Vários navios partiram de um porto em Kaliningrado, um enclave russo entre a Lituânia e a Polónia, em Agosto de 2024, e zarparam numa missão chamada “A Grande Expedição Africana.” Lançada pela Agência Federal Russa para a Pesca (Rosrybolovstvo), foi apresentada como uma expedição científica ordenada pelo presidente russo, Vladimir Putin, para mapear as reservas pesqueiras esgotadas em conjunto com investigadores africanos.
No entanto, os analistas afirmam que a expedição faz parte de uma estratégia mais ampla da Rússia para exercer influência e capturar recursos. O Kremlin não quer simplesmente contar peixes; quer capturá-los nas zonas económicas exclusivas (ZEE) africanas. Isso é importante para Moscovo, dado que tem sido fortemente sancionada desde que invadiu a Ucrânia no início de 2022 e precisa de dinheiro para sustentar a guerra.
De acordo com o Índice de Risco de Pesca INN, a Rússia tem sido consistentemente classificada como um dos piores infractores da pesca ilegal do mundo, normalmente atrás apenas da China.
“Tal como vimos com o ouro e outros minerais, diamantes e, em certa medida, petróleo e gás, a Rússia vê uma oportunidade para expandir a sua pesca nas zonas económicas exclusivas africanas,” Joseph Siegle, investigador sénior da Universidade de Maryland em College Park e especialista na influência russa em África, disse à revista Bloomberg. “É evidente que está a aumentar o seu interesse em África.”
Dois dos navios que partiram de Kaliningrado em 2024 navegaram para Marrocos e Serra Leoa, onde as autoridades assinaram acordos ou realizaram negociações discretas.
Em Marrocos, os cientistas russos observaram populações saudáveis de cavala e sardinha, abrindo caminho para a exploração ao longo de toda a costa atlântica, informou a Bloomberg. Em Dezembro de 2025, a Rússia renovou o seu acordo de pesca com Marrocos por quatro anos. O Marrocos perde cerca de 500 milhões de dólares anualmente devido à pesca INN.
Nos termos do acordo anterior de quatro anos, a Rússia tinha autorização para que 10 dos seus arrastões tivessem acesso às águas de Marrocos para pescar 140.000 toneladas métricas de pequenas espécies pelágicas, como sardinhas, cavala e anchovas, informou a revista Seafood Source. Em troca, a Rússia pagava ao Marrocos 7 milhões de dólares anualmente, e os proprietários de cada arrastão pagavam 17,5% do valor total das suas capturas às autoridades marroquinas. As quotas anuais do novo acordo não foram divulgadas.
Na Serra Leoa, que perde cerca de 50 milhões de dólares anualmente com a pesca ilegal, a Rússia obteve acesso a 40.000 toneladas métricas de peixe por ano e planeia enviar até 20 embarcações, enquanto investe em portos e infra-estruturas locais — uma táctica semelhante à da China. De acordo com o site russiaspivottoasia.com, a Serra Leoa também está interessada em cooperar com a Rússia para modernizar a sua frota pesqueira, atrair investimentos russos para criar instalações de refrigeração em terra, produzir artes de pesca e desenvolver actividades de aquicultura, entre outras coisas.
Os analistas afirmam que o interesse da Rússia no peixe africano provavelmente ameaçará ainda mais os recursos marinhos do continente. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, mais de metade dos recursos pesqueiros do Estreito de Gibraltar até à foz do Rio Congo, na República Democrática do Congo, são biologicamente insustentáveis, e os arrastões russos irão operar em áreas que carecem de vigilância adequada.
“A frota russa nunca foi particularmente disciplinada em nenhum dos locais onde opera,” Steve Trent, director-executivo da Fundação para a Justiça Ambiental, disse à Bloomberg. “Tende a trabalhar nas sombras, com muito pouca divulgação das suas actividades.”
Além de Marrocos e Serra Leoa, os arrastões russos operam em Angola, Guiné, Guiné-Bissau, Mauritânia, Namíbia, Nigéria e Senegal. Além de África, sabe-se que a frota do Kremlin opera ilegalmente no Alasca, Antárctida, Oceano Árctico, Japão e Coreia do Sul.
Tal como os navios chineses, os arrastões russos são conhecidos por branquear as suas capturas ilegais, cometer transbordos ilegais de peixe no mar, desligar os seus sistemas de identificação automática durante a pesca, pescar excessivamente espécies ameaçadas e arvorar “bandeiras de conveniência,” o que coloca os navios de pesca de propriedade e operação estrangeiras nos registos locais.
O interesse do Kremlin no peixe africano coincide com a suspensão das actividades de pesca russas no Mar Negro e no Mar de Azov devido a restrições à frota de pesca em águas longínquas (DWF) de Moscovo, que está a envelhecer e que se pretende modernizar. De acordo com o Serviço de Inteligência da Ucrânia, a Rússia tem 820 a 830 embarcações da DWF, 65% das quais têm mais de 30 anos e 13% têm mais de 40 anos. Até 2030, 533 embarcações da frota terão mais de 40 anos.
“A grande maioria da frota pesqueira actual, mesmo com uma grande modernização, não será capaz de operar plenamente,” afirmou o serviço num comunicado de imprensa de Setembro de 2025.
