Uma milícia que foi treinada e armada por mercenários russos na República Centro-Africana está a voltar-se contra o governo da RCA e a causar estragos.
A Azande Ani Kpi Gbe (AAKG) pegou em armas em 2023 no sudeste da RCA, perto da fronteira com o Sudão do Sul e a República Democrática do Congo. O grupo apresentava-se como defensor do povo de etnia Azandé que vive na zona da tríplice fronteira. Enfrentando principalmente combatentes da etnia Fulani, o grupo conquistou o controlo da cidade de Bambouti, o que lhe proporcionou acesso a minas de ouro e ao tráfico transfronteiriço de armas.
O governo da RCA, que tinha sofrido perdas militares na região, viu uma oportunidade de cooptar o grupo. Em 2024, centenas de combatentes Azandé receberam formação por parte de mercenários russos do Grupo Wagner. Foram integrados nas Forças Armadas da República Centro-Africana numa unidade conhecida como Wagner Ti Azande (WTA), que operava ao lado dos russos.
Durante algum tempo, o governo da RCA considerou a unidade um caso de sucesso.
“Nós proporcionámos-lhes formação. São filhos do país que queriam defender o seu território. Isso era natural,” um conselheiro do Presidente da RCA, Faustin-Archange Touadera, disse, segundo a Agence France-Presse.
No entanto, enquanto combatiam ao lado do Grupo Wagner, os membros da Wagner Ti Azande, bem como outros combatentes da AAKG, foram acusados de crimes de guerra, incluindo ataques contra comunidades muçulmanas e refugiados. Um relatório da ONU citou provas de “criação de um clima de terror” através de uma execução pública, ataques a um acampamento Fulani que mataram 12 civis e esforços para “limpar” a área de Dembia de muçulmanos.
“Estes crimes horríveis não podem ficar impunes. A responsabilização é fundamental para garantir que tais violações nunca mais voltem a ocorrer,” o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, disse em 2025, quando o relatório foi divulgado.
Não demorou muito para que os combatentes da AAKG apontassem as armas aos seus antigos aliados. A AAKG manifestou a sua indignação face aos termos da sua integração nas forças armadas da RCA e ao facto de o governo ter assinado um acordo de paz com uma milícia rival conhecida como UPC. Durante uma discussão acalorada, mercenários russos lincharam um membro da AAKG, o que levou a milícia a expulsar os seus instrutores russos.
Desde então, o governo tem-se revelado incapaz de desarmar os combatentes da AAKG, e o grupo tem continuado a lançar ataques. Num dos incidentes, membros da milícia raptaram quatro funcionários públicos em Bambouti e exigiram um resgate de milhões de francos CFA. Durante as eleições nacionais de Dezembro de 2025, militantes da AAKG atacaram colunas, equipas de campanha, funcionários públicos, posições militares e infra-estruturas civis, segundo relatou a ONU.
“Ao recorrerem à milícia Zandé, as autoridades da RCA agravaram, em vez de aliviarem, as tensões na prefeitura,” relatou o International Crisis Group.
A AAKG estará também a formar alianças com grupos Azandé no Sudão do Sul e na RDC, alargando o âmbito do conflito étnico. Os especialistas apontam este caso como um exemplo ilustrativo da razão pela qual os países não devem armar milícias étnicas nem delegar a garantia da segurança a combatentes sem formação e indisciplinados.
“O caso da AAKG é especialmente revelador, porque demonstra um padrão consistente nas operações de influência militar russa: ganhos tácticos de curto prazo através da formação de grupos proxy, seguidos de instabilidade a longo prazo,” relatou o Instituto Robert Lansing para Estudos sobre Ameaças Globais e Democracias. “O resultado é um ambiente de ameaças em rápida expansão que corre o risco de reabrir corredores de conflito adormecidos, desde o Sudão do Sul até à RD Congo.”
