Com a guerra civil no Sudão a intensificar-se no sul do país, o Egipto reforça a segurança ao longo da sua fronteira sudoeste para impedir que a violência e o terrorismo se espalhem para o seu próprio território.
Nos últimos meses, as forças armadas egípcias adicionaram drones Bayraktar Akinci, fabricados na Turquia, a uma base militar perto do Sudão e, segundo relatos, realizaram ataques aéreos contra as Forças de Apoio Rápido (RSF) paramilitares, que lutam contra as Forças Armadas do Sudão (SAF) pelo controlo do país desde Abril de 2023.
O analista Jalel Harchaoui afirmou em Dezembro no X que caças egípcios realizaram “ataques aéreos destrutivos” na região de al-Kufra, na Líbia, contra colunas de abastecimento das RSF que se deslocavam para o Sudão. Esses ataques ocorreram após ataques egípcios semelhantes contra posições das RSF no noroeste do Sudão, em Junho de 2025.
Os combatentes das RSF assumiram o controlo do triângulo Egipto-Líbia-Sudão em meados de 2025, garantindo uma rota para o transporte de armas e outros materiais a partir de uma base aérea fechada na região de al-Kufra, controlada pelo Marechal Khalif Haftar, que apoia as RSF.
“As entregas incluem, alegadamente, munições, armas ligeiras e, possivelmente, peças sobressalentes para equipamento blindado, essenciais para um exército que está a esgotar rapidamente os seus recursos nas batalhas em curso,” o The Sudan Times reportou em Novembro de 2025. “Este fluxo de armas não só fortalece um lado em detrimento do outro, como perpetua a guerra, fornecendo apoio externo em vez de permitir que soluções políticas surtam efeito.”
Os ataques às colunas das RSF marcaram um aumento do envolvimento do Egipto no conflito sudanês. Até recentemente, o governo egípcio apoiava o governo internacionalmente reconhecido do Sudão, liderado pelo General Abdel Fattah al-Burhan, das Forças Armadas do Sudão (SAF), com apoio logístico e técnico, mas, fora isso, permanecia à margem.
As autoridades egípcias afirmaram em Dezembro de 2025 que a sua segurança nacional estava directamente ligada à do Sudão. Elas estabeleceram limites que, segundo elas, não deveriam ser ultrapassados pelo conflito sudanês. Entre essas linhas vermelhas está a preservação da integridade territorial do Sudão e a rejeição da tentativa das RSF de criar um governo paralelo que pudesse ameaçar essa integridade.
Essa integridade foi ameaçada pela conquista de Darfur pelas RSF, que se concretizou com a queda de el-Fasher, a capital do Darfur do Norte, em Outubro de 2025. O Darfur do Norte tinha sido o último bastião do governo no oeste do Sudão. Em Janeiro, representantes da Médicos Sem Fronteiras visitaram el-Fasher e relataram que a cidade estava vazia e “amplamente destruída.”
O líder das RSF, General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, declarou um governo paralelo no território controlado pelas RSF em Julho de 2025. Na altura, as suas forças controlavam a maior parte da região de Darfur, juntamente com grande parte do sul do Sudão. Ao ajudar Hemedti a consolidar o poder no oeste do Sudão, a queda de el-Fasher mudou a posição do Egipto em relação ao conflito no Sudão.
“A divisão do Sudão é uma linha vermelha que o Egipto não permitirá que ninguém ultrapasse,” o Ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio, Badr Abdelatty, disse em Novembro de 2025.
Desde o início do conflito sudanês, o Egipto recebeu mais de 1,2 milhões de cidadãos sudaneses que fugiram para escapar da violência. Algumas dessas pessoas começaram a regressar ao Sudão depois de as SAF terem retomado o controlo da região de Cartum no ano passado.
Analistas temem que o conflito sudanês possa evoluir para uma luta regional mais ampla, com o Egipto, o Qatar, a Arábia Saudita e a Turquia a apoiarem o governo de al-Burhan, enquanto Haftar, da Líbia, e os Emirados Árabes Unidos apoiam as RSF.
Especialistas das Nações Unidas identificaram os Emirados Árabes Unidos como a fonte de armas das RSF. Os EAU negam apoiar as RSF.
As autoridades egípcias acreditam que o controlo das RSF sobre o oeste do Sudão possa permitir que grupos terroristas do Sahel se espalhem pelo sudoeste do Egipto.
“Os combates incessantes no Sudão são, por si só, uma ameaça à segurança nacional do Egipto,” o investigador político egípcio Ahmed Abdel Meguid disse ao The New Arab.
O Egipto pretende dissuadir essa ameaça, continuando a apelar para uma resolução pacífica do conflito no Sudão, que já dura quase três anos, de forma a manter o Sudão intacto.
De acordo com o The Sudan Tribune: “O verdadeiro interesse do Egipto reside em pôr fim à guerra, não em prolongá-la. A estabilidade sudanesa é uma necessidade estratégica para Cairo, formando uma importante zona tampão a sul. A instabilidade na região representa um risco de caos regional e ameaças imprevisíveis à segurança.”
