O ataque terrorista ao aeroporto da capital do Níger, Niamey, em Janeiro, foi mais um exemplo de como os extremistas do Sahel ameaçam a segurança de Burquina Faso, Mali, Níger e África Ocidental como um todo.
Durante o ataque de 29 de Janeiro, 30 combatentes do Estado Islâmico na Província do Sahel utilizaram drones armados, armas de pequeno calibre e morteiros para atacar o Aeroporto Internacional Dori Hamani e a Base Aérea Militar 101. A base abriga as operações militares nigerinas com drones e a sede da Aliança dos Estados do Sahel (AES). A aliança é a união económica e de defesa mútua criada pelo Burquina Faso, Mali e Níger em 2023, depois de abandonarem a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental.
“O ataque não foi uma violação isolada da segurança, mas uma operação deliberada e de alto valor, dirigida às infra-estruturas militares e estratégicas do Níger,” escreveram os analistas da African Security Analysis pouco depois do ataque. “O ataque representa uma escalada operacional notável por parte do IS-Sahel.”
No final da batalha de duas horas, todos os atacantes foram mortos ou capturados. Mas o seu assalto alcançou um objectivo fundamental, de acordo com a African Security Analysis.
O ataque nocturno tinha como objectivo minar a autoridade do Estado e testar a resposta das forças de segurança. Os atacantes também queriam mostrar que eles e outros grupos terroristas continuam a ser uma ameaça activa, apesar das intensas operações de combate ao terrorismo em todo o Sahel, escreveram os analistas.
O ataque ao aeroporto do Níger é emblemático das ameaças contínuas que o IS Sahel, o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, e outros grupos terroristas representam para as três nações sem litoral e para os seus vizinhos costeiros, de acordo com o investigador Caleb Weiss, da Bridgeway Foundation.
“O ataque a Niamey reforça as preocupações com a insegurança no Sahel e além,” escreveu Weiss recentemente para o Long War Journal da Foundation for Defense of Democracies.
Além do Níger, o Mali começou a recuperar-se do cerco de meses do JNIM, que visava sufocar a capital, Bamako, e derrubar a economia do Mali. Em Setembro de 2025, o JNIM começou a interceptar colunas de combustível que entravam no Mali vindos da Costa do Marfim e do Senegal. Num incidente, eles queimaram uma dezena de camiões de combustível que entravam a partir do Senegal.
O bloqueio dificultou a vida quotidiana dos residentes de Bamako, visto que o combustível escasseava. Após três meses, o JNIM aliviou o seu bloqueio no início de 2026, sem qualquer explicação. Mas o impacto psicológico do bloqueio permanece.
“E amanhã?” Aissata, assistente de vendas num supermercado de Bamako, disse à The Africa Report. “E se o bloqueio voltar ou se o grupo terrorista decidir atacar o mercado ou qualquer infra-estrutura da cidade?”
No Burquina Faso, o JNIM realizou mais de 500 ataques em 2025, de acordo com o SITE Intelligence Group. Os extremistas controlam cerca de 60% do país, essencialmente cercando a capital, Ouagadougou, enquanto a confiança pública no governo continua a diminuir.
Ataques nocturnos a linhas de abastecimento militar e dispositivos explosivos improvisados restringiram as forças armadas e as milícias voluntárias ao território próximo às suas bases nas áreas rurais das regiões Centro-Norte, Leste e Sahel.
Com as forças de segurança encurraladas, os terroristas lançaram um ataque mortal na comunidade de Titao, no norte do país, em meados de Fevereiro, matando 80 soldados e membros da milícia e pelo menos 20 civis. O JNIM atacou um acampamento militar, um mercado e instalações de comunicação da região.
“É provável que esta dinâmica se mantenha nos próximos meses, sobretudo nas áreas fronteiriças com o Mali e o Níger, onde a presença e a mobilidade dos grupos armados continuam estruturalmente enraizadas e não mostram sinais de abrandamento,” escreveram os investigadores da African Security Analysis.
Apesar do sucesso em controlar grande parte do interior do Burquina Faso, os terroristas não têm o número de efectivos nem o poder de fogo necessários para conquistar a capital, segundo os analistas Djiby Sow e Hassan Koné, do Instituto de Estudos Estratégicos da África do Sul.
A deterioração das condições nos países da AES contrasta fortemente com as afirmações dos três líderes das juntas de que iriam subjugar os terroristas de uma forma que os seus antecessores democráticos não conseguiram, um professor sénior anónimo da Universidade de Ciências Jurídicas e Políticas de Bamako disse à The Africa Report. A fonte solicitou anonimato por receio de represálias.
As forças armadas do Mali estão sobrecarregadas pelos persistentes ataques terroristas e pelas deserções para o JNIM, disse o professor sénior, acrescentando: “A junta não parece ter uma resposta para a expansão do terrorismo, nem mesmo as suas contrapartes no Níger e no Burquina Faso.”
