A Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF) foi um dos sete grupos armados etíopes que formaram recentemente uma aliança com o objectivo de derrubar o governo federal liderado pelo Primeiro-Ministro Abiy Ahmed. A nova associação denomina-se Aliança das Forças dos Povos Etíopes para a Sobrevivência, ou Aliança para a Sobrevivência.
Alguns destes grupos já entraram em confronto no passado, e as disputas territoriais permanecem, mas foram colocadas de lado, de acordo com os representantes da aliança. O pacto foi anunciado a 20 de Setembro, no meio da violência em curso na região do Tigré.
“Acabámos de formar uma aliança, estamos a colaborar com vários grupos e os nossos objectivos são derrubar o regime e facilitar a formação de um governo de transição,” o vice-presidente da TPLF, Amanuel Assefa, disse à Agence France-Presse (AFP). “Acreditamos que seremos bem-sucedidos; já há mais de um ano que mantemos conversações entre nós.”
Foi perguntado a um alto responsável da TPLF se o anúncio constituía uma declaração de guerra. “Estamos em guerra neste momento, não estamos?,” o responsável disse numa reportagem da Al Jazeera.

Os analistas alertaram que as hostilidades em curso no Tigré poderão desencadear um regresso a uma guerra em grande escala. A TPLF liderou a Etiópia durante quase três décadas antes de Abiy assumir o cargo em 2018. A guerra no Tigré, que terminou em 2022, teve início depois de Abiy ter marginalizado a TPLF e a ter substituído pelo Partido da Prosperidade. Cerca de 600.000 pessoas morreram durante o conflito.
Para além da TPLF, a nova aliança inclui o Movimento Nacional Amhara Fano, que tem combatido as forças federais na região de Amhara desde 2023, e o Exército de Libertação Oromo, ou OLA, que tem combatido as forças federais na região de Oromia desde 2018. De acordo com a Al Jazeera, os outros quatro grupos são de menor dimensão. Trata-se da Frente de Unidade Democrática Revolucionária de Afar, ou Ugugumo; do Movimento de Libertação dos Povos de Benishangul; do Movimento Democrático dos Povos de Gumuz; e da Frente de Libertação Nacional de Ogaden, ou ONLF.
Uma declaração da aliança acusou Abiy de liderar um governo que empurrou a Etiópia “para a margem dos assuntos políticos, económicos e diplomáticos regionais e internacionais, privando-a da sua voz e influência.” O grupo afirmou ainda que pretende iniciar um novo capítulo “no qual os direitos humanos e democráticos de todos os etíopes possam ser garantidos na íntegra, sem restrições.”
O líder do Fano, Zemene Kasse, presidirá à aliança, embora a declaração dos grupos não tenha nomeado um comandante para as operações conjuntas contra o governo.
Os críticos têm questionado a potencial eficácia da aliança.
Os grupos “não têm qualquer objectivo político comum,” Jawar Mohammed, um político Oromo e antigo aliado de Abiy, disse à Al Jazeera. “Nem sequer têm um objectivo táctico comum.”
Kjetil Tronvoll, especialista regional da Oslo New University College, na Noruega, destacou as capacidades das forças armadas federais no que diz respeito aos drones. Tronvoll previu que os confrontos entre as forças federais e a aliança seriam semelhantes a “uma guerra de sacrifício para os rebeldes.”
“Se se coordenarem como um comando militar, isso poderá fazer a diferença; trata-se de quatro a cinco frentes potenciais com as quais o governo terá de lidar, o que poderá constituir um desafio,” Tronvoll disse à AFP.
Tronvoll questionou também o que poderá acontecer após uma tomada de poder, tendo em conta as diferentes ideologias entre os grupos da aliança e os seus históricos de conflito. O Fano, por exemplo, combateu ao lado das forças federais etíopes durante a recente guerra do Tigré.
“Mais tarde, sentar-nos-emos à mesa para resolver os nossos problemas pacificamente,” Amanuel disse à AFP.
Três dias após o anúncio da aliança, eclodiram combates entre as forças federais etíopes e a TPLF na região de Afar, que faz fronteira com o Tigré. Os rebeldes afirmaram numa publicação no Facebook que estavam a responder a bombardeamentos intensos de aeronaves, drones e artilharia das forças federais. Um antigo alto responsável da TPLF disse que os rebeldes assumiram o controlo de seis cidades em Afar.
No dia seguinte, as forças armadas da Etiópia afirmaram ter “lançado uma contra-ofensiva que infligiu pesadas perdas de efectivos e equipamento à TPLF.”
“Encontramo-nos agora numa situação de guerra total,” Amanuel disse numa reportagem da emissora alemã Deutsche Welle.
