Fotos aéreas mostram que um pequeno aeroporto no sudeste da Líbia se tornou um ponto de trânsito importante para armas e suprimentos para o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido no Sudão, de acordo com funcionários do governo e de inteligência.
Imagens de satélite mostram que o aeroporto de Kufrah foi renovado e ampliado no ano passado, informou a Reuters, com um aumento acentuado nos voos de carga que coincidiu com o crescimento do grupo paramilitar sudanês, também conhecido como RSF.
As RSF lutam contra as Forças Armadas do Sudão, conhecidas como SAF, desde Abril de 2023. Os dois lados lutam pelo controlo do governo, da economia e dos recursos naturais do país, incluindo o ouro.
A guerra civil evoluiu para um dos conflitos mais mortíferos do planeta, com estimativas de 12.000 a 15.000 mortos e milhões de pessoas forçadas a abandonarem as suas residências. A fome agora devasta vastas extensões.
As RSF controlam grandes áreas do Sudão, especialmente na região ocidental de Darfur, mas tem tido problemas em manter as operações devido à logística do transporte terrestre e às restrições internacionais ao comércio de armas. Entretanto, países com interesses políticos ou estratégicos no Sudão, incluindo os Emirados Árabes Unidos, têm tentado influenciar a guerra com armas e suprimentos.
O aumento da actividade no aeroporto foi observado pela primeira vez em imagens de satélite do programa europeu Copernicus datadas de 12 de Julho de 2025, informou a Agenzia Nova. As imagens mostravam pelo menos duas aeronaves de transporte de fabricação russa, o que, segundo as autoridades, indicava com “razoável certeza” a presença de operações para transportar equipamento militar ou “pessoal especializado,” informou a Nova.
“Este tipo de evidência representa um lembrete útil de que o recente aumento nos envios ilícitos de armas para o leste da Líbia, observado particularmente desde o final de Maio, foi orquestrado pelo governo dos Emirados Árabes Unidos em nome das Forças de Apoio Rápido do Sudão,” relatou o analista Jalel Harchaoui no X.
As RSF controlaram Cartum até Março de 2025, quando as SAF as derrotaram. Os abastecimentos militares que passam pela pista de aterragem, a 300 quilómetros da fronteira com o Sudão, têm ajudado as RSF a recuar desde então, informou a Reuters. Os abastecimentos foram fundamentais para a captura da cidade de el-Fasher pelas RSF em Outubro, o que lhes permitiram consolidar o seu controlo sobre Darfur.
Um funcionário das Nações Unidas disse à Reuters que o uso de Kufrah pelas RSF “mudou todo o jogo,” permitindo um fluxo constante de armas, combustível e combatentes para sustentar o cerco de el-Fasher.
A região desértica de Kufrah é controlada por um comandante militar líbio com ligações aos Emirados Árabes Unidos, que, segundo a ONU, apoiam as RSF. Os Emirados Árabes Unidos negaram apoiar qualquer um dos lados na guerra do Sudão.
As potências regionais têm disputado posições no Sudão desde o início da guerra civil. Querem ter acesso aos recursos do país e às suas rotas comerciais no Corno de África. O Centro de Estudos Estratégicos de África informou que o Egipto, o Irão, o Catar, a Rússia, a Arábia Saudita e os EAU apoiam as duas facções rivais. A China, a Turquia e os EAU inundam o Sudão com armas modernas, desde mísseis terra-ar e artilharia pesada a drones comerciais e militares, segundo investigadores. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais afirma que as forças externas prolongam a guerra.
Funcionários do governo e investigadores dizem que os abastecimentos transportados para Kufrah podem ser levados directamente para aeródromos sudaneses em áreas controladas pelas RSF, como Nyala, no sul de Darfur, ou transportados através de corredores no deserto que atravessam o Chade, o Egipto, a Líbia e o Sudão. Esta região desértica tem poucos pontos de entrada regulamentados, permitindo que os envios de suprimentos e o contrabando ocorram sem controlo.
O Horn Review of Ethiopia relata que os ataques egípcios na região são considerados respostas às colunas de armas e abastecimentos que se desviaram para o território egípcio. As recentes operações egípcias, segundo o serviço de notícias, têm como objectivo impedir que o sudeste da Líbia seja usado como base logística para as RSF e dissuadir a Líbia e os Emirados Árabes Unidos de se envolverem no Sudão.
No final de Janeiro, o Egipto e a Arábia Saudita intensificaram a pressão sobre a Líbia devido ao seu papel em facilitar o apoio militar dos Emirados às RSF, informou o Middle East Eye. A agência de notícias disse que as autoridades egípcias confirmaram que os Emirados Árabes Unidos fornecem às RSF “armas, equipamento militar, sistemas portáteis de defesa aérea e drones.” Camiões-cisterna de combustível líbios também transportam combustível para as RSF em Darfur, segundo fontes ouvidas pela agência de notícias.
Os Emirados Árabes Unidos planeiam há muito tempo uma parceria com o Sudão para expansão regional, de acordo com o Sri Lanka Guardian. Antes da guerra civil, os Emirados Árabes Unidos planeavam investir bilhões de dólares em terras agrícolas sudanesas e num porto no Mar Vermelho.
