobilizar forças ao abrigo do acordo de defesa regional do grupo, criado logo após a sua saída da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. Isso deixa o JNIM praticamente livre para prosseguir os seus próprios objectivos.
Embora o JNIM seja aliado do FLA no norte, muitos analistas afirmam que a perspectiva de o JNIM vir a assumir o controlo do Mali é remota sem a ajuda de grupos terroristas rivais, como o Estado Islâmico — ajuda que é improvável que obtenha. No entanto, caso isso venha a acontecer, poderá perturbar a dinâmica de segurança em toda a região, segundo o analista de segurança nacional nigeriano, Fulan Nasrullah. Tal porque é improvável que as fileiras do JNIM se contentem em controlar apenas o Mali, escreveu Nasrullah.
“Um [JNIM] que governe um Estado inteiro — e que continue expansionista e empenhado em remodelar a ordem regional pela força — é um desafio que nenhum país da região tem actualmente capacidade para enfrentar,” Nasrullah escreveu recentemente no site de segurança War on the Rocks.
O JNIM tornar-se-ia ainda mais perigoso se adquirisse os efectivos, o dinheiro e as armas de um exército nacional, segundo Nasrullah.
A melhor salvaguarda contra esse risco é que potências regionais como a Nigéria e o Senegal se unam aos seus vizinhos que fazem fronteira com o Mali, incluindo a Guiné e o Benin, segundo Nasrullah.
“Isso significa alargar a partilha de informações e ajudar as forças armadas locais a criar unidades bem treinadas e especializadas para funcionarem como grupos móveis de reacção rápida, com o objectivo de conter a mobilidade transfronteiriça dos insurgentes, em vez de formações de operações especiais com falta de efectivos e de treino,” acrescentou.
Entretanto, o JNIM continua a ser uma ameaça crescente para o Mali e para os países vizinhos.
“O Mali ainda não caiu,” escreveu Doukhan. “Mas está a tremer e mais perto do que nunca do colapso total.”
