O Major-General Fructueux Gbaguidi, um oficial do Exército com mais de 35 anos de experiência, estudou e treinou em instituições da França, Madagáscar, Senegal e Estados Unidos. Durante a sua carreira nas Forças Armadas do Benin (FAB), serviu como comandante da 1.ª Companhia de Combate do Batalhão de Intervenção Rápida do Benin, ajudante de campo do chefe do Estado-Maior e comandante do 2.º Batalhão de Armas Combinadas. Ele ocupou cargos de liderança na Escola Nacional Superior de Formação do Exército e na Escola Nacional de Suboficiais. Serviu como chefe do Estado-Maior do Exército de 2016 a 2022, antes de ser nomeado para o seu cargo actual. Em Setembro de 2025, foi aprovado para entrar no Quadro de Honra Internacional da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército dos EUA. Falou com a ADF por vídeo a partir do seu escritório em Cotonou. Esta conversa foi editada por motivos de espaço e clareza e traduzida do francês.
ADF: Historicamente, o Benin não enfrentou ameaças de grupos terroristas. Isso mudou em 2019, quando turistas foram sequestrados num parque nacional. Nos anos seguintes, a ameaça só cresceu. Pode descrever como o Benin passou a ser alvo de grupos terroristas do Sahel e como essa ameaça afectou o país?
Gbaguidi: O Benin sempre foi um país pacífico, mas infelizmente em 2021 começámos a sofrer ataques. Durante muito tempo, o inimigo chegou ao Benin de forma secreta, desarmado ou, por vezes, com armas escondidas. E quando digo inimigo, refiro-me a terroristas. Inicialmente, eles não fizeram do Benin o seu alvo principal; estavam mais preocupados com a capacidade de atacar no Sahel. Evidentemente, em busca de melhores linhas de comunicação, em busca de mais espaço, começaram a atacar-nos. Como descreveu, houve o sequestro de turistas e, em vez de continuar a ser uma zona de trânsito, o Benin tornou-se um alvo, porque o objectivo deles era permitir o tráfico necessário para alimentar esses grupos. Isso inclui o tráfico de cigarros, gasolina, ouro e várias outras actividades de tráfico, incluindo drogas. A mobilização das nossas forças perturbou o inimigo, e esse tráfico tornou-se mais difícil para eles. Portanto, eles tiveram de nos atacar para conquistar militarmente essas áreas. Foi assim que nos tornámos alvo dos terroristas do Sahel.
ADF: Em 2022, o Benin criou a Operação Mirador. Pode descrever por que foi criada, o seu objectivo e o que conseguiu?
Gbaguidi: Tínhamos várias operações em curso: operações para combater a mineração ilegal e operações para combater o trânsito de mercadorias traficadas. Compreendendo que todas essas actividades ilegais tinham o mesmo objectivo — desestabilizar o nosso país —, decidimos implementar uma operação unificada que chamámos de Mirador. Tratava-se essencialmente de vigilância, e quando se está numa torre de vigia ou num “miradouro,” está-se a monitorar. Então, unificámos todos os comandos do Norte para criar uma única operação com um comandante de teatro. O teatro está dividido em três zonas principais: a Zona Norte, que é o departamento de Alibori; a Zona Oeste, que é o departamento de Atacora; e a Zona Leste, que é a fronteira com a Nigéria, ou seja, Borgou. É um princípio da guerra: a unidade de combate permite-nos facilitar a transmissão e a execução das ordens que transmito às várias unidades no terreno. Tudo está sob o comando de dois comandantes do teatro de operações que mudam periodicamente, cada um com o seu próprio quartel-general. Mas há um quartel-general central em Parakou. Este é o quartel-general da Operação Mirador. O objectivo é garantir a segurança das áreas do norte do Benin, particularmente os parques que parecem ser as zonas preferidas dos grupos terroristas.

ADF: Mencionou o complexo de parques W-Arly-Pendjari. Pode descrever como é que os terroristas e traficantes estão a infiltrar-se nos parques e o que deve ser feito para restaurar a estabilidade?
Gbaguidi: Sim, esses grupos precisam de lugares para se esconder, e a vegetação rasteira e as florestas são locais ideais para eles se movimentarem. Eles deslocam-se em pequenos grupos, muitas vezes, em motorizadas, às vezes, até a pé. São muito resistentes. Movem-se de acampamento em acampamento, levando apenas o mínimo necessário. Têm a sorte de ter abrigo porque, em África, quando se vê um estranho chegar, mesmo que não o conheça necessariamente, dá-lhe comida e abrigo, e não o denuncia, mesmo que ache que ele tem um carácter moral duvidoso. É isso que lhes permite deslocar-se de um lugar para outro e reagrupar-se para conduzir as suas operações. Combatemos esta ameaça de várias maneiras, porque temos de adoptar uma abordagem holística à situação. Para nós, a abordagem militar é o último recurso. Tentamos comunicar com os vários chefes de aldeia, com os vários líderes tradicionais. O uso da força continua a ser o último recurso.
ADF: O que está a ser feito para desmantelar as redes de tráfico e perturbar a economia ilícita que financia os grupos terroristas?
Gbaguidi: Não vemos as coisas em termos de guerra total. Vemos em termos de necessidade de abordagens diversas. Primeiro, tentamos identificar o que pode causar as frustrações da população, porque essas frustrações constituem o terreno fértil que os terroristas usam para se organizar e ter sucesso no terreno. Identificamos essas frustrações, mas também as necessidades cruciais da população, particularmente em termos de serviços públicos, saúde e estradas. Essas estradas abrem áreas para que, muito rapidamente — e o governo compreendeu isso desde o início —, possamos chegar a essas populações, possivelmente fornecendo-lhes serviços públicos para que essas necessidades não criem o terreno fértil no qual os grupos terroristas se baseiam para ter sucesso. Só usamos a força como último recurso. É quando somos atacados que geralmente respondemos. Mas, em geral, tentamos priorizar o diálogo, para garantir que as pessoas possam conversar entre si e evitar uma situação em que a força preceda o diálogo.

ADF: Dois dos vizinhos do norte do Benin, o Burquina Faso e o Níger, sofreram golpes militares e diminuíram a cooperação política e militar com os países da África Ocidental. Como descreveria a colaboração entre as FAB e os exércitos dos seus vizinhos do norte? Qual é a importância da cooperação com esses países para garantir a segurança das fronteiras comuns?
Gbaguidi: Em relação aos golpes no Sahel, os países são soberanos e decidiram retirar-se da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental]. É uma decisão totalmente soberana sobre a qual não vou comentar. No entanto, entre os soldados, continuamos a ter intercâmbios. Nas escolas beninenses, há estagiários dos países que mencionou, nomeadamente do Níger, do Burquina Faso e de muitos outros países africanos, porque a nossa visão do pan-africanismo é estar com todos os africanos e facilitar a vida dos africanos. Procuramos a cooperação, e eles são nossos irmãos de armas. Às vezes funciona, outras vezes não. Estou convencido de que, com o tempo, as coisas voltarão ao normal. Mas é importante que possamos conversar uns com os outros e que possamos trabalhar juntos para enfrentar o terrorismo, porque o terrorismo é precisamente o que atravessa as nossas fronteiras. Quando se considera a sua área de operação, são as fronteiras, as zonas cinzentas que temos dificuldade em controlar. Os grupos terroristas trabalham em sinergia; não conhecem fronteiras; trabalham em redes. Portanto, se permanecermos isolados, todos perderemos. É por isso que, quando assumi o comando, visitei todos os países que fazem fronteira com o Benin para explicar a minha visão das coisas, ou seja, que devemos continuar a trocar informações, particularmente em termos de inteligência, apoio mútuo e processos judiciais no território uns dos outros. Fui compreendido inicialmente, mas, como disse, há uma nova situação. Esta nova situação não destruiu completamente tudo, mas há margem para melhorias no sentido de que poderíamos compreender-nos melhor para poder enfrentar os terroristas.
ADF: Como é que as FAB trabalham para construir confiança com os civis nas comunidades afectadas do norte? Como o alcance civil ajuda na missão antiterrorista?
Gbaguidi: Mantemos uma sinergia constante com a população civil. Trocamos informações; conversamos com eles. Explicamos a situação de segurança mais recente e mantemos esse diálogo para explicar sempre que algo muda. Também realizamos acções civis-militares com essas populações para conquistar corações e mentes, como costumamos dizer. A abordagem do combate ao terrorismo deve ser geral; deve ser uma abordagem abrangente; e, em primeiro lugar, é a população civil que devemos apoiar para que compreenda que não estamos em guerra com ninguém e que estamos apenas a salvaguardar a integridade do nosso território. Uma das acções que também realizamos é recrutar nessas comunidades, porque elas conhecem o terreno. Os jovens que recrutamos nessas comunidades fronteiriças conhecem os seus irmãos e irmãs, conhecem as pessoas de lá, e somos aceites quando chegamos a essas áreas, pois falamos as mesmas línguas que essas pessoas. Também há acções civis-militares. Realizamos sessões de vacinação, seja para homens ou para gado, para rebanhos de ovelhas, rebanhos de gado, etc. Tratamos as pessoas. Levamos o que realmente falta nessas áreas para que as pessoas entendam que estamos do lado delas e que se trata apenas de proteger o Benin e nada mais.

ADF: Que papel acha que os civis podem desempenhar na derrota do terrorismo? Acha que eles podem ser efectivamente treinados como guardas, vigilantes ou como uma rede de alerta precoce que pode alertar as autoridades sobre ameaças em áreas remotas?
Gbaguidi: Sabe, o Benin não tem inimigos eternos nem aliados permanentes. Fazemos as coisas usando inteligência situacional, e a população civil é a parte mais importante do combate ao terrorismo, uma vez que são eles os mais directamente afectados. É por isso que damos prioridade ao contacto directo com essas populações, e é por isso que elas vêm falar connosco espontaneamente sempre que há uma mudança na sociologia da sua área — quando há novas pessoas que vêm se estabelecer, mesmo quando os recém-chegados são simples refugiados. Sabemos disso imediatamente após acontecer, porque as pessoas entendem que essa luta as afecta em primeiro lugar. Ao respeitarmos os direitos humanos e as várias regras estabelecidas, estamos convencidos de que continuaremos a conquistar o coração do nosso público, para que esta luta justa que travamos em nome do Benin tenha um impacto positivo sobre eles e não perturbe as suas vidas quotidianas.
ADF: Em 2015, o Benin aderiu à Força-Tarefa Conjunta Multinacional (MNJTF), apesar de não se situar na Bacia do Lago Chade. Por que razão o país considerou importante fazer parte desta coligação?
Gbaguidi: Em termos de estratégia, quem tem mais hipóteses de sucesso é quem compreende o que está para vir, quem antecipa.
Os grupos que assolam a Bacia do Lago Chade são os mesmos que hoje nos atacam no Benin. Assim, os líderes políticos da época tiveram a presença de espírito e a inteligência para compreender a situação e dizer a si mesmos: “Temos de antecipar e estender a mão aos irmãos que estão a lutar no Lago Chade.” Porque sentimos que essa ameaça iria expandir-se e chegar até nós. E é isso o que está a acontecer hoje. Então, foi por antecipação que decidimos nos juntar à MNJTF. Ainda estamos lá e estamos a ocupar um lugar cada vez mais proeminente. Nos próximos dias, um novo sector será criado no Benin, ou seja, no leste do Benin, porque os grupos que actuam no Lago Chade estão a descer para o nordeste do Benin para atacar. Foi uma medida proactiva que nos levou a entrar na MNJTF. O objectivo era evitar o alastramento, esse alastramento que ainda não foi decisivamente travado, mas que foi abrandado e não veio acompanhado da violência com que invadiu outros países. Esperamos que nos próximos anos, nos próximos meses, nas próximas semanas, tenhamos um desempenho muito melhor no combate ao terrorismo.

ADF: Apesar dos esforços das FAB, a ameaça terrorista não mostra sinais de enfraquecimento. O que é necessário fazer a nível nacional e regional para responder a esta ameaça?
Gbaguidi: Estamos numa guerra assimétrica e
há terroristas envolvidos, o que torna esta guerra duplamente incerta. São grupos que atacam e depois se retiram para as sombras. Devemos primeiro reforçar a nossa força a nível nacional e, em seguida, procurar sinergias com os países vizinhos para impedir que os grupos terroristas tenham a oportunidade de se retirar para um país depois de operarem noutro. Primeiro, é uma estratégia nacional que inclui populações civis para lidar com isso de forma eficaz a nível nacional. Num segundo nível, é uma organização regional, como sempre trabalhei para criar. Não é necessário ter uma força regional; basta ter um acordo regional com estratégias comuns, com objectivos definidos e metas bem combinadas. Quando tudo isso estiver em vigor, o terrorismo terá cada vez menos chances. Acredito que se trata, antes de tudo, de nos dotarmos dos meios a nível nacional e, em seguida, buscar sinergias internacionais para poder impedir que o terrorismo se espalhe de uma fronteira a outra.
ADF: O que acha que é necessário fazer nos próximos anos para modernizar e profissionalizar ainda mais as FAB? Quais são os seus principais objectivos?
Gbaguidi: Temos várias linhas de operação importantes para construir o Exército que queremos. A primeira linha de operação é unificar os nossos recursos humanos e garantir que as unidades que intervêm sejam verdadeiramente especializadas e experientes na tarefa em questão, para que possamos impedir de forma decisiva que o inimigo tome a iniciativa.
A segunda linha de operação é o equipamento. Continuamos a equipar-nos porque, há quatro anos, não estávamos neste nível. Estávamos muito longe de onde estamos hoje. Devemos continuar a equipar as FAB e a treiná-las nos equipamentos que adquirimos para que possa cumprir as suas missões.
A terceira linha de operação é importante. É o papel decisivo que a população local deve desempenhar. E isso está relacionado com a interacção que temos com eles; é a nossa capacidade de lhes fornecer os serviços de que precisam, é a nossa capacidade de satisfazer as suas necessidades que os impedirá de viver na miséria e dará aos terroristas a oportunidade de vir e derrubá-los. Significa torná-los mais conectados, fornecer-lhes cuidados primários, permitir que encontrem moradia, alimentação e cuidados de saúde. Se essas linhas de operação forem seguidas adequadamente, acredito que o terrorismo terá muito poucas chances de prosperar.
