Um estudo global concluiu que o Burquina Faso, na África Ocidental, é actualmente o país mais afectado pelo terrorismo no mundo, ainda mais do que o Mali, o seu conturbado vizinho do norte.
O mais recente Índice Global de Terrorismo indica que um quarto de todos os ataques extremistas a nível mundial e nove dos 20 ataques mais mortíferos do mundo ocorreram no Burquina Faso em 2024.
Três desses ataques ocorreram no final de Janeiro e início de Fevereiro de 2026, quando terroristas do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) mataram pelo menos 38 civis, raptaram nove mulheres e incendiaram propriedades, segundo a Human Rights Watch. Os terroristas atacaram a aldeia de Sollé e a cidade de Tiao, na região Norte, e um posto da gendarmaria na cidade de Manni, na região Leste.
“A brutalidade do JNIM contra civis no Burquina Faso tem sido implacável,” afirmou Ilaria Allegrozzi, investigadora sénior para o Sahel, da Human Rights Watch.
Durante anos, os terroristas têm vagueado pelas zonas rurais deste país de 23 milhões de habitantes, atacando postos militares, emboscando colunas e destruindo as vidas dos civis. Este país sem litoral faz fronteira com o Benin, a Costa do Marfim, o Gana, o Mali, o Níger e o Togo.
Diplomatas e responsáveis humanitários estimam que o número total de pessoas deslocadas no Burquina Faso possa situar-se entre 3 e 5 milhões, com relatos regulares de refugiados burquinabês a fugirem para a Costa do Marfim, o Gana e o Senegal. Cerca de 6 milhões de pessoas no país precisavam de assistência humanitária em 2025, de acordo com o Plano de Resposta Humanitária.
As condições de segurança pioraram significativamente no Burquina Faso desde que o oficial militar Ibrahim Traoré assumiu o controlo do governo num golpe de Estado em 2022. Desde então, segundo o Atlantic Council, os terroristas mataram cerca de 87% mais civis do que nos três anos anteriores.
Os terroristas mataram cerca de 2.000 civis no país anualmente nos últimos anos, de acordo com algumas estimativas. As forças alinhadas com o governo terão matado cerca de 132% mais civis nesse período, informou o conselho. Terroristas ligados à al-Qaeda e ao grupo Estado Islâmico operam agora abertamente em cerca de 80% do país.
Uma onda de apoio civil permitiu a Traoré assumir o poder com promessas de controlar os terroristas no país. Multidões reuniram-se em apoio ao golpe, elogiando o jovem oficial e exigindo uma acção militar agressiva contra os terroristas, onde os líderes anteriores tinham falhado. Os apoiantes retrataram Traoré, agora com 38 anos, como um líder revolucionário que poria fim à brutalidade que se tinha espalhado por todo o país desde 2015.
Isso não aconteceu. Sob o governo de Traoré, o Burquina Faso tornou-se agora o epicentro do terrorismo no Sahel. Para se manter no poder e sufocar a oposição política, ele assumiu o controlo dos meios de comunicação social e suprimiu informações sobre o estado da segurança do seu país.
“Uma combinação de repressão interna e veneração online isolou o seu regime do escrutínio, mesmo com o aumento das perdas no campo de batalha e das baixas civis,” relatou o Atlantic Council.
Traoré e os seus dois irmãos controlam a informação de segurança com o apoio de conselheiros russos, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos de África.
“Com a ajuda de um grupo de influenciadores online, agentes ligados aos serviços secretos e páginas de meios de comunicação afiliados, a junta de Traoré tem exaltado as suas alegadas conquistas como líder transformador, comparando-o ao icónico Thomas Sankara,” afirmou o Centro Africano, referindo-se ao líder revolucionário do Burquina Faso da década de 1980.
Funcionários do governo restringiram os meios de comunicação independentes e organizações noticiosas internacionais, como a Radio France International e a France 24. Alguns órgãos de comunicação foram suspensos após publicarem ou transmitirem reportagens que o governo considerou imprecisas ou prejudiciais ao moral nacional, de acordo com a Al Jazeera e outras agências noticiosas.
Em Abril de 2024, Traoré suspendeu temporariamente a BBC e a Voz da América depois de ambas as organizações terem noticiado violações de direitos humanos alegadamente cometidas pelas forças de segurança, informou o Atlantic Council. Também retirou as licenças a quatro organizações não-governamentais estrangeiras, invocando questões de segurança nacional.
O país é um dos três países sem litoral da África Ocidental, juntamente com o Mali e o Níger, governados por juntas que formaram o seu próprio bloco, a Aliança dos Estados do Sahel, após se separarem da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. Todos os três países adiaram as eleições por tempo indeterminado.
No final de Janeiro, a junta do Burquina Faso dissolveu todos os partidos políticos do país e revogou leis que limitariam o seu poder. O decreto exige que os activos dos partidos sejam transferidos para o Estado, informou a agência de notícias estatal. Autoridades governamentais afirmaram que os partidos políticos se tinham “desviado das directrizes que os estabeleceram,” informou a The Associated Press.
“O Burquina Faso está a atravessar um ciclo fatal de sentimento antiocidental, revanchismo autoritário e sectarismo militante,” o investigador Raphael Parens escreveu para o Foreign Policy Research Institute. “Enquanto Traoré se agarra ao poder em Ouagadougou, fazendo pleno uso de técnicas de desinformação apoiadas pela Rússia e pela China, o país está a deslizar para o estatuto de Estado falhado — se é que já não o é.”
