Enquanto a guerra civil no Sudão continua, duas valas comuns foram descobertas nos arredores de Cartum, a capital nacional. Os moradores locais afirmam que as Forças de Apoio Rápido (RSF) paramilitares, lideradas pelo General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, transferiram os corpos para as valas a partir de centros de detenção improvisados.
As vítimas eram civis e militares que foram torturados nos centros, informou a emissora turca TRT World. Foram transportados por outros detidos e enterrados em valas cavadas com maquinaria pesada. Os seus restos mortais sugerem que foram enterrados de forma aleatória. As autoridades sudanesas estão a trabalhar para abrir as sepulturas e enterrar as vítimas de forma adequada, mas enfrentam obstáculos.
“O atraso na abertura das valas comuns deve-se ao enorme número de vítimas,” a procuradora-geral sudanesa, Intisar Ahmed Abdel Aal, disse à agência de notícias turca Anadolu Agency. “Estão a ser envidados esforços para abrir estas sepulturas e transferir os corpos para cemitérios adequados. O número de pessoas enterradas é muito grande e há corpos que foram enterrados em escolas, universidades e locais públicos.”
Abdel Aal disse que os corpos estão a ser exumados em coordenação com o Comité Internacional da Cruz Vermelha.
“A falta de recursos não é o único desafio, mas também o elevado número de corpos,” disse. “As valas comuns não se limitam apenas a Cartum, mas estendem-se a Wad Madani e a grandes áreas do centro do Sudão.”
As RSF estão envolvidas numa guerra civil brutal com as Forças Armadas do Sudão (SAF), lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan, há quase três anos. Ambas as partes são acusadas de cometerem atrocidades contra civis.
Durante três dias no final de Outubro de 2025, as RSF mataram pelo menos 1.500 pessoas em El Fasher ao tomar a capital do Estado de Darfur do Norte. El Fasher era o último grande centro urbano controlado pelas SAF em Darfur. A Rede de Médicos do Sudão, que acompanha a guerra, descreveu a situação como “um verdadeiro genocídio.”
“Os massacres que o mundo testemunha hoje são uma extensão do que ocorreu em El Fasher há mais de um ano e meio, quando mais de 14.000 civis foram mortos por bombardeamentos, fome e execuções extrajudiciais,” afirmou o grupo, acrescentando que os ataques estão a ser realizados como parte de uma “campanha deliberada e sistemática de assassinatos e extermínio.”
Muitos moradores locais acreditam que as RSF e as milícias aliadas pretendem transformar a região etnicamente mista numa área dominada por árabes. Em Março de 2024, o Fundo das Nações Unidas para a Infância relatou casos de homens armados que estupraram e violaram sexualmente crianças de apenas 1 ano de idade. Naquele mês, a Human Rights Watch (HRW) relatou que as RSF e as suas milícias aliadas estavam possivelmente a orquestrar um genocídio em Darfur contra o povo Massalit e outras comunidades não árabes.
As RSF também mataram milhares de pessoas na cidade de el-Geneina, no Darfur Ocidental, numa campanha de limpeza étnica com o “objectivo aparente de, pelo menos, fazê-las abandonar a região permanentemente,” relatou a HRW, acrescentando que era possível que as RSF e os seus aliados tivessem “a intenção de destruir total ou parcialmente” o povo Massalit.
No dia 15 de Fevereiro, um ataque com drone das RSF matou três pessoas e feriu outras sete num hospital no sudeste do Estado de Sennar.
“Atacar unidades sanitárias constitui uma violação flagrante das leis internacionais que proíbem ataques a centros médicos e profissionais de saúde,” a Rede de Médicos do Sudão denunciou num comunicado. Tais incidentes “aprofundam o sofrimento da população civil e privam os residentes do acesso a cuidados médicos,” acrescentou o grupo.
De acordo com o Projecto Testemunha do Sudão, a Força Aérea das SAF matou pelo menos 1.700 civis em ataques a bairros residenciais, mercados, escolas e campos de refugiados. O projecto analisou 384 ataques aéreos das SAF realizados entre Abril de 2023 e Julho de 2025. A análise mostrou que as SAF usaram bombas não guiadas em áreas populosas. As RSF não possuem aeronaves.
“O conflito no Sudão é, na verdade, uma guerra contra civis,” Justin Lynch, director-geral do Conflict Insights Group, que acompanha o fornecimento de armas estrangeiras ao Sudão, disse à BBC. “O poder aéreo e outras armas pesadas atingem desproporcionalmente locais civis, mais do que militares.”
As RSF controlam todos os cinco Estados da região de Darfur, no oeste, excepto algumas partes do norte de Darfur do Norte, que permanecem sob o controlo das SAF, informou a TRT World. As SAF controlam a maioria das áreas dos 13 Estados restantes no sul, norte, leste e centro, incluindo Cartum. Os combates agora estão concentrados principalmente no Cordofão, que fica entre as duas zonas de controlo. Algumas estimativas apontam para cerca de 150.000 mortos na guerra. Todas as tentativas de cessar-fogo falharam.
