Combatentes do Boko Haram mataram quase duas dezenas de soldados no início de Maio, quando atacaram uma base militar chadiana numa ilha do Lago Chade. O ataque é o mais recente lembrete de que as forças armadas devem adaptar as suas tácticas para se manterem à frente dos terroristas que operam na região, segundo os analistas.
A “MNJTF [Força-Tarefa Conjunta Multinacional] deve intensificar os seus esforços tácticos e tecnológicos e, acima de tudo, envolver-se de forma mais consistente para continuar a enfraquecer as facções e garantir a estabilização, a fim de facilitar o apoio às comunidades afectadas,” os investigadores do Instituto de Estudos de Segurança (ISS) da África do Sul escreveram num relatório recente.
Nos últimos anos, o Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) foram expulsos dos centros populacionais na região partilhada por Camarões, Chade, Níger e Nigéria. Os grupos refugiaram-se nas ilhas, pântanos e florestas do Lago Chade, onde travaram uma guerra territorial pelo controlo do território.
Os civis, muitos dos quais lutam para ganhar a vida pescando no lago, muitas vezes, encontram-se presos no meio.
Há mais de uma década que a MNJTF, composta por soldados do Benin, Camarões, Chade, Níger e Nigéria, tem sido um baluarte contra o Boko Haram e o ISWAP em torno do Lago Chade. A força-tarefa desempenhou um papel crucial na promoção de maior estabilidade na região através de uma combinação de “medidas não cinéticas e cinéticas,” segundo investigadores do ISS.
“A MNJTF alcançou resultados significativos, nomeadamente reduzindo o controlo territorial do grupo militante para níveis nunca vistos em 2014 e 2015,” os analistas escreveram num relatório recente.
Apesar desses sucessos, a MNJTF teve de compensar a perda do Níger, que se retirou da iniciativa em 2025, deixando uma lacuna na região de Diffa.
A junta governante do Níger afirmou na altura que estava a redistribuir essas forças para proteger o seu oleoduto para o Benin, que continua sob ataque contínuo de grupos terroristas. No entanto, a retirada também reflectiu as tensões entre o Níger e a Nigéria após o golpe que levou os governantes do Níger ao poder em 2023.
“Esta retirada sublinha os desafios mais amplos que os esforços regionais de combate ao terrorismo enfrentam: colaboração insuficiente entre as nações para combater uma ameaça transnacional, agravada por interesses nacionais conflituantes,” escreveram na altura os investigadores da African Security Analysis.
Além disso, a decisão da junta nigerina de abandonar a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, juntamente com o Burquina Faso e o Mali, perturbou as redes regionais de partilha de informações e a cooperação militar.
Os ataques do Boko Haram a postos militares do Chade também levaram os líderes daquele país a questionar a sua participação continuada na MNJTF.
A última grande operação regional da MNJTF, “Lake Sanity 2,” ocorreu em 2024. Desde então, o Boko Haram e o ISWAP recrutaram novos membros e recuperaram força, o que demonstraram ao atacar bases militares na região, mesmo enquanto lutam entre si pelo território e expandem o seu alcance para além da Bacia do Lago Chade.
Ao mesmo tempo, o ISWAP tornou-se mais proficiente na utilização de drones para a recolha de informações e como dispositivos explosivos improvisados voadores contra alvos militares.
Manter a vantagem sobre o Boko Haram e o ISWAP exigirá que as nações da Bacia do Lago Chade melhorem as suas capacidades de comunicação, cooperação e tecnológicas, segundo os analistas do ISS.
Isso significa pôr de lado as diferenças políticas, como as que criam tensão entre o Níger e a Nigéria, talvez com a ajuda da União Africana, acrescentaram.
“Com um perigo evidente a pairar, os Estados da LCBC [Comissão da Bacia do Lago Chade] devem renovar o seu compromisso político e aliviar as tensões internas para restaurar a regionalidade da MNJTF,” escreveram os investigadores do ISS.
