Dois anos após ter cancelado um acordo de paz com os separatistas Tuaregues, a junta governante do Mali não está mais perto de restaurar a segurança no país, segundo analistas. Em vez disso, a junta parece ter minado os seus próprios esforços antiterroristas ao levar a Frente de Libertação do Azawad (FLA) a aliar-se a terroristas.
“Eles [o governo do Mali] decidiram que as facções do norte eram terroristas equiparados ao JNIM [Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin] e que seriam combatidos da mesma forma,” Wassim Nasr, investigador sénior do The Soufan Center, disse à ADF. “Em última análise, esta política levou a uma verdadeira coligação entre os rebeldes [da FLA] e o JNIM para combater.”
A FLA e o JNIM, afiliado à al-Qaeda, uniram forças em Abril para expulsar as tropas malianas e os seus apoiantes do Africa Corps da Rússia de Kidal, uma cidade do norte com maioria Tuaregue que o governo mantinha sob controlo há dois anos. O ataque a Kidal fez parte de uma série de ataques coordenados que mataram o Ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, e vários membros da sua família na sua residência, perto de Bamako.
Em Julho, a mesma coligação matou pelo menos 50 soldados no norte do Mali, ao emboscar uma coluna militar quando esta saía da comunidade estrategicamente importante de Anefis, rumo a Gao.
O JNIM matou outros 50 ou mais soldados malianos e cinco combatentes do Africa Corpos em Setembro, durante um ataque ao acampamento militar de Douri, perto de Mopti, no centro do Mali. A FLA não reivindicou qualquer participação nesse ataque.
Os postos de controlo terroristas, as emboscadas e as minas terrestres colocadas nos arredores de Bamako reduziram a capacidade das forças armadas de controlar o território fora das principais cidades. Consequentemente, a junta no poder depende de escoltas armadas para as colunas que fornecem alimentos e combustível à capital.
Os combatentes do Africa Corps passaram a integrar os esforços do governo para proteger essas linhas de abastecimento. Em 2025, o JNIM começou a bloquear o tráfego de camiões que entravam no país sem litoral provenientes da Costa do Marfim, da Guiné e do Senegal.
Os 2.000 combatentes do Africa Corps no Mali receberam recentemente um carregamento de armas proveniente da Rússia através do Togo, um sinal de como as rotas de abastecimento estão a mudar em resposta ao bloqueio imposto pelo JNIM, de acordo com um relatório recente elaborado por investigadores do The Soufan Center. O Africa Corps recorre também cada vez mais a aeronaves para receber homens e material, a fim de contornar os bloqueios.
A aliança contínua da junta com o Africa Corps complica ainda mais os esforços de combate ao terrorismo, ao alimentar o ressentimento entre os civis vítimas de violência por parte das forças malianas e russas.
Os mercenários russos desempenharam um papel fundamental no massacre de Moura, em 2023, durante o qual as tropas malianas e os seus homólogos russos mataram mais de 300 civis da etnia Fulani ao longo de três dias, com base na suspeita de que estes poderiam fazer parte do JNIM.
Tais ataques contra Tuaregues e Fulani minam a credibilidade da junta no poder e reforçam cada vez mais o apoio público aos insurgentes, segundo os analistas.
Embora o Africa Corps tenha sido enviado para o Mali para treinar as tropas malianas, o seu objectivo principal é proteger a junta no poder, segundo Nasr.
“Mesmo que o pretexto seja o combate ao terrorismo, o objectivo é preservar o regime e, só depois, combater o terrorismo,” Nasr disse à ADF. “São muito dispendiosos, e o terrorismo está a alastrar-se no país.”
De um modo geral, a junta maliana, liderada pelo Coronel Assimi Goïta, parece estar no seu ponto mais fraco desde o golpe de Estado de 2020 que a levou ao poder, segundo os investigadores do The Soufan Center.
“Os pontos críticos que determinarão o que acontecerá a seguir não estão apenas relacionados com o regime — a frequência com que as colunas entram em Bamako, a situação das principais cidades e a saúde e presença dos líderes do regime — mas também com a força dos insurgentes,” escreveram os investigadores.
