Vídeos de camiões-cisterna a arder nas estradas do Mali começaram a aparecer nas redes sociais em Setembro de 2025, sinalizando o início de ataques coordenados de militantes que tentavam bloquear a capital, Bamako.
O Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), um grupo que reúne terroristas afiliados à al-Qaeda, entrou numa nova fase de guerra económica na sua busca para destruir a junta governativa do Mali.
No dia 28 de Outubro de 2025, combatentes do JNIM emboscaram dezenas de camiões-cisterna nas estradas que levam a Bamako. Na cidade de Kati, o principal reduto da junta militar nos arredores da capital, uma importante guarnição do exército não conseguiu responder devido à falta de combustível.
Especialistas em combate ao terrorismo afirmam que a estratégia do JNIM de cercar e sufocar Bamako está a funcionar. Eles alertam que derrubar o frágil governo militar do Mali pode transformar o país num Estado falhado, no qual os terroristas teriam liberdade para operar, planear ataques mais ambiciosos e estabelecer campos de treino, centros de terrorismo cibernético e unidades de propaganda.
“Se [o JNIM] capturar o aparelho estatal do Mali, o país pode facilmente tornar-se um refúgio para jihadistas na região e um dos principais patrocinadores do terrorismo no continente, tal como o Sudão se tornou depois de os islamistas terem chegado ao poder na sequência de um golpe de Estado em 1989,” os analistas Haleigh Bartos e John Joseph Chin escreveram numa publicação de blogue de 25 de Novembro para o Atlantic Council.
“Se não for controlado, o JNIM poderá tornar-se mais ousado, maior, adquirir afiliados adicionais e, um dia, patrocinar ou possibilitar operações além da região.”
O JNIM avançou para o centro do país e estabeleceu-se em grandes áreas dos vizinhos Burquina Faso e Níger. Mais recentemente, expandiu as suas operações no oeste do Mali e avançou para sul de Bamako pela primeira vez, posicionando-se para impor o bloqueio de combustível, atacando caravanas de países costeiros como a Costa do Marfim e o Senegal.
Embora a junta tente projectar força e apoio em Bamako com comícios e repressão da imprensa, o interior do país continua a escapar ao seu controlo. O JNIM e o grupo afiliado ao Estado Islâmico no Sahel gozam de relativa liberdade em vastas terras com lucrativas reservas de ouro e rotas de contrabando.
Hoje, mais de 70% do Mali é controlado ou disputado por grupos terroristas. Quase 2 milhões de malianos estão deslocados, a agricultura entrou em colapso, as escolas seculares foram fechadas fora das áreas urbanas e a educação das meninas foi completamente interrompida em grande parte do país. Um funcionário sénior de um grupo humanitário em Bamako alertou que o país está a passar por uma “talibanização em câmara lenta.”
Com a capital e os líderes da junta na mira, o objectivo do JNIM é desencadear outro golpe, de acordo com vários analistas de segurança e diplomatas.
“Não creio que o regime seja suficientemente forte para se manter no poder indefinidamente,” um analista de segurança que não estava autorizado a falar com a comunicação social disse à Reuters para um artigo de Novembro de 2025. “Há demasiadas forças, tanto do ponto de vista político como do ponto de vista dos grupos armados, que estão a tentar exercer pressão.”
Justyna Gudzowska, directora-executiva do grupo de investigação The Sentry, afirmou que o bloqueio tem como objectivo atacar a legitimidade dos governantes militares do Mali.
“O bloqueio de combustível é mais do que um acto de guerra económica, é também uma táctica terrorista,” disse à Reuters. “Isso incute medo entre a elite governante de Bamako e a população em geral, criando a percepção de que a capital está sitiada e que o JNIM está a aproximar-se.”
Os analistas acreditam que a captura do Estado no Mali desencadearia um efeito dominó nos vizinhos Burquina Faso e Níger, onde juntas militares também tomaram o poder em golpes de Estado. Em 2023, os três países formaram um bloco militar e económico chamado Aliança dos Estados do Sahel.
“Neste momento, nenhum cenário pode ser excluído,” um diplomata sénior de Bamako disse à Reuters. “Não podemos excluir a possibilidade de o JNIM tentar entrar na cidade.
“Se o Mali entrar em colapso, tudo entrará em colapso. Se o actual equilíbrio de poder entrar em colapso, a Aliança dos Estados do Sahel entrará em colapso.”
