Separatistas Unem Forças e as Autoridades Temem o Aumento da Violência

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EQUIPA DA ADF

Os grupos separatistas armados dos Camarões e da Nigéria estão a unir forças, numa acção que está a deixar alarmadas as autoridades em ambos os lados da fronteira.

No dia 16 de Setembro, militantes de Bamessing, nos Camarões, fizeram uma emboscada a uma coluna que transportava soldados do Batalhão de Intervenção Rápida dos Camarões. Os atacantes eram separatistas, falantes de língua inglesa, que lutam a favor de um Estado independente conhecido como Ambazonia. No ataque, que deixou 15 soldados camaroneses e vários civis mortos, os assaltantes utilizaram dispositivos explosivos improvisados, armamento pesado e um lançador de mísseis antitanque.

As autoridades acreditam que os combatentes obtiveram armamento sofisticado de aliados do outro lado da fronteira, na Nigéria, possivelmente aqueles que lutam a favor de um Estado de Biafra independente.

Manifestantes carregam dísticos uma marcha que se opõe à separação da região anglófona dos Camarões, em Douala. Lê-se nos dísticos, “Eu não sou francófono” e “Eu não sou anglófono.” REUTERS

“Os separatistas utilizaram armamento pesado pela primeira vez, violando leis humanitárias internacionais,” disse o exército camaronês num comunicado. “O crescimento em poder destes grupos terroristas é amplamente devido à sua cooperação com outras entidades terroristas que operam fora do país.”

Os falantes de inglês da região oeste dos Camarões exigem a independência há décadas, argumentando que eles estão mal representados no governo e são vítimas de discriminação nas mãos da maioria falante de francês. Desde 2016, os conflitos aumentaram de intensidade, com 730.000 pessoas tendo ficado deslocadas e 3.000 pessoas mortas, de acordo com a Human Rights Watch.

Do outro lado da fronteira, na Nigéria, alguns membros do grupo étnico Igbo também lutam contra o governo central há décadas. De forma mais notável, o grupo declarou a independência do Estado de Biafra, em 1967, despoletando uma guerra civil que durou três anos e custou a vida de 1 milhão de pessoas.

Actualmente, na Nigéria, um grupo conhecido como o Povo Indígena de Biafra está a lutar pela sua independência. O líder do grupo Nnamdi Kanu, foi preso pela Interpol, em Junho, fora do país e extraditado para a Nigéria. Ele está a ser julgado por traição e terrorismo e declarou-se inocente.

Parece que estes dois grupos separatistas encontraram uma causa comum. Em Abril, líderes dos dois grupos, Cho Ayaba, do Conselho do Governo de Ambazonia e Kanu, do grupo de Biafra, realizaram uma conferência de imprensa virtual anunciando uma aliança.

“Reunimo-nos aqui hoje diante dos nossos dois povos para declarar a nossa intenção de caminharmos juntos para assegurar a sobrevivência colectiva contra os anexos brutais que ocorreram nos nossos países,” disse Ayaba.

Separatistas da região anglófona dos Camarões, representados em amarelo, estão a criar uma aliança com os separatistas da Nigéria. REUTERS

A aliança também inclui a partilha de armas. O Delta do Níger, próximo da base do poder Igbo, é um centro de contrabando de armas. Em Setembro, a polícia nigeriana apreendeu 40 traficantes de armas na cidade fronteiriça de Ikon e acusou-os de fornecerem armas, munições e explosivos aos separatistas camaroneses.

Oluwole Ojewale, o coordenador do observatório regional do crime organizado, da ENACT, disse que o fluxo de armas para os Camarões não está apenas a armar os separatistas do sudoeste, mas também os extremistas islâmicos como o Boko Haram, no norte. A organização ENACT, um instituto que faz a pesquisa do crime organizado transnacional, estima que existem mais de 250 caminhos provenientes de três Estados nigerianos para os Camarões por onde os traficantes podem movimentar armas sem serem interpelados pelas forças de segurança.

“Esses caminhos são, na sua maioria, desconhecidos pelas forças de segurança, incluindo a Força-Tarefa Conjunta Multinacional,” Ojewale escreveu num artigo para o Instituto de Estudos de Segurança. “As rotas fornecem passagens sem restrições para aqueles que fazem contrabando de armas para o país.”

Ojewale sublinhou a necessidade de maior cooperação entre os dois países para reduzir o fluxo de armas ilegais. “Os Camarões e a Nigéria possuem uma história de cooperação no combate à proliferação de armas,” escreveu. “Estes esforços precisarão de ser acrescentados.”

Os observadores agora temem o aumento da desestabilização na região em ambos os lados da fronteira. Num artigo para a revista Foreign Policy, o jornalista Jess Craig observou que, em troca de ajuda material, os separatistas camaroneses planeiam mostrar à sua contra-parte nigeriana como fazer com que a região seja “ingovernável.” Os observadores também temem o aumento de violência étnica, porque tanto os Igbos e quanto os camaroneses anglófonos tiveram conflitos com os pastores Fulani, na disputa de terras.

Se não for resolvida, a violência pode aumentar em toda a região.

“A lição que aprendo de tudo isso é que quando se permite que as insatisfações domésticas se deteriorem, podem, em última instância, tornar-se em conflitos mais amplos e crises entre irmãos ou conflitos armados, o que pode ter consequências devastadoras num nível transnacional,” disse o cientista político natural dos Camarões, Christopher Fomunyoh, do Instituto Democrático Nacional.

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