Moradores da região do Tigré, na Etiópia, dizem que tropas eritreias entraram nas áreas fronteiriças, aumentando as preocupações com um retorno à guerra. As infiltrações ocorrem num contexto de uma disputa entre os países pelo acesso ao Mar Vermelho e ao suposto apoio de Asmara à Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF), o partido governante da região.
O primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, também acusou as tropas eritreias de cometerem assassinatos em massa quando lutavam ao lado das tropas etíopes na guerra que terminou em 2022.
Uma fonte militar disse anonimamente à revista The Africa Report que as forças eritreias estão visíveis ao longo de rotas sensíveis nas áreas fronteiriças porosas.
“Eles entraram agora através do Tigré,” disse a fonte. “No Tigré, chegaram até Mekelle, Adigrat e Zalambessa. No lado de Humera, infiltram-se fingindo ser residentes, principalmente através de Hamdayet, uma cidade sudanesa perto de Humera.”
Hamdayet tornou-se um ponto de trânsito para movimentos militares e logística. Os residentes dizem que veículos militares circulam de um lado para o outro ao longo de rotas que ligam as posições eritreias às áreas controladas pela TPLF no Tigré.
As tropas eritreias “disfarçam-se de [tropas etíopes] e nós apanhamo-las frequentemente,” a fonte militar disse à The Africa Report. “Mas aqueles que usam os seus próprios uniformes e parecem soldados entram de Mekelle para Adigrat e Zalambessa.”
A fonte militar disse que os eritreus e os associados da TPLF no Tigré estão a coordenar.
“O objectivo comum deles é desmantelar o país,” sublinhou a fonte. “Neste momento, eles estão a aproveitar-se do caos interno. A principal missão deles é criar obstáculos para que o governo permaneça distraído e não consiga concentrar-se no desenvolvimento ou na organização dos cidadãos. Eles não hesitarão em desestabilizar-nos.”
Etiópia Acusa e Eritreia Recusa
Numa carta de 7 de Fevereiro ao seu homólogo eritreu, o Ministro dos Negócios Estrangeiros etíope, Gedion Timothewos, acusou Asmara de apoiar grupos militantes que operam na Etiópia. Gedion exigiu que a Eritreia “retirasse as suas tropas do território etíope e cessasse todas as formas de colaboração com grupos rebeldes.” Ele chamou as alegadas acções de “não apenas provocações, mas actos de agressão directa.”
Dois dias depois, o Ministério da Informação da Eritreia disse que as alegações eram “manifestamente falsas e fabricadas,” descrevendo-as como parte de uma “espiral de campanhas hostis contra a Eritreia há mais de dois anos.”
“O governo da Eritreia não tem interesse nem desejo de se envolver em acrimónias sem sentido para agravar e exacerbar a situação,” lê-se no comunicado.
Apesar da negação da Eritreia, o exército etíope moveu grandes quantidades de tropas e armamento para as fronteiras do Tigré. Os residentes locais disseram à Agence France-Presse que temiam um regresso à guerra civil. O conflito anterior no Tigré matou pelo menos 600.000 pessoas entre 2020 e 2022.
Tensões Com TPLF
As tensões entre Abiy e a TPLF são elevadas. A TPLF está envolvida numa luta pelo poder com a Administração Provisória do Tigré, nomeada por Abiy em 2023 como parte do Acordo de Pretória que pôs fim à guerra anterior.
No dia 26 de Janeiro, as Forças de Defesa do Tigré (TDF) entraram no disputado território de Tselemt, no noroeste do Tigré, entrando em confronto com as tropas federais e as milícias da região vizinha de Amhara. Três dias depois, as TDF avançaram para Korem e Alamata, no disputado distrito de Raya, no sul do Tigré, sem resistência federal aparente, informou o International Crisis Group. O governo federal cancelou então todos os voos para a região e, no dia 31 de Janeiro, realizou dois ataques com drones no centro do Tigré.
A animosidade remanescente da guerra civil impulsiona esta crise. Quando a guerra eclodiu em 2020, as milícias Amhara tomaram o oeste do Tigré, onde centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir. Alguns milhares de pessoas regressaram às suas casas em Tigré em 2024, mas muitas enfrentaram intimidação e abusos por parte das milícias Amhara. Abiy também bloqueou as exigências da TPLF de devolver o controlo dos territórios disputados de Amhara a Tigré.
A desestabilização da Etiópia suscita preocupações significativas em matéria de segurança no Corno de África, que está a passar por conflitos armados na Somália, no Sudão do Sul e no Sudão. O Egipto, a Etiópia e o Sudão também têm discutido desde 2011 sobre a Grande Barragem do Renascimento Etíope, em Adis Abeba, uma barragem hidroeléctrica no Rio Nilo.
Durante a guerra anterior no Tigré, o conflito entre a Etiópia e o Sudão foi renovado pela fértil região fronteiriça de Al Fashaga, onde os direitos de governação são disputados desde o início do século XX. A disputa contínua foi exacerbada pelo apoio do Sudão à TPLF, de acordo com o Global Conflict Tracker.
