As apreensões anuais de cocaína na África Ocidental aumentaram de duas toneladas métricas em 2018 para mais de 30 toneladas métricas em 2025, de acordo com um relatório da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC).
O tráfico de cocaína foi o mercado criminoso que registou o crescimento mais rápido na África Ocidental entre 2019 e 2025. De acordo com a revista The Economist, o volume de cocaína apreendida na região a cada ano aumentou 50%. Pelo menos um terço da cocaína exportada para a Europa transita pela região. Alguns analistas consideram que cerca de 30% de toda a cocaína com destino à Europa no ano passado passou pela África Ocidental.
“Fundamentalmente, a África Ocidental já não é um corredor de trânsito,” o Brigadeiro-General Maxwell Abuba Mantey, Director-Geral da Comissão de Controlo de Estupefacientes do Gana, disse num webinar organizado pela GI-TOC. “Estamos a tornar-nos cada vez mais um mercado consumidor e, em alguns casos, um centro de produção.”
Amado Philip de Andres, representante regional para a África Ocidental e Central do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, disse à Deutsche Welle (DW) que a Guiné-Bissau já não é “a principal porta de entrada” da cocaína na África Ocidental. De Andres citou apreensões em Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Libéria e Senegal, e disse que se tem observado um aumento do tráfico de cocaína no Benin e no Togo.
Senegal Como Centro Estratégico
No contexto desta tendência, o Senegal surgiu como um centro estratégico internacional do tráfico de cocaína. No ano passado, as autoridades aduaneiras do sul do Senegal apreenderam mais de 386 quilogramas de cocaína, no valor aproximado de 52 milhões de dólares. Em meados de Junho, as autoridades senegalesas apreenderam quase uma tonelada de cocaína, no valor aproximado de 103 milhões de dólares, escondida num camião que transportava fruta tropical perto da cidade de Ida Mouride, na região central do país.
Na cidade portuária de Dakar, a capital nacional, os agentes aduaneiros inspeccionam rotineiramente contentores provenientes da América Latina, de onde tem origem grande parte da cocaína com destino à Europa. Mouhamadou Kane, analista do Observatório da África Ocidental da GI-TOC, disse que o porto de Dakar é o centro nevrálgico do tráfico regional de cocaína. O porto oferece rotas terrestres através dos vizinhos Guiné, Guiné-Bissau, Mali e Serra Leoa, bem como ligações directas a portos europeus.
“É um centro atraente para as redes criminosas,” Kane disse ao jornal Le Monde.
Muitas vezes, as redes criminosas recorrem a contentores com documentação legítima. Depois de a cocaína ser escondida no seu interior, os contentores são selados com selos falsos. A droga, muitas vezes, chega ao Senegal em barcos de pesca, veleiros e embarcações semissubmersíveis.
“As organizações criminosas utilizam o ‘rebote’ africano como cortina de fumo,” Florian Manet, especialista internacional da empresa de consultoria Pelagos Stratégie, disse ao Le Monde. “Um contentor proveniente do Senegal atrai menos atenção dos serviços aduaneiros europeus do que um carregamento proveniente directamente da América Latina.”
Nem toda a cocaína que chega ao Senegal sai do país, e o consumo local constitui um desafio para a saúde pública e a segurança.
“O tráfico é extremamente intenso, e Dakar continua a ser uma zona de trânsito, mesmo que parte desse tráfico seja provavelmente consumida no local,” Mor Gassama, economista senegalês, disse à DW. “Isto não é uma boa notícia, em primeiro lugar, para a saúde da população, mas também irá promover a circulação de dinheiro ilícito.”
Inovação Criminal
A evolução do papel da África Ocidental no comércio global de cocaína deve-se à sua localização entre a América Latina e a Europa; às lacunas na governação; às infra-estruturas marítimas, aéreas e outras necessárias para o transporte de drogas; aos sistemas financeiros mal regulamentados; e ao facto de as forças de segurança se concentrarem noutras rotas de tráfico, segundo um relatório da GI-TOC.
“As redes estão constantemente a inovar: quando uma rota é vigiada, elas adaptam-se,” o comissário Adama Wélé, da Brigada Regional de Narcóticos de Dakar, disse ao Le Monde. “Os métodos também estão a evoluir muito rapidamente. Para contornar as inspecções, os traficantes dissolvem a cocaína em combustível. Através de processos químicos, conseguem depois filtrá-la e secá-la para recuperar a cocaína em pó.”
Kingsley Madueke, coordenador de investigação para a Nigéria na GI-TOC, disse que os carregamentos de cocaína chegam mais frequentemente à África Ocidental através de barcos de pesca, rebocadores e veleiros. A maior parte da cocaína provém do Brasil, embora se tenha verificado um aumento na chegada de cocaína proveniente da Guiana e do Suriname desde 2023.
“Remessas de várias toneladas são enviadas da América Latina para águas ao largo do Senegal, da Serra Leoa e do Golfo da Guiné, sendo depois transbordadas para embarcações secundárias de menor porte,” Madueke disse no webinar da GI-TOC. “Algumas seguem [directamente] para a Europa, mas grande parte [da cocaína] é desembarcada [na] costa da África Ocidental.”
Os traficantes estão cada vez mais a transportar cocaína para a região através de embarcações semissubmersíveis e submarinos. O tráfico aéreo não é tão prevalente, mas representa um “fluxo constante e cumulativamente significativo” da droga, segundo Madueke.
“Os voos comerciais transportam remessas através de mulas, bagagem e carga,” afirmou. “Embora as cargas individuais sejam pequenas, os volumes anuais podem atingir várias toneladas. A melhoria das infra-estruturas aeroportuárias amplia a conectividade, criando vulnerabilidades tanto para o tráfico internacional como para o intra-regional.”
