O crime organizado surgiu na sequência da independência pós-colonial de África na década de 1970, proliferou através de conflitos continentais nas décadas de 1980 e 1990 e explodiu em meio à globalização e ao crescimento económico na década de 2000, de acordo com um novo relatório.
O Índice de Crime Organizado em África 2025 observa como os mercados criminosos, os actores e a resiliência mudaram ao longo do tempo. O projecto Enhancing Africa’s Response to Transnational Organized Crime (ENACT) publicou o relatório no dia 17 de Novembro de 2025.
“O crime organizado expandiu-se rapidamente nos Estados pós-coloniais de África, em resposta à fraca governação e às desigualdades socioeconómicas, e alimentado pela abundância de recursos naturais e pela rica biodiversidade, bem como pelas fronteiras porosas, instabilidade política, conflitos persistentes, fragilidade e corrupção sistémica,” lê-se no relatório.
O relatório define o crime organizado como grupos ou redes que actuam em conjunto através da violência, corrupção ou actividades relacionadas para obter benefícios financeiros ou materiais directos ou indirectos dentro de um país ou transnacionalmente.
Uma recente operação policial internacional coordenada pela Interpol e pela Afripol e liderada pelas agências policiais do Gana, da Costa do Marfim e da Nigéria sublinha a prevalência das redes de crime organizado africanas. A Operação Djembe desmantelou grupos da África Ocidental envolvidos no tráfico de drogas, tráfico de seres humanos, extorsão, branqueamento de capitais e crime cibernético, de acordo com a Interpol. As autoridades prenderam 204 pessoas, 71 das quais são suspeitas de pertencerem a grupos criminosos.
A operação, anunciada dias antes da divulgação do relatório do projecto ENACT, resgatou 202 vítimas de tráfico de pessoas, identificou 22 migrantes contrabandeados, apreendeu 58 quilogramas de drogas e confiscou 71 veículos.
A investigação é um microcosmo dos tipos de crime organizado perpetrados em toda a África.
De acordo com o relatório do projecto ENACT, o Quénia, a Nigéria e a África do Sul oferecem uma visão sobre como o crime organizado se enraizou. No Quénia, milícias e gangues formaram-se após o sufrágio universal na década de 1960 e tornaram-se ferramentas para aqueles que buscavam influenciar as eleições. Nas décadas de 1980 e 1990, milícias juvenis infiltraram-se em partidos políticos e perpetraram violência eleitoral.
O maior e mais notório desses grupos é o Mungiki, que tem cerca de 100.000 membros. Esses grupos estão envolvidos numa série de crimes, como roubo de gado e extorsão, e ganharam influência ao colaborar com actores estatais durante as eleições, segundo o relatório.
O crime organizado na Nigéria evoluiu a partir do sector petrolífero pós-independência e foi possibilitado por funcionários públicos corruptos, cuja cumplicidade ajudou os criminosos a expandir-se e, eventualmente, a dedicar-se a assaltos à mão armada, tráfico de drogas e pirataria.
Na África do Sul, o desenvolvimento industrial após a Segunda Guerra Mundial criou um terreno fértil para o crescimento do crime urbano na Cidade do Cabo, Durban, Joanesburgo e Pretória. Gangues de rua surgiram e evoluíram para os grupos actuais.
“Os gangues criminosos organizados, que o Índice classifica como grupos do tipo máfia, exercem grande influência no panorama do crime organizado da África do Sul actualmente e têm um impacto negativo nas estruturas sociais e estatais,” lê-se no relatório.
Na década de 1970, o crime organizado cresceu em conjunto com o aumento dos preços do petróleo, a alta inflação e o aumento da dívida entre os países em desenvolvimento, de acordo com o relatório. Na década de 1980, os conflitos aumentaram, e os actores estrangeiros entraram nos mercados ilegais de África, resultando no aumento do tráfico de armas.
Ao mesmo tempo, “caçadores de fortunas” da Europa e da Ásia criaram empresas de importação e exportação para encobrir crimes como o tráfico de minerais, diamante e marfim. Com o fim da Guerra Fria no início da década de 1990, algumas nações autoritárias tornaram-se democracias e outras ganharam soberania total. As guerras civis continuavam e as fronteiras e sociedades estavam a abrir-se, segundo o relatório. “Essas mudanças críticas não só permitiram a livre circulação de pessoas e mercadorias legítimas, mas também o tráfico de mercadorias ilícitas.”
A comunidade internacional tomou nota. A antecessora da União Africana, a Organização da Unidade Africana, discutiu no início da década de 1990 o reforço da coordenação e cooperação para combater o crime e o terrorismo. A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (UNTOC) foi adoptada em 2000. Todas as nações africanas, excepto uma — a República do Congo — ratificaram ou aderiram à UNTOC. O Congo assinou o acordo.
Os mercados criminosos africanos cresceram em 2000, com o surgimento da globalização. As autoridades europeias atacaram as rotas de tráfico de cocaína da América do Sul, pelo que algumas se deslocaram para países da África Ocidental, como Cabo Verde, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau e Senegal. A partir daí, as drogas seguiram para a Europa. A África Oriental tornou-se uma importante rota de trânsito para a heroína do Afeganistão. Os conflitos continentais fortaleceram os traficantes de armas.
Em 2019, o início da pandemia da COVID-19 fechou as fronteiras, mas os criminosos adaptaram-se e passaram a explorar cada vez mais o espaço cibernético. Ao mesmo tempo, as restrições empurraram muitas populações marginalizadas e em risco para economias informais e criminosas. Segundo o relatório, isso alimentou uma crescente disparidade entre o crime e a resiliência das nações a ele.
