Os Estados do norte da Nigéria estão a enfrentar um aumento do terrorismo que se propaga a partir do Sahel, à medida que as relações diplomáticas tensas com a junta governante do Níger complicam a segurança transfronteiriça.
As tensões entre os dois países tiveram início após o golpe de Estado de 2023 que derrubou o presidente democraticamente eleito do Níger, Mohamed Bazoum. A situação agravou-se quando o Níger se juntou ao Burquina Faso e ao Mali na Aliança dos Estados do Sahel (AES) e se retirou da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) em 2025. Posteriormente, saiu da Força-Tarefa Conjunta Multinacional (MNJTF), que combate o terrorismo na Bacia do Lago Chade.
Após a retirada da CEDEAO, o Níger e os seus aliados da AES têm denunciado repetidamente os seus vizinhos do sul — com especial destaque para a Nigéria — por alegadamente se intrometerem nos seus assuntos internos e tentarem desestabilizar os seus governos.
Em Dezembro de 2025, após um C-130 nigeriano ter efectuado uma aterragem de emergência no Burquina Faso, os líderes burquinabês ameaçaram “neutralizar” qualquer aeronave nigeriana que sobrevoasse o seu território sem autorização.
“A postura cada vez mais rígida da AES desafia a capacidade da Nigéria de projectar influência para norte,” segundo um relatório da African Security Analysis após o incidente com o C-130.
O Chefe de Defesa da Nigéria, General Olufemi Oluyede, disse à ADF na conferência dos Chefes de Defesa Africanos deste ano, em Maio, que a Nigéria e o Níger continuam a colaborar em questões de segurança ao longo da sua fronteira de 1.608 quilómetros.
“No terreno, estamos a colaborar,” disse Oluyede, “em termos de operações, continuamos a cooperar, embora não seja de forma tão elaborada como gostaríamos que fosse.”
A decisão do Níger de se retirar da CEDEAO e da MNJTF cria lacunas significativas na segurança regional, segundo o analista nigeriano, Abiola Sadiq.
Sadiq disse à Al Jazeera que a deterioração das relações entre a Nigéria e os seus vizinhos do Sahel poderá dar aos grupos terroristas mais liberdade para operarem através das fronteiras porosas da região.
Isso parece já estar a acontecer, numa altura em que as comunidades nigerianas ao longo da fronteira norte relatam incursões do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslim (JNIM) e do Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), ambos sediados no Sahel, nos Estados de Katsina e Sokoto. Entretanto, o Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) continuam a realizar ataques nos Estados de Borno e Yobe.
Para complicar ainda mais a situação, estão a surgir indícios de que as duas facções do Estado Islâmico possam estar a utilizar o norte da Nigéria como ponte para partilhar pessoal.
Para além dos insurgentes que atravessam a fronteira do Níger para a Nigéria, as autoridades nigerianas têm também de enfrentar os seus próprios problemas de segurança interna em todo o norte, tais como o banditismo desenfreado, o roubo de gado e os conflitos étnicos. O JNIM e outros grupos terroristas exploram esses problemas de segurança interna para recrutar novos membros.
Em Julho, o Presidente da Nigéria, Bola Tinubu, disse que a falta de segurança nos países da AES estava a agravar a situação de segurança da Nigéria. Essa declaração provocou uma forte reacção por parte dos três países da AES, cujos representantes se reuniram com o encarregado de negócios da Nigéria no Burquina Faso para denunciar a declaração de Tinubu como injusta e imprecisa.
“Não somos responsáveis pelo que nos está a acontecer. Os verdadeiros inimigos estão noutro lugar,” disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Burquina Faso, Karamoko Jean-Marie Traoré, falando em nome dos membros da AES.
O crescente conflito diplomático entre a Nigéria e a AES destaca um desafio fundamental para a região, segundo o analista Amanze Chinonye: a ameaça dos grupos terroristas do Sahel está a tornar-se transnacional, enquanto os mecanismos políticos necessários para fazer face a essa ameaça estão a desmoronar-se.
“A questão para a África Ocidental,” Chinonye escreveu na Prime Business Africa, “é saber se essas estruturas concorrentes conseguirão encontrar pontos em comum suficientes para cooperarem em matéria de segurança, antes que as divisões políticas enfraqueçam ainda mais a resposta colectiva a uma crise que não reconhece fronteiras nem alianças.”
