Os grupos armados do Sahel estão a explorar as tensões entre a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a Aliança dos Estados do Sahel (AES) enquanto continuam a expandir o seu alcance na África Ocidental.
Burquina Faso, Mali e Níger abandonaram a CEDEAO em 2024, e os líderes daqueles países anunciaram que formariam o seu próprio pacto de defesa mútua para combater os insurgentes. Analistas afirmam que a ausência contínua dos países da AES das organizações regionais permite que as organizações terroristas prosperem em toda a África Ocidental.
Intensificação do Terrorismo
O ISSP, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e outras facções dissidentes do Boko Haram estão a impulsionar a violência que se tem espalhado para sul e oeste. A revista The Africa Report destacou recentemente três áreas de intensificação do terrorismo.
Na fronteira entre o Benin, que é membro da CEDEAO, o Burquina Faso e o Níger, Hanifa, uma unidade do JNIM, começou a ganhar força em torno dos parques nacionais de Pendjari e W no início de 2025. O grupo matou 54 soldados beninenses no parque nacional W em Abril de 2025. Muitas vezes, tem como alvo corredores de trânsito críticos entre o Sahel e o Golfo da Guiné.
O presidente beninense, Patrice Talon, disse à revista Jeune Afrique que os terroristas estão a prosperar devido à falta de cooperação entre os três países.
“No que nos diz respeito, não há nenhuma,” Talon disse sobre a cooperação. “Fazemos um acompanhamento regular, explicando que a cooperação em matéria de segurança não só nos ajudaria a escapar ao conflito assimétrico que estamos a sofrer, como também serviria os seus interesses de segurança. Mas não tivemos qualquer resposta.”
Outra zona de insegurança está a formar-se entre o Benin, o Burquina Faso e o Togo, que é membro da CEDEAO. O JNIM começou a expandir-se para a região de Savanes, no Togo, no ano passado.
“A ausência de cooperação entre o Benin e o Burquina Faso, por um lado, e a fraca colaboração entre o Benin e o Togo, por outro — embora ambos sejam membros da CEDEAO com relações opacas — favorece o enraizamento do jihadismo noutra zona fronteiriça em rápida expansão,” Seidik Abba, especialista sobre o Sahel e presidente do Centre International de Réflexion et d’Etudes sur le Sahel (CIRES), disse à The Africa Report.
Ao longo do último ano, grupos terroristas, particularmente o JNIM, também reforçaram a sua presença em áreas entre o Benin, o Níger e a Nigéria, membro da CEDEAO. O JNIM realizou o seu primeiro ataque na Nigéria no final de Outubro, quando matou um soldado nigeriano no Estado de Kwara. O grupo de reflexão Jamestown Foundation relatou recentemente uma possível relação na Nigéria entre o JNIM e o grupo terrorista Lakurawa, que também se acredita cooperar com o ISSP.
De acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, estas zonas fronteiriças poderão sofrer intensos combates entre grupos terroristas este ano.
“Facções como o JNIM, o EIGS [Estado Islâmico no Grande Sahara], o Ansaru, o Mahmuda, o Estado Islâmico na África Ocidental, bem como grupos criminosos, estão cada vez mais a cruzar-se nestas zonas fronteiriças,” observou a organização num relatório de Dezembro de 2025.
Emaranhado Geopolítico
Conforme observado pela revista The Africa Report, a geopolítica agrava a desconfiança entre os países da CEDEAO e da AES. Os países da CEDEAO têm procurado manter parcerias tradicionais com aliados ocidentais, enquanto os Estados da AES se alinharam com a Rússia e outros países.
O atrito surgiu a 8 de Dezembro de 2025, quando um avião de carga nigeriano pousou sem autorização prévia em Bobo-Dioulasso, no Burquina Faso. Embora as forças armadas da Nigéria tenham alegado um problema técnico, as autoridades burquinabês detiveram dois pilotos e nove soldados, alegando que o avião tinha violado o seu espaço aéreo. A AES denunciou o incidente como um “acto hostil,” colocou as suas defesas aéreas em alerta máximo e autorizou-as a “neutralizar qualquer avião que viole o espaço aéreo confederal.”
No dia 14 de Dezembro de 2025, os chefes de Estado da CEDEAO decidiram “manter o diálogo com o Burquina Faso, o Mali e o Níger com vista a uma colaboração eficaz e reforçada face à deterioração da situação de segurança.”
No entanto, as tensões entre Talon, do Benin, e Tiani, do Níger, são particularmente hostis devido à ligação do Benin com a França.
“Enquanto estes patronos prosseguirem agendas divergentes, as tensões persistirão,” Abba disse à The Africa Report. “A única saída reside na capacidade dos Estados de se libertarem das influências externas e colocarem os interesses dos seus povos acima da política de alinhamento.”
