A Batot Air é um serviço de carga registado na capital do Burquina Faso. No entanto, parece voar quase exclusivamente entre os Emirados Árabes Unidos e a Etiópia, onde a liderança militar do Sudão afirma que as Forças de Apoio Rápido, um grupo paramilitar, operam campos de treino mesmo na fronteira com o Sudão.
Uma investigação do jornal Le Monde acompanhou a actividade da Batot Air desde que esta começou a operar em Novembro de 2025. A companhia aérea opera aeronaves Ilyushin-Il76 que passaram a última década paradas e sem uso em Tashkent, no Uzbequistão.
De acordo com o Le Monde, os aviões de carga realizaram pelo menos 36 viagens entre os Emirados Árabes Unidos e a Etiópia nos últimos quatro meses. Em nenhum momento durante esses meses as aeronaves da Batot Air passaram por Burquina Faso.
A investigação do Le Monde levantou questões sobre as finanças da Batot Air. A empresa comprou três aeronaves Ilyushin Il-76 no valor de milhões de dólares, embora tivesse declarado pouco mais de 17.000 dólares em conta bancária quando foi registada no Burquina Faso. A origem do dinheiro para a compra dos aviões permanece obscura.
De acordo com o Le Monde, a empresa é propriedade do empresário sudanês, Mohamed Omer Suleiman Idriss. Além de transportar material militar, a aeronave também transporta discretamente o líder das Forças de Apoio Rápido (RSF), o General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, e o seu segundo no comando, o seu irmão Abdelrahim Dagalo, pela região.
Ao viajar entre os Emirados Árabes Unidos e a Etiópia, os pilotos da Batot Air costumam desligar os seus transponders sobre o Mar Vermelho à medida que se aproximam da Etiópia. As aeronaves aterram então no Aeroporto Internacional de Bole, em Adis Abeba, na Etiópia, ou na base aérea de Bishoftu, da Força de Defesa Nacional da Etiópia, a sudeste da capital.
O exército do Sudão acusa repetidamente os Emirados Árabes Unidos de fornecerem armas às RSF. Peritos das Nações Unidas dizem que a alegação é credível. No início da guerra civil do Sudão, funcionários da ONU descobriram que os EAU estavam a fornecer armas às RSF através de um aeródromo construído pelos EAU no leste do Chade.
Os EAU negam veementemente que estejam a apoiar as RSF. No entanto, analistas apontam para uma relação contínua com Hemedti e as RSF, construída em torno do ouro, que se suspeita que as RSF estejam a contrabandear da região de Darfur para ser branqueado nos EAU.
Os EAU também têm investimentos avultados no sector agrícola do Sudão, que se situa predominantemente nos Estados de al-Gezira e Sennar, a norte do Estado do Nilo Azul, que as forças governamentais recuperaram das RSF em 2024.
A Reuters noticiou em Fevereiro que os Emirados Árabes Unidos estavam a financiar um campo de treino na região de Benishangul Gumuz, no noroeste da Etiópia, que incluía uma base de drones no aeródromo vizinho de Asosa. Imagens de satélite mostram tendas e contentores de transporte num campo com capacidade para treinar milhares de combatentes das RSF. Os observadores sugeriram que a Etiópia permitiu que o campo funcionasse como parte do seu relacionamento crescente com os Emirados Árabes Unidos.
“O campo constitui a primeira prova directa do envolvimento da Etiópia na guerra civil do Sudão, marcando um desenvolvimento potencialmente perigoso que fornece às RSF um abastecimento substancial de novos soldados à medida que os combates se intensificam no sul do Sudão,” informou a Reuters.
As RSF lançaram um ataque ao Estado do Nilo Azul no final de Janeiro. As autoridades sudanesas disseram ao Middle East Eye que os atacantes vieram da Etiópia e controlaram os drones utilizados no ataque a partir de lá. As forças governamentais repeliram o ataque.
