Ao longo dos últimos dois anos, os terroristas do al-Shabaab da Somália estabeleceram uma relação com os rebeldes Houthis do Iémen — uma relação que poderá alterar a batalha que há décadas opõe a filial da al-Qaeda às forças governamentais em Mogadíscio.
Um novo relatório da instituição de investigação em políticas públicas The Century Foundation (TCF) descreve a evolução dos laços entre o al-Shabaab e os Houthis, numa altura em que os terroristas da Somália procuram obter tanto conhecimento como, potencialmente, tecnologia dos Houthis apoiados pelo Irão.
Até ao momento, a relação tem-se centrado na formação e na transferência de conhecimentos, com centenas de combatentes do al-Shabaab a deslocarem-se da sua base no sul da Somália para o oeste do Iémen, a fim de aprenderem a operar drones, a fabricar bombas e a utilizar armas ligeiras.
O al-Shabaab e os Houthis não têm nada em comum a nível cultural, linguístico ou teológico. Os analistas afirmam que a sua relação é, em grande parte, de natureza transaccional: o al-Shabaab pretende ter acesso ao armamento dos Houthis, em particular à tecnologia antiaérea; para os Houthis, uma presença no território somali poderia proporcionar-lhes maior influência sobre o tráfego marítimo através do Golfo de Áden e do Estreito de Bab el-Mandeb, ao mesmo tempo que os ajudaria a recrutar novos combatentes. Combatentes do al-Shabaab morreram recentemente nos campos de batalha no Iémen.
“O al-Shabaab está, sem dúvida, impressionado com a capacidade dos Houthis de repelir ataques aéreos e de lançar os seus próprios ataques transfronteiriços,” os investigadores do TCF Peter Salisbury, Nadwa Al-Dawsari e Jay Bahadur escreveram no seu relatório, com base em entrevistas aprofundadas, dados públicos e privados disponíveis e imagens de satélite.
“É difícil saber que concessões os Houthis e o al-Shabaab conseguiram obter uns dos outros,” escreveram.
Não há provas actuais que indiquem que os Houthis tenham concedido ao al-Shabaab acesso aos seus próprios drones e mísseis de fabrico local, observaram os investigadores.
“Isto pode reflectir uma falta de confiança entre os dois grupos ou uma falta de capacidade de absorção por parte do al-Shabaab. Pode igualmente dever-se a uma decisão deliberada do al-Shabaab de ocultar novas capacidades até ter motivos para as utilizar.”
“O sinal mais claro, a curto prazo, de transferência de capacidades seria o aparecimento de dispositivos explosivos de modelo iraniano, mísseis antiaéreos ou drones nos campos de batalha somalis,” acrescentaram os investigadores. Mais especificamente, escreveram, a utilização de bombas perfurantes desenvolvidas pelo Irão “funcionaria como uma impressão digital forense da formação Houthi ou iraniana.”
Os Houthis evoluíram da utilização de tecnologia de drones disponível no mercado para o fabrico dos seus próprios drones e outras armas a partir de peças iranianas importadas. Têm utilizado essa tecnologia para atacar navios comerciais que transitam pelo Mar Vermelho, pelo Estreito de Bab el-Mandeb e pelo Golfo de Áden.
As relações dos Houthis com o al-Shabaab assentam em rotas de contrabando de armas bem estabelecidas que ligam a Somália ao Iémen. O relatório da TCF analisa desde a relação do al-Shabaab com os Houthis até reuniões realizadas no Iémen em Março de 2024, seguidas de visitas dos Houthis ao território do al-Shabaab em Junho e Julho.
Em Agosto de 2024, as autoridades da região da Puntlândia, na Somália, confiscaram cinco drones do tipo kamikaze que estavam a ser transportados pelos Houthis para o al-Shabaab. Esses drones baseavam-se em tecnologia comercial disponível no mercado, ao contrário dos drones mais recentes dos Houthis, construídos a partir de peças importadas. A aquisição, por parte do al-Shabaab, de drones construídos pelos Houthis representaria uma escalada significativa nas relações do al-Shabaab com os Houthis, bem como na sua capacidade de causar danos, segundo os investigadores da TCF.
“Qualquer mudança documentada na utilização de drones pelo al-Shabaab — uma mudança das plataformas comerciais prontas a utilizar que emprega actualmente para reconhecimento básico para drones de ataque unidireccionais construídos especificamente para o efeito, do tipo que os Houthis fabricam — indicaria também que a relação passou da formação para a transferência activa de capacidades,” acrescentaram.
