O Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), controlado pelo Estado, investiu milhões de dólares em projectos em África. Um novo relatório revela que o banco concedeu empréstimos apesar de ignorar a corrupção nos países beneficiários, enquanto alinhava os seus investimentos com os objectivos políticos da China no continente.
O relatório, intitulado “China Capital,” elaborado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, analisou cerca de 5 milhões de documentos internos, de 2005 a 2024, conservados nos escritórios do banco em Londres, com o objectivo de identificar a forma como o ICBC cortejou mutuários de alto risco em África e noutros locais, a fim de garantir recursos e alianças para a China.
Entre os documentos encontravam-se instruções do comité do Partido Comunista do ICBC, que promove as políticas governamentais. A investigação revelou que o ICBC colaborou com clientes que outras instituições de crédito evitavam devido a casos de corrupção ou a proprietários sujeitos a sanções.
“Os formulários de pedido de crédito e outros registos confidenciais incluíam, por vezes, a expressão ‘justificação da China’ para explicar por que razão o ICBC de Londres desejaria avançar com um negócio, revelando a natureza geopolítica de alguns empréstimos,” a investigadora Scilla Alecci escreveu no relatório.
O ICBC realiza grande parte da sua actividade em África através do maior banco do continente em termos de activos, o Standard Bank Group da África do Sul, que possui filiais em 21 países africanos. O ICBC iniciou as suas relações com o Standard Bank Group em 2007 e renovou o seu investimento em 2023. Actualmente, detém uma participação de 19,7% no banco sul-africano.
O Standard Bank disse à revista The Africa Report que, apesar da participação do ICBC, o Standard Bank continua a ser uma instituição independente que opera de acordo com as suas próprias directrizes para a concessão de empréstimos.
“Nenhum accionista individual é responsável por determinar as decisões de concessão de crédito,” o banco disse à The Africa Report.
Um relatório interno elaborado na sede do ICBC em Pequim, em 2024, alertou que as operações do banco no estrangeiro revelavam uma fraca selecção de clientes, uma supervisão deficiente dos colaboradores e relatórios incompletos sobre os esforços de combate ao branqueamento de capitais. De acordo com o relatório, alguns altos responsáveis do ICBC não tomaram medidas após receberem relatos sobre os problemas.
“Quando convinha a Pequim, como revelam os registos, os investidores prestavam de bom grado serviços a empresas estatais — mesmo aquelas que não eram transparentes quanto aos seus fluxos financeiros e que eram controladas por governos que, nas palavras de um banqueiro do ICBC, eram ‘claramente cleptocracias,’” escreveu Alecci.
A Sonangol, empresa petrolífera estatal angolana do Grupo Sonangol, foi um dos clientes do ICBC que recebeu empréstimos avultados, apesar de um historial de corrupção. A empresa recebeu 2,5 bilhões de dólares do ICBC quando era controlada por pessoas com laços estreitos com o então presidente angolano, José Eduardo dos Santos.
“Notas internas sobre um empréstimo de 2010 ilustram a influência da China enquanto maior credor estrangeiro de Angola, exigindo que a Sonangol vendesse o seu petróleo à China e utilizasse os recursos do empréstimo para contratar empresas de construção chinesas,” relatou o ICIJ.
Mais de uma década depois, o ICBC rejeitou as alegações de corrupção contra a antiga presidente da empresa petrolífera, Isabel dos Santos, filha do antigo presidente. Foi acusada, em 2017, de ter causado prejuízos no valor de 219 milhões de dólares ao Estado durante o seu mandato na Sonangol.
Um memorando interno do ICBC referia que, apesar da suspeita de corrupção, o banco deveria continuar a colaborar com o Grupo Sonangol devido ao seu papel na Iniciativa do Cinturão e Rota da China.
O ICBC apoiou os planos da Serra Leoa para modernizar o Cais Rainha Isabel II no Porto de Freetown em 2017. Apesar dos relatos de corrupção pública por parte do governo, os bancos chineses ofereceram quase 660 milhões de dólares em empréstimos para o projecto.
“O ICBC de Londres abriu uma excepção às políticas de conformidade do banco para o mutuário da Serra Leoa,” escreveu Alecci. Um ano após a assinatura do empréstimo, relatos de corrupção por parte dos promotores imobiliários levaram os responsáveis do banco a suspender o empréstimo, sem, no entanto, o cancelarem efectivamente.
O relatório do ICIJ citou um banqueiro do ICBC: “Se [a sede] o cancelar, isso prejudicará a relação com o governo da Serra Leoa.”
