Com demasiada frequência, os esforços de construção da paz deixam de fora o grupo com maior interesse no futuro do continente: os seus jovens. Mas isso está a começar a mudar.
A primeira geração de cidadãos africanos a crescer com a internet está a utilizar os seus conhecimentos digitais e a familiaridade com o ambiente online para criar sistemas destinados a combater a desinformação, prevenir conflitos e trabalhar no sentido de soluções pacíficas para problemas crónicos.
“Hoje, o acesso constante às redes sociais e às plataformas online permite aos jovens mobilizar as suas comunidades, participar directamente em processos de paz fora das hierarquias formais e exercer a sua influência nos espaços digitais,” a investigadora Emmaculate A Liaga escreveu recentemente num relatório para o Instituto de Estudos Estratégicos (ISS).
Ao utilizarem ferramentas online e desenvolverem novas, os jovens activistas estão a criar conteúdos online importantes, não se limitando a consumi-los. Estão a utilizar ferramentas online como o Ushahidi, do Quénia, e o Dataphyte, da Nigéria, para analisar actividades durante momentos de agitação política ou para identificar casos de corrupção pública. Outras ferramentas, como o iVerify das Nações Unidas, são utilizadas rotineiramente na Zâmbia para sinalizar informações falsas que circulam online.
Os jovens também estão a combinar os seus conhecimentos tecnológicos com o domínio das cerca de 2.000 línguas indígenas do continente para colmatar lacunas linguísticas cruciais nas plataformas das redes sociais. Essas lacunas, muitas vezes, permitem que discursos de ódio, gíria e retórica inflamatória escapem aos monitores das redes sociais, que se concentram no Inglês, Francês ou outras línguas de grande difusão.
“Incluir as línguas africanas, o conhecimento indígena e a participação dos jovens é vital para evitar que a construção da paz digital reproduza as mesmas exclusões que pretende combater,” escreveu Liaga.
Trabalhando com o Peace Tech Lab, por exemplo, os jovens criaram um glossário de termos de discurso de ódio indígenas que pode ajudar os sistemas de IA a detectar e combater esse tipo de discurso online nos Camarões, na Etiópia, no Quénia e no Sudão do Sul.
Liaga observa, no entanto, que tais projectos se aplicam principalmente às áreas urbanizadas de África, onde vivem 57% dos utilizadores da internet, em comparação com menos de 25% nas áreas rurais. Embora países como o Quénia, Marrocos, Nigéria e África do Sul tenham algumas das taxas mais elevadas de utilização da internet do continente, apenas 38% de toda a população africana tinha acesso à internet em 2024.
Por essa razão, os defensores da paz precisam de combinar os seus esforços online com ferramentas offline, como a rádio, para alcançar populações que possam não ter a capacidade de utilizar facilmente as ferramentas digitais.
“A construção da paz digital é mais eficaz quando está ligada a acções offline,” observou Liaga.
A exclusão digital em África representa um importante obstáculo quando se trata de utilizar a internet para construir esforços de paz liderados por jovens. Outro obstáculo potencial são as leis de segurança cibernética excessivamente abrangentes, que podem ser utilizadas para bloquear a internet em períodos de agitação ou para criminalizar críticas às acções do governo.
“Estas acções minam a credibilidade de qualquer processo de construção da paz no qual os participantes não possam envolver-se ou falar livremente,” escreveu Liaga.
Para evitar esse problema, os governos poderiam incluir as vozes dos jovens no processo de elaboração de legislação relacionada com o crime cibernético ou a desinformação.
“Para alcançar ganhos tangíveis em matéria de paz, a governação deve promover a inclusão, colmatar as lacunas digitais e integrar os jovens como arquitectos do futuro da paz digital em África,” escreveu Liaga.
