A exploração de ouro, uma das principais fontes de financiamento da guerra no Sudão, espalhou-se por algumas das zonas agrícolas do país, envenenando as culturas, o gado e as pessoas com subprodutos tóxicos.
No Estado do Rio Nilo, a norte de Cartum, os agricultores relatam quedas drásticas na produção de culturas básicas, como o trigo e favas. Ao mesmo tempo, os criadores de gado estão a observar malformações congénitas e indícios de que o gado adulto está a ser envenenado, possivelmente com mercúrio.
Ainda mais preocupante é o facto de, segundo médicos locais, os abortos espontâneos e as malformações congénitas estarem a aumentar entre as mulheres da região.
O Estado do Rio Nilo tem sido, desde há muito, uma das regiões de exploração aurífera mais activas do Sudão. A exploração mineira nessa região e noutros locais do Sudão tem-se expandido, numa altura em que as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) dependem das exportações de ouro para financiar as suas operações.
A comunidade agrícola de Abu Hamad, situada em território controlado pelas SAF, tornou-se um dos maiores centros de exploração aurífera artesanal do Sudão. É também o epicentro de problemas de saúde e ambientais relacionados com centenas de montes de rejeitos — a mistura de rochas, solo e produtos químicos tóxicos deixados pelas operações mineiras — que rodeiam a comunidade.
A mineração artesanal representa mais de 90% da indústria aurífera do Sudão. Os mineiros utilizam mercúrio e tioureia para extrair o ouro da rocha. O processo deixa cerca de 70% do ouro extraível nos resíduos, que as empresas de processamento controladas pelo Estado tratam posteriormente com mercúrio e cianeto para remover cerca de 95% do ouro restante. O processo permite que água tóxica se infiltre no solo.
“Em suma, os mineiros artesanais utilizam mercúrio indiscriminadamente, enquanto o Estado promove o processamento por empresas concessionárias que apenas aumentam o risco, em grande parte sob a influência das suas elites,” o investigador Abdelrahman escreveu num relatório de 2022 elaborado pelo grupo de reflexão Sudan Transparency and Policy Tracker.
O Sudão é o maior importador de mercúrio da África Subsariana, de acordo com as Nações Unidas. Relatórios oficiais afirmam que o Sudão importa cerca de 36 toneladas métricas de mercúrio por ano. De acordo com investigadores do Sudan Transparency and Policy Tracker, que observaram os mineiros no terreno, a quantidade real poderá ser quase 20 vezes superior — cerca de 626 toneladas métricas por ano.
A diferença poderá representar a quantidade de mercúrio contrabandeado e importado de forma não declarada, segundo Abdelrahman.
De acordo com o jornal The Guardian, o número de montes de rejeitos em torno de Abu Hamad aumentou para mais de 700 desde que a exploração mineira teve início na região, em 2008.
Os agricultores da região de Abu Hamad dependem de canais de irrigação alimentados pelo Rio Nilo. Em Agosto de 2022, inundações repentinas assolaram o Estado do Rio Nilo, arrastando toneladas de rejeitos contaminados para o rio.
Um estudo de 2022 revelou que cerca de 20% da água potável da região já se encontrava contaminada com mercúrio.
“O governo do Sudão não conseguiu controlar rigorosamente as operações de importação, transporte, armazenamento, utilização e eliminação de mercúrio devido à sua incapacidade de exercer controlo e de fazer cumprir normas mínimas para salvaguardar a saúde dos seus cidadãos e o ambiente, com consequências trágicas para ambos,” escreveu Abdelrahman.
O agricultor Mohamed Fathi al-Rahman al-Khalifa disse ao The Guardian que a destruição causada pela poluição da exploração de ouro devasta a produção alimentar nos arredores de Abu Hamad. Um pomar de laranjeiras que outrora produzia quatro camiões de fruta produz agora menos de um quarto de um camião, afirmou.
Al-Khalifa alertou para uma catástrofe iminente que se estende muito para além do Estado do Rio Nilo.
“A segurança alimentar já não é apenas uma questão local que afecta Abu Hamad,” afirmou al-Khalifa. “Tornou-se uma questão nacional que diz respeito a todo o Sudão.”
