Os mercenários russos assumiram o controlo da zona fronteiriça partilhada pela República Centro-Africana, Sudão do Sul e Sudão, transformando efectivamente uma região conhecida pelas suas minas de ouro numa “zona cinzenta” controlada por uma empresa militar privada.
A Lobaye Invest da Rússia, afiliada ao Grupo Wagner, controla as operações de mineração no leste da RCA. Com pouca ou nenhuma presença do Estado nessa região, os mercenários russos estabeleceram regras draconianas para os mineiros que trabalham lá: não caçar, não possuir armas e não usar motocicletas dentro da zona mineira.
Há várias semanas, um mineiro da mina de Baba capturou uma gazela que estava equipada com uma câmara de vigilância russa. Essa acção provocou uma resposta rápida e violenta das forças mercenárias russas. Uma rajada de tiros disparados tanto de veículos terrestres como de helicópteros feriu 30 mineiros e levou outros a fugir para o Sudão e o Sudão do Sul em busca de segurança, aumentando potencialmente a instabilidade e a insegurança nessas áreas fronteiriças.
No dia seguinte, os corpos foram abandonados no local, e a comunidade local ficou a processar o que aconteceu, de acordo com o The Sudan Times.
“Este confronto sangrento ressalta o vácuo de segurança volátil e muitas vezes mortal na região, onde forças estrangeiras exercem um controlo agressivo sobre recursos minerais lucrativos às custas da vida da população local,” escreveu o The Sudan Times.
Após o ataque violento, as forças russas fecharam as estradas para o leste da RCA, isolando-a efectivamente dos seus vizinhos e do mundo.
O ataque à mina de Baba foi o mais recente de uma longa lista de ataques russos a mineiros de ouro na RCA e no Sudão, que remonta a 2020, quando o Grupo Wagner assumiu o controlo da mina de Ndassima, na RCA. De acordo com analistas do Instituto Robert Lansing, o encerramento do leste da RCA foi o último passo no plano da Rússia para estabelecer uma região sem lei, fora do controlo do Estado e das sanções internacionais, onde é livre para contrabandear ouro.
Esse plano remonta a 2017, quando o presidente da RCA, Faustin-Archange Touadéra, convidou o Grupo Wagner para treinar as suas forças armadas, fornecer segurança pessoal e actuar como seus conselheiros de segurança nacional. O Grupo Wagner seria pago pelos seus serviços com o ouro e os diamantes extraídos pela sua afiliada Lobaye Invest.
Nos últimos nove anos, a presença e a autoridade da Rússia no país cresceram, passando a incluir o controlo da passagem de fronteira com o Estado de Darfur Central, no Sudão. O uso de helicópteros e drones deu aos mercenários russos o controlo do espaço aéreo sobre o leste da RCA, reduzindo a capacidade das forças armadas e das autoridades de controlo de fronteiras da RCA e do Sudão, de acordo com o Instituto Lansing.
“A presença da Rússia na RCA evoluiu de uma ‘protecção do local’ nominal e formação em segurança para a gestão de facto de territórios específicos e fluxos de recursos, imposta através das suas próprias regras e mecanismos coercivos,” escreveram os analistas do Instituto Lansing.
Ao fechar o leste da RCA, a Rússia controla um centro nevrálgico de rotas de ouro e contrabando, transformando o ouro da região numa fonte estável de receitas ilícitas. Este tráfico permite ao país evitar os sistemas bancários convencionais dos quais tem estado isolado.
“Ao mesmo tempo, os intermediários locais e os grupos armados tornam-se cada vez mais dependentes da ‘protecção’ coerciva da Rússia, consolidando a presença de longo prazo de Moscovo sem a necessidade de acordos inter-estatais formais,” escreveu o Instituto Lansing.
Os analistas acrescentaram que a acção no leste da RCA não é isolada.
“Este é um modelo escalável,” escreveram
