Cerca de uma dezena de soldados malianos e mercenários russos morreram numa recente emboscada perpetrada por terroristas perto da cidade de Nampala, na fronteira do Mali com a Mauritânia.
O Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), alinhado com a al-Qaeda, reivindicou o ataque perto da comunidade de Louguel no início de Março, que matou pelo menos 11 pessoas, incluindo três mercenários do Africa Corps da Rússia. A emboscada seguiu-se à morte de sete civis malianos, mortos pelas Forças Armadas do Mali e pelo Africa Corps alguns dias antes.
Segundo relatos, soldados e mercenários depararam-se, a 6 de Março, com um grupo de civis malianos desarmados que se deslocavam de Fassala, na Mauritânia, para uma feira semanal em Tenenkou, no Mali. O grupo vivia na Mauritânia, onde mais de 100.000 malianos procuram refúgio da violência que assola o seu país. Os soldados e mercenários mandaram parar o veículo na zona de Ahl El Kory, perto da fronteira com a Mauritânia.
Um sobrevivente do incidente contou à Radio France Internationale que sete passageiros fugiram do veículo. Seis foram alvejados à queima-roupa pelas forças malianas e russas. Ao sétimo cortaram-lhe a garganta. Os corpos foram deixados onde caíram.
O sobrevivente relatou que as sete pessoas mortas eram membros da etnia Fulani, uma população que tem sido alvo do Africa Corps e do seu antecessor, o Grupo Wagner, por serem considerados terroristas.
O ataque em Louguel seguiu-se a um incidente ocorrido em Fevereiro, no qual forças militares e mercenárias mataram quatro civis nas comunidades de Ankobo e Boundou-Boundou, perto de Nampala. A emboscada do JNIM em Nampala foi “uma reacção aos abusos contra civis na área e, possivelmente, à morte de alguns combatentes do JNIM,” Heni Nsaibia, investigador sobre o Sahel para o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, disse à RFI.
Os ataques de retaliação do JNIM contra o Exército do Mali e os mercenários do Africa Corps estão a intensificar a violência e as violações de direitos humanos ao longo da fronteira do Mali com a Mauritânia. No final de Março, soldados malianos atravessaram a fronteira para Hodh el-Gharbi, na Mauritânia, onde detiveram e mataram cinco civis perto da comunidade de Yélimané.
As autoridades malianas alegaram que a acção fazia parte de uma operação de combate ao terrorismo. As autoridades mauritanas acusam repetidamente o Mali e os mercenários russos de perseguir os seus cidadãos como se fossem terroristas.
O JNIM tem-se apresentado na sua propaganda como o defensor dos Fulani em todo o Sahel. Embora o JNIM tenha membros Fulani e recrute pessoas dessa comunidade, os Fulani, muitas vezes, são vítimas de abusos por parte do JNIM em áreas fora do controlo do governo.
Os Fulani foram o alvo principal do massacre de Moura em 2022, durante o qual soldados malianos e mercenários do Grupo Wagner executaram mais de 300 homens desarmados num mercado do centro do Mali. Desde então, as forças malianas e russas executaram ou fizeram desaparecer centenas de Fulanis em dezenas de incidentes em todo o país, de acordo com a Human Rights Watch.
“A junta militar do Mali é a responsável final pelas execuções sumárias e pelos desaparecimentos forçados perpetrados pelo exército e pelos combatentes aliados,” Ilaria Allegrozzi, investigadora sénior para o Sahel da Human Rights Watch, disse num comunicado. “A junta precisa de pôr fim aos abusos, revelar o paradeiro dos detidos, investigar e responsabilizar os culpados.”
