Os recentes ataques terroristas perpetrados pelo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin e pelo Estado Islâmico na Província do Sahel, no oeste do Níger, revelam a rápida deterioração da situação de segurança na região ocidental de Tillaberi, onde os dois grupos disputam o controlo.
Terroristas do Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP) atacaram e saquearam bases militares nigerinas em Inates e Banibangou, no dia 15 de Junho. Alguns dias depois, a 18 de Junho, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, atacou o aeroporto internacional do Níger, que também alberga a Base Aérea 101 das Forças Armadas e o Africa Corps da Rússia.
Os ataques do ISSP causaram a morte de pelo menos 51 soldados em Inates e 34 em Banibangou. O ataque a Banibangou ocorreu um ano após um ataque do ISSP à mesma base, que causou a morte de pelo menos 71 soldados. O ataque do JNIM ao aeroporto, que causou a morte de 11 soldados e dois civis, espelhou o assalto do ISSP à mesma instalação no final de Janeiro.
O momento em que os ataques ocorreram demonstra o esforço dos grupos para “superarem-se” mutuamente, a fim de atrair mais apoio público, recrutas e recursos, segundo Héni Nsaibia, analista sénior para a África Ocidental, no ACLED, o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos.
“Estes ataques transmitem mensagens,” Nsaibia disse à ADF. “O facto de o JNIM tentar fazer o mesmo que o Estado Islâmico fez anteriormente reflecte essa competição.”
O ataque do JNIM também se enquadra num padrão mais alargado em todo o Sahel, em que o JNIM, o ISSP e outros grupos terroristas têm como alvo grandes centros populacionais e infra-estruturas críticas, segundo Nsaibia.
A região ocidental de Tillabéri, no Níger, tornou-se o campo de batalha onde se desenrola a rivalidade entre o JNIM e o ISSP. Com o ISSP dominante no norte e o JNIM dominante no sul, a região central em torno de Niamey tornou-se o ponto de tensão onde cada grupo tenta afirmar-se como a força dominante. Tillabéri faz parte da região de Liptako-Gourma, onde se encontram o Burquina Faso, o Mali e o Níger. Tem sido o epicentro da actividade terrorista há muitos anos, elevando os três países ao topo das cinco nações com maior índice de terrorismo, segundo o Índice Global de Terrorismo.
“Esta disputa está a ocorrer principalmente em zonas operacionais onde nem o JNIM nem o ISSP são suficientemente fortes para entrarem em conflito directo entre si, como aconteceu noutras partes do Sahel,” os analistas Liam Karr e Alexandre Colas de Francs escreveram recentemente para a Critical Threats.
A rivalidade estende-se também à região de Dosso, no Níger, na fronteira com o Benin e a Nigéria, onde cada grupo demarcou o seu território — o JNIM a oeste, o ISSP a leste — e lançou ataques contra os países vizinhos.
As juntas militares que governam o Níger e os seus vizinhos do Sahel derrubaram governos democraticamente eleitos em nome do combate à actividade terrorista. Desde então, porém, a segurança nos três países deteriorou-se. Em alguns casos, uma abordagem de mão pesada por parte de mercenários russos levou as populações locais a voltarem-se contra o governo.
Depois de a junta nigerina expulsar as forças internacionais de combate ao terrorismo em 2023 e 2024, o ISSP expandiu-se rapidamente nas regiões de Tillabéri e Touha, enquanto as forças armadas do Níger se esforçavam por acompanhar a situação.
“O Níger está com os recursos militares sobrecarregados, uma vez que enfrenta múltiplas ameaças tanto no interior do país como ao longo das suas fronteiras,” afirmou Nsaibia. “As forças armadas têm dificuldade em enfrentar todos estes desafios combinados. Penso que estes últimos ataques comprovam isso mesmo.”
