Com as mãos em ligaduras e a voz trémula, o queniano usava uma máscara para esconder a sua identidade, pois vive com medo de retaliação por parte das autoridades russas. Falando publicamente pela primeira vez, descreveu o “verdadeiro inferno” que viveu depois de ter sido atraído para a Rússia sob falsos pretextos e forçado a lutar na guerra contra a Ucrânia.
“Pensei que estava a assinar um contrato de basquetebol,” disse à BBC num podcast de Fevereiro. “Fui enganado e não quero que nenhum queniano ou africano seja enganado da mesma forma que eu fui.”
Alvejado em ambas as mãos e na perna, disse que as feridas que tem hoje são menos preocupantes do que as cicatrizes psicológicas de ver homens mortos pelos russos por se recusarem a lutar ou mortos por ataques de drones.
“Isso afectou-me muito,” desabafou. “Porque não estou bem psicologicamente. Não gosto de sons altos. Durante a noite, não consigo dormir.”
Especialistas estimaram que milhares de africanos foram recrutados para a guerra da Rússia, muitos deles enganados e coagidos a participar em combates de pesadelo. O trauma emocional é um dos muitos custos ocultos que os sobreviventes trazem de volta para as suas casas em África. Num caso de grande visibilidade, 15 homens sul-africanos foram atraídos para a Rússia com falsas promessas de treino em segurança, apenas para acabarem na linha da frente na Ucrânia. Alguns dos homens regressaram com a cabeça baixa, envergonhados. Um deles cobriu o rosto enquanto era levado de uma cadeira de rodas no aeroporto.
Sem os ter conhecido, a Dra. Keitumetse Mashego, psicóloga clínica residente em Pretória, na África do Sul, aconselhou os homens e as suas famílias a procurarem ajuda.
“Eles vão precisar de intervenção, sem dúvida,” disse à Newzroom Afrika numa transmissão de 8 de Março. “As emoções intensas variam entre culpa, vergonha, ansiedade e depressão.
“Há muita raiva que se carrega, ou traição, ou um sentimento de vergonha. Se não se lidar com isso, vai-se projectar isso em algum lugar. Infelizmente, ainda há muito estigma. Eles precisariam realmente ser encorajados de forma intencional a procurar ajuda para que possam processar o que aconteceu e ser capazes de seguir em frente. O que é triste em relação aos problemas psicológicos e ao trauma é que, como vítima, mesmo que não seja culpa sua, é muito injusto, porque o ónus de assumir a responsabilidade recai sobre si.”
James W. Njogu, advogado do Tribunal Supremo do Uganda, alertou recentemente os africanos para outro perigo oculto que os sobreviventes estão a trazer para casa.
“A história oferece um aviso preocupante,” escreveu num artigo de opinião publicado em Fevereiro no jornal ugandês The Daily Monitor. “Os africanos recrutados para lutar na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais regressaram a casa com competências de combate e consciência política que mais tarde moldaram os movimentos de libertação nas décadas de 1950 e 1960. Embora essas lutas tenham ajudado a desmantelar o domínio colonial, também contribuíram para conflitos armados prolongados, golpes de Estado e militarização na era pós-independência.”
Os sobreviventes do recrutamento e da guerra na Rússia acarretam riscos semelhantes, afirmou.
“Os recrutas africanos na Ucrânia estão a ser expostos a armas avançadas, tecnologia de drones, tácticas coordenadas de campo de batalha e condicionamento psicológico sem precedentes,” escreveu. “Quando estes combatentes regressam, muitas vezes traumatizados, desempregados e sem apoio, o perigo não desaparece no aeroporto.
“Em Estados frágeis ou politicamente tensos, esses repatriados podem ser atraídos para gangues criminosas, milícias privadas, grupos extremistas ou movimentos rebeldes. A combinação de experiência militar e desespero económico é uma mistura volátil. África já testemunhou como pequenos grupos de combatentes treinados podem desestabilizar regiões inteiras.”
