A população de África continua a crescer, as cidades podem enfrentar níveis sem precedentes de insegurança, interna e externa, de acordo com um estudo de 2025 do Centro de Estudos Estratégicos de África.
África é a região que mais cresce no mundo. Os pesquisadores afirmam que, até 2050, o continente terá mais 1 bilhão de pessoas, chegando a uma população de 2,5 bilhões. “Oitenta por cento desse crescimento populacional ocorrerá nas cidades,” de acordo com o relatório do Centro de Estudos Estratégicos de África “A urbanização sem precedentes de África está a mudar o panorama da segurança.” Quase metade dos africanos — mais de 700 milhões de pessoas — já vive em áreas urbanas.
O continente deverá adicionar 900 milhões de novos residentes urbanos nos próximos 25 anos, o que é mais do que a população urbana combinada da Europa e dos Estados Unidos, escreveu o investigador Kurtis Lockhart para a revista Asterisk em Julho de 2025. “A escala e a velocidade desse crescimento são historicamente sem precedentes. É uma onda que se abate sobre um continente que actualmente não tem capacidade para absorvê-la.
“Dois terços do espaço urbano que a África deverá ter em 2050 ainda precisam de ser construídos,” acrescentou. “Bairros inteiros, cidades inteiras e até mesmo grandes áreas metropolitanas e mega regiões que actualmente não existem precisarão de ser construídos em breve.”
Especialistas dizem que o desafio será construir infra-estruturas para acompanhar o crescimento e fornecer serviços de segurança, como a polícia, para combater o crime. Se esses esforços não forem bem-sucedidos, isso abrirá as portas para que os terroristas se aproveitem da situação. Alguns dos maiores e mais dinâmicos centros urbanos de África agora enfrentam graves problemas de segurança, que vão desde pequenos furtos e assaltos à mão armada até ao crime organizado.
CRESCIMENTO DESCONTROLADO, CIDADES FRÁGEIS
A União Africana estuda o crime urbano há anos. Afirma que, embora a urbanização tenha levado a um aumento da pobreza e da desigualdade, os padrões variam significativamente. No entanto, segundo a UA, existem denominadores comuns. As pessoas que vivem em áreas urbanas densas tendem a ganhar dinheiro fora da economia formal. O sector informal — rendimentos não declarados, não sujeitos a impostos nem a benefícios sociais — representa 85% do emprego em algumas áreas.
A UA também afirmou que instituições fracas resultam em policiamento e planeamento urbano deficientes, “o que levou a mercados imobiliários e fundiários disfuncionais, o que, por sua vez, levou ao crescimento de assentamentos informais.”
O Fórum Económico Mundial afirma que as cidades africanas não estão preparadas para a explosão demográfica que se aproxima.
“Embora as cidades em África representem motores de crescimento económico, poucas estão sintonizadas com as rápidas mudanças demográficas: a maioria das pessoas nas cidades tem menos de 35 anos e as cidades não estão preparadas para o rápido afluxo de jovens migrantes,” relata o fórum.

PROBLEMAS EXTERNOS
Factores externos em áreas urbanas congestionadas também podem influenciar a segurança. No Sudão, a guerra civil em curso acrescenta uma nova dimensão ao congestionamento e à pobreza das suas áreas urbanas.
“O Sudão pode ser um precursor deste padrão emergente,” informou o Centro de Estudos Estratégicos de África. “O Sudão é o epicentro da violência armada organizada que afecta os centros urbanos de África, sendo responsável por 38% de todas as mortes desse tipo em todo o continente.”
Estudos mostram que as insurgências militantes no Burquina Faso, Mali e Níger resultaram em 1.165 mortes em áreas urbanas em 2024. À medida que os terroristas intensificam os seus ataques nos três países, é provável que mais residentes urbanos sejam mortos ou feridos, pois os terroristas avançam para o sul e oeste, em direcção a áreas mais populosas.
A Somália também sofre influências externas. “As 644 mortes em áreas urbanas relacionadas com a violência organizada na Somália representam 12% do total de mortes neste país devastado pelo conflito,” escreveu o Centro de Estudos Estratégicos de África. “Estes incidentes — principalmente em Mogadíscio, Baidoa e Kismayo — reflectem a dependência do al-Shabaab de formas de violência remota em áreas urbanas, incluindo drones, [dispositivos explosivos improvisados] DEI e bombardeamentos, mesmo enquanto o grupo se envolve em batalhas com as forças armadas e milícias estatais em redutos rurais.”
MEDIDAS TOMADAS
Em 2013, a UA estabeleceu um conjunto de metas para 50 anos com o objectivo de melhorar a vida dos cidadãos em todo o continente. As metas, denominadas Agenda 2063, incluem o estabelecimento de “cidades sustentáveis, resilientes e inclusivas.”
“Esta visão só pode ser alcançada se as políticas regionais e nacionais de todos os Estados-membros da UA estiverem alinhadas com este objectivo,” a investigadora Ekeminiabasi Eyita-Okon disse num relatório de 2022. “Embora se reconheça a importância do apoio dos Estados-membros, surgem outros desafios, nomeadamente problemas de coordenação, violência estrutural, agendas de desenvolvimento externas concorrentes para África e os desafios da implementação de políticas.”
Ela observou que as metas dão ao continente a oportunidade de repensar a sua abordagem ao desenvolvimento, incentivar a cooperação e o cumprimento em matéria de desenvolvimento e classificar as questões de segurança urbana como uma prioridade política.
No seu estudo para a Fundação Brenthurst, “Dilemas estratégicos: Reestruturar África para um futuro urbano próspero,” os investigadores Greg Mills, Jeffrey Herbst e Dickie Davis afirmaram que os problemas de segurança urbana “não podem ser deixados apenas para as forças de segurança resolverem.” Eles afirmaram que uma abordagem abrangente requer a atenção de todo o governo.
“É necessário que seja sustentada por uma narrativa comum que explique sucintamente por que razão se chegou à situação actual, o que é necessário fazer para resolver a situação e como essas acções serão concretizadas,” escreveram, acrescentando que será necessária “uma grande dose de liderança local prática, preocupada com os detalhes da implementação.”
A rápida urbanização de muitos países africanos exigirá uma reavaliação das estratégias para garantir a segurança dos cidadãos, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos de África. As forças policiais, que representam quase metade da segurança uniformizada em todo o continente, precisarão de melhoria no treino. As autoridades precisarão de repensar o tamanho das forças, as mobilizações e as principais responsabilidades nos centros populacionais.
Embora as forças militares e as forças de paz das Nações Unidas e de outras organizações possam ajudar na segurança das áreas urbanas, elas são apenas soluções temporárias. Proteger os cidadãos e preservar a paz nas comunidades civis é, em última análise, responsabilidade da polícia local e regional. As forças policiais têm laços locais, muitas vezes, permanentes. São investigadores, agentes da paz e colectores de provas.
Na sua forma mais eficaz, as forças policiais tornam-se parte integrante dos bairros que servem, uma prática conhecida como policiamento comunitário. É uma filosofia e estratégia em que a polícia e os membros da comunidade trabalham juntos para prevenir o crime e resolver problemas, abordando as causas, criando assim bairros mais seguros. É uma ferramenta crítica para resolver os problemas dos centros urbanos em todo o mundo.
As forças policiais comunitárias não alcançam autoridade e legitimidade automaticamente, os pesquisadores da London School of Economics and Political Science escreveram num relatório de 2025 sobre policiamento comunitário na Etiópia. Eles afirmaram que o policiamento comunitário é uma forma de construir confiança e tornar o policiamento mais eficaz e mais alinhado com as necessidades da comunidade.
“O aumento do envolvimento da comunidade ajuda a reduzir a politização do policiamento,” relataram os investigadores. “Isso é feito resolvendo as falhas dos modelos policiais convencionais e, ao mesmo tempo, enfatizando o valor da parceria com as comunidades na redução da criminalidade e no aumento da segurança pública.” Eles concluíram que ser uma parte genuína da comunidade é fundamental para “comunicar informações, reduzir tensões e aumentar a responsabilidade da polícia.”
O Quénia tem um modelo de policiamento comunitário chamado “Nyumba Kumi,” que significa “dez famílias” em Swahili. Nesse sistema, as famílias trabalham juntas para vigiar e relatar assuntos suspeitos à polícia. Um dos líderes do grupo aproveitou o sistema para construir confiança e melhorar a segurança, criando uma linha directa para que o público pudesse contactar o seu gabinete, de acordo com a Saferworld, uma organização mundial de paz e segurança sediada em Londres. Ele também estabeleceu linhas directas com unidades de resposta rápida da polícia. Em caso de ataque, as autoridades realizariam um fórum público conhecido como barasa para identificar as questões subjacentes antes de responder com força.
O sistema substituiu “uma abordagem enérgica por uma abordagem baseada na confiança e na responsabilização, que estabelece relações com as comunidades locais para obter informações,” informou a Saferworld.
Numa resolução de 2014, o Conselho de Segurança da ONU observou que as instituições policiais orientadas para a comunidade, com agentes bem treinados, são importantes para “combater o extremismo violento, incluindo através da construção de confiança e diálogo entre as autoridades estatais e as comunidades.”
Embora o policiamento comunitário, muitas vezes, seja descrito como uma abordagem suave à segurança, ele tem sido usado com sucesso em todo o mundo para reduzir o medo de ameaças à segurança, prevenir o crime e melhorar a segurança pública, de acordo com o Woodrow Wilson International Center for Scholars. Esse tipo de policiamento pode ser dividido em cinco elementos: resolução de problemas, parceria, prestação de serviços, empoderamento e responsabilização. O centro afirmou que o policiamento comunitário pode ser particularmente útil para identificar comportamentos suspeitos, incluindo radicalização e extremismo, e informar prontamente os agentes da polícia.
O estudo do Centro de Estudos Estratégicos de África mostra que alguns planos para melhorar a segurança urbana já estão em vigor ou estão a ser organizados. Algumas cidades estão a investir na recolha de dados, medindo como governar melhor e tomar decisões. A Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral está a trabalhar no Good Governance Africa, um projecto para desenvolver indicadores para cidades africanas, com a intenção de informar melhor os decisores sobre as áreas prioritárias para melhorias.
Vários níveis de governo em países africanos estão a desenvolver programas de formação profissional que servem de modelo para os decisores políticos urbanos. Na Nigéria, a iniciativa EdoJobs, lançada pelo governo do Estado de Edo, oferece formação profissional e serviços de colocação profissional para combater o desemprego juvenil. No Quénia, o Projecto de Oportunidades de Emprego para Jovens do Quénia, apoiado pelo governo nacional, oferece formação e subsídios empresariais a jovens. O projecto do Quénia já alcançou mais de 358.000 pessoas, e 77% delas encontraram emprego.
Na comuna de Abobo, em Abidjan, na Costa do Marfim, os comités de vigilância locais fizeram uma parceria com a polícia para lidar com o aumento do crime urbano. Esses comités actuam como intermediários entre os residentes e as autoridades policiais, promovendo a comunicação e a confiança. Essa abordagem contribui para melhorar as relações entre a comunidade e a polícia e para estratégias mais eficazes de prevenção do crime.
Uma chave para gerir os desafios de segurança da mudança demográfica urbana em África será evitar tratar bairros ou populações inteiras como ameaças à segurança, concluiu o Centro de Estudos Estratégicos de África. Historicamente, tais abordagens, como isolar áreas da cidade, despejos forçados e repressão policial, apenas aprofundam a desconfiança e tornam a mão pesada da polícia uma das formas mais prejudiciais de insegurança em cidades em rápido crescimento.
“Pelo contrário, as autoridades locais devem trabalhar para compreender estas comunidades, reconhecer o seu papel na resiliência e na vitalidade urbanas e integrá-las mais plenamente nos sistemas económicos e sociais da cidade.”
UNIÃO AFRICANA DEFINE OBJETIVOS PARA 50 ANOS
EQUIPA DA ADF
A União Africana há muito conhece os desafios que as áreas urbanas enfrentarão. Em 2013, a UA introduziu a Agenda 2063, um plano de 50 anos para o crescimento e progresso do continente. Segundo a UA, o plano expansivo visava abordar as “transformações estruturais em curso,” incluindo o crescimento económico e o progresso social.
A Agenda 2063 enumera sete objectivos:
Um elevado nível de vida, qualidade de vida e bem-estar para todos. O plano apoia a criação de empregos, o fim das desigualdades de rendimento e oportunidades, com apoio especial aos jovens. A UA afirma que o continente deve enfrentar o rápido crescimento populacional e a urbanização e melhorar a habitação e o acesso a necessidades básicas, como água, saneamento e electricidade, enquanto proporciona segurança social e protecção.
Cidadãos com boa educação e “revoluções de competências” sustentadas pela ciência, tecnologia e inovação.
Cidadãos saudáveis, alcançado através da expansão do acesso aos cuidados de saúde, sobretudo para mulheres e raparigas.
Economias e empregos transformados. A UA afirmou que o continente deve utilizar adequadamente os seus recursos naturais e melhorar a produção e a industrialização, enquanto “aumenta a produtividade e a competitividade.”
Agricultura moderna para aumentar a proatividade e a produção. A UA afirmou que o continente deve ser capaz de se alimentar e evoluir para se tornar um exportador líquido de alimentos.
Uma economia azul/oceânica para acelerar o crescimento económico, desbloqueando o vasto potencial dos activos marítimos de África.
Políticas ambientalmente sustentáveis e economias resilientes. As comunidades devem implementar medidas para gerir de forma sustentável a “rica biodiversidade, florestas, terras e águas” do continente.
