EQUIPA DA ADF
Uma faixa em expansão de terrorismo islâmico que se estende desde o oeste do Mali, passando pela Bacia do Lago Chade, até à Somália e Moçambique, foi responsável por quase todas as mortes relacionadas com o terrorismo no continente africano em 2025, de acordo com um novo relatório.
Em 2025, quase 24.000 pessoas morreram em actos de violência terrorista em África, um aumento de 24% em relação ao ano anterior, de acordo com uma investigação do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos. Os 10 ataques terroristas mais mortíferos a nível mundial ocorreram na África Subsariana, sendo seis deles apenas no Burquina Faso, de acordo com a edição mais recente do Índice Global de Terrorismo.
Os países do Sahel, que têm sido o epicentro global do terrorismo nos últimos três anos, foram responsáveis por 41% dessas mortes. A Somália (37%), a Bacia do Lago Chade (20%) e Moçambique (2%) completam a lista.
Os grupos terroristas Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), Boko Haram, al-Shabaab e várias facções do grupo Estado Islâmico continuam a aumentar a sua presença em África. Nos seus esforços de recrutamento, os grupos aproveitam-se das queixas locais, incluindo a animosidade étnica, a insegurança económica e a raiva contra o Estado. Os grupos terroristas também estão a beneficiar da raiva contra as forças de segurança quando as suas acções resultam na morte de civis. As forças de segurança e as milícias aliadas no Mali e no Burquina Faso, por exemplo, mataram mais civis do que os grupos islâmicos militantes entre 2023 e 2025, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos de África.
“O elevado número de mortes relatadas no Sahel persiste apesar das crescentes restrições à cobertura jornalística na região, o que provavelmente subestima a gravidade desta violência,” relataram os analistas do Centro Africano.
De acordo com um relatório de 2025 apresentado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, o JNIM é capaz de ameaçar directamente as capitais regionais devido à sua proficiência na guerra com drones e à sua capacidade de se deslocar livremente por todo o Burquina Faso, Mali e Níger.
“Está também prestes a expandir as suas operações para o norte do Togo, Benin e a região de Sokoto, na Nigéria,” observou o relatório.
O rival do JNIM no Sahel, o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), anteriormente conhecido como Estado Islâmico no Grande Sahara, está igualmente a crescer tanto em território controlado como em número de membros, numa altura em que estabelece uma base de operações a norte de Niamey, no Níger. Numa demonstração de força no final de Janeiro, os combatentes do ISSP em motociclos lançaram um ataque surpresa utilizando drones e armas ligeiras contra o aeroporto internacional de Niamey e a adjacente Base Aérea 101 do exército, que albergava mercenários do Africa Corps da Rússia.
“O ataque não foi uma falha de segurança isolada, mas uma operação deliberada e de grande valor que visava as infra-estruturas militares e estratégicas do Níger,” os analistas de segurança africanos escreveram num relatório após o ataque.
Os analistas afirmam que os golpes de Estado que derrubaram governos democráticos no Burquina Faso, Mali e Níger entre 2021 e 2023 impulsionaram as organizações terroristas em toda a África Ocidental, ao perturbar a cooperação regional em matéria de segurança. Os três países formaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES) para colaborar em esforços de combate ao terrorismo. Desde então, no entanto, o JNIM e o Estado Islâmico no Sahel continuam a expandir-se, atraindo combatentes de outros países.
“A menos que se resolva tanto a crescente presença de combatentes terroristas estrangeiros na região como a quase inexistente arquitectura de segurança regional, o Sahel poderá servir cada vez mais como plataforma para a actividade jihadista transnacional,” o Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais escreveu num relatório de Maio de 2026.
O grupo Estado Islâmico já utilizou as redes de transporte trans-saarianas do ISSP para lançar ataques repetidos em Marrocos, onde o governo desmantelou células terroristas em 2025 e novamente este ano. No noroeste da Nigéria, o grupo Lakurawa parece ter relações tanto com o ISSP no Estado de Sokoto como com o JNIM no Estado de Kwara, que faz fronteira com o Benin. O JNIM relatou o seu primeiro ataque na Nigéria, no Estado de Kwara, em Outubro de 2025.
Entretanto, o ISSP recebeu combustível, armas e treino do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) através do escritório al-Furqan do Estado Islâmico na Bacia do Lago Chade. O ISWAP, que começou como um ramo do Boko Haram, continua a competir com este por território e recrutas no Estado de Borno, na Nigéria, e na província do Extremo Norte dos Camarões.
Na Somália, as mortes de civis quase duplicaram para mais de 8.800 entre 2024 e 2025, numa altura em que o Estado Islâmico na Somália e o al-Shabaab intensificaram os ataques na Puntlândia e na região central de Shabelle. O al-Shabaab recorre aos rebeldes Houthis do outro lado do Mar Vermelho, no Iémen, para obter armas e apoio técnico, enquanto o Estado Islâmico na Somália se tornou um centro de apoio financeiro e logístico da organização mais ampla no continente.
Esforços internacionais, como a Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália, continuam a empurrar o al-Shabaab para fora do território que este capturou, enquanto as forças de segurança da Puntlândia combatem um grupo multinacional de recrutas do Estado Islâmico nas montanhas Cal Miskaad, no norte da Somália.
A região de Cabo Delgado, em Moçambique, registou um aumento de 51% na violência perpetrada pelo Ahl al Sunnah wal Jama’a (ASWJ) entre 2024 e 2025, quando a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral encerrava a sua missão na região. As tropas ruandesas continuam a apoiar as forças armadas de Moçambique contra os cerca de 350 combatentes do ASWJ.
De acordo com os autores da edição de 2026 do Índice Global de Terrorismo, os grupos terroristas estão a mudar a sua estratégia para bloqueios económicos, como o que o JNIM impôs à capital do Mali no início deste ano.
“As perspectivas para o terrorismo em 2026 são preocupantes,” escreveram os autores do Índice.
