Aos 32 anos, Claude Hakorimana testemunhou em primeira mão como o seu país natal, Ruanda, se tornou um dos casos de sucesso do continente no combate à caça furtiva e ao tráfico de animais selvagens.
Aos 14 anos, começou a caçar búfalos, javalis e zebras numa comunidade na fronteira com o Parque Nacional dos Vulcões. A caça furtiva era a forma como a sua família e muitas outras sobreviviam. Então, líderes locais, funcionários do governo e conservacionistas começaram a educar as comunidades vizinhas, explicando uma série de questões. Eles explicaram as ramificações legais da caça furtiva e do comércio de partes de animais selvagens, as medidas de fiscalização e os danos a longo prazo causados pela caça furtiva à vida selvagem, ao turismo e aos meios de subsistência locais.
“Fomos ensinados sobre os efeitos negativos da caça furtiva e ficou claro que qualquer pessoa apanhada enfrentaria a prisão,” Hakorimana disse ao jornal The New Times, com sede em Kigali, para um artigo publicado a 22 de Janeiro. “A combinação de campanhas de sensibilização e uma aplicação mais rigorosa da lei levou-me a abandonar a caça furtiva e a repensar o meu futuro.”
Em 2018, o Ruanda aprovou uma lei sobre biodiversidade que redefiniu os crimes contra a vida selvagem. A matança ilegal de espécies protegidas — como gorilas das montanhas, elefantes ou leões — acarreta uma pena de prisão de até 20 anos e multas de até 8.000 dólares. A lei também aborda todos os elos da cadeia de tráfico, desde a posse ilegal até ao transporte e ao comércio de partes de animais. O Ruanda é considerado um ponto de trânsito de marfim, escamas de pangolim e partes do corpo de primatas originários do Burundi e da República Democrática do Congo.
Um elemento-chave do sucesso do Ruanda foi a criação de uma agência única, o Conselho de Desenvolvimento do Ruanda, para gerir o turismo, o desenvolvimento económico e a conservação, incluindo a supervisão dos parques nacionais e áreas protegidas do país.
O conselho colabora com a Força de Defesa do Ruanda e a polícia nacional em milhares de patrulhas contra a caça furtiva todos os anos. Os agentes alfandegários recebem formação especial para denunciar e rastrear produtos da vida selvagem e coordenar estratégias de fiscalização transfronteiriças.
Para combater a caça furtiva, o conselho evoluiu de uma abordagem amplamente reactiva para uma estratégia proactiva e multifacetada que combina a fiscalização baseada em tecnologia com a participação da comunidade.
Em 2017, o governo duplicou o preço das licenças para observação de gorilas para 1.500 dólares por pessoa. Prosper Uwingeli, director do Parque Nacional dos Vulcões desde 2008, disse que o preço mais alto permite que mais dinheiro chegue às comunidades locais. O Esquema de Partilha de Receitas do Turismo, lançado em 2005, destina 10% de todas as receitas do parque a projectos como escolas, sistemas de água, centros de saúde e infra-estruturas agrícolas.
“Preços mais altos significam menos turistas, mas ainda assim ganhamos mais dinheiro,” Uwingeli disse à Deutsche Welle. “Isso reduz a pressão sobre os gorilas, dando-nos mais para gastar em conservação, pesquisa e na população local.”
Apesar de todos os esforços, a caça furtiva persiste nos parques do Ruanda, e as armadilhas representam um desafio contínuo, de acordo com o chefe de conservação Eugene Mutangana.
“São baratas, fáceis de fabricar e difíceis de detectar na floresta densa, muitas vezes, feitas com cabos de travão de bicicleta,” disse ao The New Times, acrescentando que o conselho está a testar tecnologias avançadas de detecção para localizar armadilhas e monitorizar a actividade dos caçadores furtivos.
O número de armadilhas para animais recuperadas no Parque Nacional dos Vulcões aumentou drasticamente, de 446 em 2019 para 2.336 em 2025. Mas Mutangana acredita que os números mais elevados reflectem a eficácia dessas novas tecnologias, bem como a ampliação da cobertura das patrulhas, que está a revelar armadilhas que antes não eram detectadas.
“A frequência e a cobertura das patrulhas aumentaram, com missões especializadas de ‘varredura’ focadas em localizar e desmantelar armadilhas em zonas de alto risco,” considerou. “Os guardas-florestais agora dependem muito de ferramentas digitais. O rastreamento por GPS é usado para monitorar grupos de gorilas, enquanto as tecnologias de conservação CyberTracker e SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) permitem que as equipas de patrulha registem as coordenadas exactas de cada armadilha encontrada. Os dados são analisados para gerar mapas de calor dos pontos críticos de caça furtiva, permitindo uma distribuição mais direccionada de pessoal e recursos.”
