5Uma única estrada atravessa o deserto da Líbia, desde a cidade costeira de Bengasi até al-Uwaynat, na fronteira noroeste do Sudão. Foi essa estrada, dizem os analistas, que levou dezenas de mercenários colombianos a combater ao lado das Forças de Apoio Rápido (RSF) no final de 2024.
As Forças Armadas do Sudão (SAF) atacaram a caravana em Novembro, utilizando um drone para matar 22 combatentes colombianos antes que estes pudessem juntar-se ao cerco das RSF a el-Fasher, a capital do Estado de Darfur do Norte. O Darfur do Norte é o único Estado do Sudão Ocidental que continua fora do controlo das RSF.
De acordo com a publicação colombiana La Silla, os mercenários colombianos estavam entre os 300 recrutados originalmente para servir como guardas de segurança nos Emirados Árabes Unidos (EAU) pela empresa emiradense Global Security Service Group. Mais tarde, as autoridades locais enviaram pelo menos 40 desses mercenários para Bengasi e, de lá, para o Sudão Ocidental — parte do apoio dos Emirados Árabes Unidos às RSF no seu conflito com as SAF.
Após o ataque à caravana, o governo colombiano pediu duas vezes desculpa aos dirigentes sudaneses pelo envolvimento de cidadãos colombianos ao lado das RSF.
O conflito no Sudão não constitui a primeira vez que os Emirados Árabes Unidos enviam mercenários colombianos para a guerra. Outros colombianos já fizeram parte de um grupo de 450 mercenários latino-americanos que os EAU recrutaram em 2015 para combater os rebeldes Houthi no Iémen. A presença de mercenários colombianos no Sudão foi revelada em vídeos que os soldados das SAF publicaram no X depois de terem atacado a coluna que se dirigia para el-Fasher. Os vídeos mostram os soldados a mexer numa série de documentos, incluindo um passaporte pertencente ao mercenário colombiano Lombana Moncayo.
O site britânico de investigação de fonte aberta Bellingcat utilizou as publicações de Moncayo nas redes sociais para identificar a área no sudeste da Líbia onde Moncayo estava a viajar na altura.
“O Bellingcat determinou que estas imagens foram filmadas a partir de um veículo em movimento que se dirigia para a cidade de Al-Jawf, no sudoeste da Líbia, a cerca de 300 a 400 quilómetros da fronteira com o Sudão,” o investigador Carlos Gonzales escreveu na página da internet do grupo.
De acordo com Jeremy McDermott, co-fundador da InSight Crime, os EAU estão a explorar o facto de os antigos soldados colombianos terem poucas opções de emprego bem remunerado depois de saírem das forças armadas.
“Não se trata apenas de treino, mas também a experiência de combate. E é nesse ponto que os colombianos estão muito à frente da maioria dos militares do mundo,” McDermott, cujo grupo investiga o crime organizado na América Latina, disse à NPR.
Os mercenários colombianos têm a vantagem adicional de serem mais baratos do que os ex-soldados altamente treinados de outros países, disse McDermott. La Silla Vacía identificou o coronel reformado do exército colombiano Alvaro Quijano como o homem por detrás dos 300 mercenários enviados para o Sudão através dos Emirados Árabes Unidos. Os mercenários trabalhavam para a International Services Agency A4SI (Academy for Security Instruction), propriedade da mulher de Quijano, Claudia Viviana Oliveros.
“Trata-se de um projecto que enganou dezenas de ex-militares colombianos com promessas de trabalho nos Emirados Árabes Unidos,” escreveram os autores de La Silla Vacía no seu relatório.
O co-fundador da A4SI, o major reformado do exército colombiano Omar Antonio Rodríguez, que vendeu a sua parte na empresa a Quijano e Oliveros em 2022, disse à La Silla Vacía que os mercenários colombianos eram anteriormente empregados como segurança para funcionários dos Emirados quando viajavam para outros países.
Rodríguez disse à La Silla Vacía que a A4SI não parou de recrutar desde a morte dos mercenários colombianos no Sudão.
“Se eles conseguirem trazer os 1.500 homens que pretendem enviar para o Sudão, isso pode representar 32 bilhões de pesos [7,7 milhões de dólares] num ano,” Rodríguez disse à La Silla Vacía.