Perante o aumento da criminalidade, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, autorizou uma mobilização interna generalizada das forças armadas para apoiar as operações policiais em cinco províncias.
Ele referiu-se à Força de Defesa Nacional da África do Sul (SANDF) como um “multiplicador de força” no apoio ao Serviço de Polícia da África do Sul (SAPS) na Operação Prosper, que visa combater a violência de gangues, os sindicatos de extorsão e a mineração ilegal nas províncias do Cabo Oriental, Estado Livre, Gauteng, Noroeste e Cabo Ocidental.
“Estamos a fazer com que a polícia e o exército trabalhem em conjunto para lidar com os desafios que o nosso povo enfrenta,” Ramaphosa disse ao parlamento no dia 13 de Março. “A mobilização da SANDF é necessária para complementar os esforços da SAPS no combate a estes crimes e na promoção da estabilidade nas nossas comunidades.”
Um grupo inicial de 550 soldados foi destacado por três meses, no dia 30 de Janeiro, para várias partes da província de Gauteng, incluindo Joanesburgo. A residente Leola Davies descreveu o seu bairro de Joanesburgo, Eldorado Park, como um “inferno.”
“Sodoma e Gomorra não são nada comparadas a este lugar,” a pensionista de 74 anos disse à BBC para um artigo publicado a 1 de Abril. “Fico em casa o dia todo porque simplesmente não quero ser a próxima vítima. As coisas estão a piorar.”
Um segundo contingente, maior, de 2.200 soldados iniciou uma missão de um ano a 1 de Abril para ajudar nas operações nas províncias do Cabo Oriental, Estado Livre, Gauteng, Noroeste e Cabo Ocidental. A mobilização inicial custou, alegadamente, 4,9 milhões de dólares, enquanto a mobilização principal custará pouco mais de 50 milhões de dólares no próximo ano.
A violência das gangues é um grande problema na África do Sul, que tem uma das taxas de homicídio mais elevadas do mundo. De acordo com as estatísticas criminais mais recentes, de Outubro a Dezembro de 2025, cerca de 71 pessoas foram mortas por dia.
“Estamos a perder entre 26.000 e 30.000 pessoas por homicídio todos os anos. Essa é uma crise que não pode ser ignorada,” o presidente da Comissão Parlamentar de Defesa e Veteranos Militares, Dakota Legoete, disse no dia 25 de Fevereiro.
O Brigadeiro-General Martin Gopane, director da Divisão de Operações Conjuntas da SANDF, afirmou que a mobilização irá combater “ameaças complexas do crime organizado.” O sucesso da operação dependerá de informações de inteligência accionáveis, especificamente na identificação e localização de líderes de grupos criminosos organizados, em vez de se concentrar em operacionais de baixo escalão.
“Não estamos à procura de um homem no terreno, mas sim dos chefes, para que possamos identificá-lo, conhecê-lo — eu sei onde ele está, eu caio em cima dele,” disse numa sessão informativa perante o parlamento, no dia 27 de Março.
Ramaphosa disse que a mobilização já trouxe alguma estabilidade muito necessária e está a reconstruir a confiança nas comunidades e nas forças da ordem. Na Província do Cabo Ocidental, a porta-voz da polícia, a Brigadeira Novela Potelwa, afirmou que a Operação Prosper e a eficácia das tropas da SANDF só irão aumentar com o tempo.
“Comprometemo-nos a agir de forma decisiva com base em todas as informações partilhadas com as forças integradas,” disse aos jornalistas no dia 7 de Abril. “Ao mesmo tempo, uma análise do panorama da criminalidade indica que ainda há muito a fazer para estabilizar estas áreas problemáticas.”
Andy Mashaile, estratega de segurança sul-africano e embaixador aposentado da Interpol, afirmou que a SANDF e o Serviço Policial devem continuar a reforçar a recolha de informações, e que o governo deve manter a supervisão para evitar qualquer atrito entre as instituições.
“Não há outra maneira de vencer esta guerra contra o crime, a criminalidade e o crime organizado transnacional sem operações baseadas em informações de inteligência,” disse à Deutsche Welle.
Alguns especialistas em segurança alertaram que o destacamento das forças armadas desta forma deve ser feito com cuidado. O criminologista Guy Lamb disse que os soldados são treinados para o combate e “não foram formados para actuar no policiamento.”
“Existe o perigo de que agravem as situações ou respondam de forma muito agressiva em… situações tensas,” disse à BBC.
A mobilização da SANDF durante a pandemia da COVID-19 tinha como objectivo ajudar a fazer cumprir os toques de recolher nocturnos e outras restrições, mas críticas severas surgiram após relatos de soldados a usar força excessiva, a deter ilegalmente e a perseguir civis.
Lamb apelou a um plano específico para resolver as causas da criminalidade nestas comunidades, para que a criminalidade não retome assim que a SANDF se retire.
Outros afirmaram que o objectivo deveia ser uma estabilização a curto prazo das áreas afectadas, para que a SAPS possa recuperar o controlo.
“Se a mobilização for bem planeada e executada com os controlos e a disciplina adequados, poderá proporcionar às pessoas algum alívio e ganhar algum tempo para que a polícia comece a implementar os planos que afirma ter,” Mike Pothier, gestor de programas do Gabinete de Ligação Parlamentar da Conferência Episcopal Católica da África Austral, escreveu num artigo para a defenceWeb. “Se isso acontecer, talvez a mobilização possa ser considerada válida, apesar das muitas preocupações.”
