Enquanto potências estrangeiras assinam acordos comerciais e aprofundam as relações diplomáticas em África, um interveniente estrangeiro opera principalmente nos bastidores: a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC, na sigla inglesa).
“A IRGC, o império militar e de inteligência do regime, passou quarenta anos a construir uma rede secreta em toda África, envolvendo-se em conflitos locais, recrutando partidários ideológicos, armando movimentos insurgentes e transformando regiões inteiras em extensões do projecto estratégico de Teerão,” de acordo com uma publicação no blogue da jornalista iraniana, Shabnam Assadollahi.
Os muitos esforços do grupo incluem doutrinação ideológica no norte da Nigéria, contrabando de armas no Sudão e planos terroristas noutros locais.
As origens da influência da IRGC na Nigéria remontam ao clérigo Ibrahim al-Zakzaky. Ele formou o Movimento Islâmico na Nigéria (IMN) após visitar o Irão em 1980 e adoptar o islamismo xiita, há muito uma prática minoritária na Nigéria e no continente. Enquanto al-Zakzaky conquistava seguidores, promovia intercâmbios educativos que levavam os estudantes a frequentar a Universidade Al-Mustafa, que tem sido associada à Força Quds, uma unidade especial da IRGC responsável por operações externas, de acordo com a revista The Africa Report.
Em 2025, a Universidade Al-Mustafa tinha instalações em pelo menos 17 países do continente, do Senegal à Tanzânia e à África do Sul, e em todo o Sahel, de acordo com o site Les clés du Moyen-Orient.
“ Ao expandir a rede da Universidade Al-Mustafa nos países do continente africano, o Irão pretendia desempenhar um papel importante na definição das políticas iranianas em África, para alcançar interesses e objectivos que servissem o Irão a nível geoestratégico, nomeadamente exportar a revolução, penetrar na sociedade africana, nas suas elites e instituições, difundir o xiismo e recrutar combatentes para a Guarda Revolucionária,” de acordo com o resumo de um artigo da revista Qira’at Afriqiyah.
Assadollahi escreveu que a IRGC usou al-Zakzaky “como núcleo para construir uma estrutura organizacional ao estilo do Hezbollah na Nigéria,” acrescentando que o IMN usa o mesmo modelo do grupo terrorista, incluindo um clérigo com “autoridade suprema,” activismo religioso que esconde uma ala paramilitar e o recrutamento de jovens descontentes.
A interacção da IRGC com o Hezbollah em África é amplamente documentada. Sabe-se que o grupo terrorista aproveita a grande diáspora libanesa na África Ocidental para financiar e contrabandear a fim de apoiar o terrorismo, “e o continente tornou-se um importante centro de actividades de angariação de fundos e mercado negro do grupo,” de acordo com “Charting Iran’s Influence in Africa (Mapeamento da Influência do Irão em África),” um artigo de 2025 de
Alexander Brown, Charlotte Krausz e Rob Gioia para o Conselho Americano de Política Externa.
“A milícia xiita é conhecida por estar profundamente envolvida no comércio de drogas no continente, e aproximadamente 30% dos lucros da cocaína que transita pelo continente e se destina a nações ocidentais podem ser atribuídos ao Hezbollah,” lê-se no artigo. “Além disso, o Hezbollah tem sido associado ao tráfico de armas em África.”
Na região do Sahel, o vácuo causado por terroristas e golpes de Estado permitiu que as forças da IRGC se infiltrassem por meio de traficantes de armas, milícias locais e grupos minoritários xiitas. O IMN, com sede na Nigéria, opera vários meios de propaganda, incluindo revistas de notícias em Inglês e Hausa e uma estação de rádio em língua Hausa chamada al-Shuhada, que se traduz como “os mártires,” de acordo com um relatório da organização sem fins lucrativos United Against Nuclear Iran (UANI).
O Irão também opera a Hausa TV, considerada o primeiro meio de comunicação iraniano a focar-se em África. A maioria dos falantes de Hausa vive no sul do Níger e no norte da Nigéria, mas também há populações Hausas em partes do Benin, Burquina Faso, Camarões, Chade, Gana, Sudão e Togo.
O IMN tem sido fundamental na disseminação da sua ideologia pró-iraniana na região mais ampla do Sahel e da África Ocidental, “dando ao Irão uma presença doutrinária nascente nesses países,” de acordo com a UANI.
Em todo o continente, o Sudão tornou-se o contrapeso logístico da IRGC à sua presença ideológica na Nigéria, escreveu Assadollahi. O grupo começou a estabelecer fábricas de armas, centros de treino e “corredores de armas e pessoal que atravessavam Port Sudan” durante o regime de Omar al-Bashir, no início da década de 1990.
“A IRGC usou o Sudão como a principal rota para armas destinadas ao Sinai, Gaza e além. Os ataques israelitas a comboios sudaneses em 2009, 2012 e 2014 confirmaram a escala desses carregamentos,” escreveu Assadollahi, acrescentando que o corredor ainda é usado.
Em 1994, agentes da IRGC foram ao Sudão para treinar militantes islâmicos de todo o continente. O governo do Sudão permitiu que armas fossem enviadas através do país para o grupo terrorista Hamas, outro representante iraniano.
Mais ao longo da costa do Mar Vermelho, as forças navais da IRGC utilizaram portos da Eritreia para atracação secreta, recolha de informações e apoio logístico para operações baseadas no Iémen, escreveu Assadollahi. O Iémen é o lar dos rebeldes Houthis, representantes do Irão, que utilizam o apoio iraniano para atacar navios comerciais que transitam pelo importante corredor do Mar Vermelho, que inclui dois pontos de estrangulamento notáveis — o Canal do Suez, no norte, e o Estreito de Bab el-Mandeb, no sul.
O pessoal da Força Quds na Eritreia apoiou o al-Shabaab na sua insurgência terrorista contra o governo central da Somália em meados da década de 2000, de acordo com a UANI. A IRGC e a sua Força Quds também vêem a vizinha Etiópia como um local para fornecer apoio logístico às redes da África Oriental e como uma porta de entrada para o Corno de África e a costa do Mar Vermelho, escreveu Assadollahi. O pessoal da IRGC tem usado centros culturais locais para operações ideológicas.
“Em resumo, o Irão está a apostar no continente africano, aproveitando o vácuo político e de segurança que surgiu devido à grave erosão da influência ocidental nos países africanos,” de acordo com um artigo de Maio de 2025 de Dana Citrinowicz para o Instituto de Estudos de Segurança Nacional. “O Irão está a ganhar significativamente com estas ligações — economica, diplomatica e até operacionalmente.”
