Enquanto enfrenta os custos imensos da sua guerra na Ucrânia, que está a entrar no seu quinto ano, a Rússia recorre à venda de barras de ouro.
“A Rússia esgotou progressivamente as reservas líquidas do seu fundo soberano para financiar a sua guerra na Ucrânia e teve de recorrer à venda das suas reservas de ouro, devido a gastos insustentáveis,” o grupo de reflexão Instituto do Estudo da Guerra disse numa avaliação de Dezembro de 2025.
Grande parte do ouro foi retirado de países africanos como Burquina Faso, República Centro-Africana e Mali, onde os mercenários russos apoiam regimes autoritários em troca de direitos de extracção mineira.
“O ouro nunca foi tão importante para a Rússia,” John Kennedy, especialista da organização de pesquisa Rand Europe, disse ao jornal britânico The Telegraph num artigo de 30 de Novembro de 2025. “Durante muito tempo, tem acumulado ouro e, desde a invasão, tem-no utilizado.
“O ouro é crucial para gerir as crescentes pressões económicas, que incluem um défice orçamental crescente e novas sanções às suas principais empresas exportadoras de petróleo. A Rússia também está muito interessada em utilizar o ouro para ter acesso aos mercados internacionais.”
Através dos seus mercenários e agentes, a Rússia assumiu o controlo das minas de ouro da RCA, juntamente com as principais minas do Mali e do Burquina Faso, o terceiro e o quarto maiores produtores de ouro do continente.
Para pagar ao Grupo Wagner, o governo da RCA entregou em 2020 o controlo da maior mina de ouro do país em Ndassima, onde os mercenários bloqueiam as inspecções oficiais e ameaçam os agentes do Estado que tentam entrar. Em 2023, os mercenários do Grupo Wagner terão cometido atrocidades contra as comunidades locais quando tomaram minas de ouro artesanais nas áreas de Yidéré e Baboua, na prefeitura de Nana-Mambéré, no oeste da RCA.
“[O Grupo Wagner] não se limita a proteger os locais — ele toma-os,” o instituto de investigação Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional escreveu numa análise de Outubro de 2025. “A sua abordagem tem sido consistente: eliminando concorrentes, intimidando funcionários e obtendo licenças em condições opacas, a empresa branqueia ouro e diamantes através de empresas fantasma.”
A Rússia extraiu 2,5 bilhões de dólares em ouro africano em menos de dois anos após invadir a Ucrânia em Fevereiro de 2022, de acordo com um grupo de investigadores internacionais que publicou o Relatório Ouro de Sangue em Dezembro de 2023.
“Criámos esta expressão, ouro de sangue, para ajudar as pessoas a compreender a ligação entre o lado comercial do Grupo Wagner e as políticas externas verdadeiramente mortíferas e os crimes internacionais cometidos pelo Estado russo,” Jessica Berlin, uma das autoras do relatório, disse à National Public Radio dos Estados Unidos em Dezembro de 2023.
Lou Osborne, analista do colectivo de jornalismo investigativo All Eyes on Wagner, disse que a Rússia usa o ouro africano da RCA para financiar as suas operações mercenárias no país e ajudar a manter a sua máquina de guerra a funcionar na Ucrânia.
“Acreditamos que uma parte do ouro serve para financiar as operações do Grupo Wagner na RCA e outra parte eles vendem no mercado internacional,” disse numa entrevista à France 24 em Maio de 2025. “Essa é uma forma de eles terem acesso a dinheiro. Com todas as sanções internacionais em vigor, hoje em dia é um pouco difícil ter acesso ao sistema financeiro. Ao poderem vender ouro, eles basicamente têm acesso a dinheiro.”
Em 2024, a Rand Europe informou que a Rússia está “a usar ouro físico em pagamentos entre Estados, e as empresas russas estão envolvidas em trocas de ouro por mercadorias, ouro por armas e ouro por dinheiro.”
Para ajudar a construir uma nova indústria de drones militares na Rússia, o Kremlin deu pelo menos 104 milhões de dólares em barras de ouro a uma empresa sediada em Teerão ligada ao governo iraniano, de acordo com um relatório de Maio de 2025 do Centro de Estudos Avançados de Defesa. A Rússia também teria pago por armas norte-coreanas com ouro, de acordo com o The Telegraph.
Osborne disse que a Rússia respondeu às sanções internacionais aprofundando a sua já vasta rede de empresas fantasma.
“Isso ficou mais complexo ao longo dos anos,” frisou. “O que vemos com o Grupo Wagner é uma abordagem que se parece muito com o crime organizado. Tudo é oculto. Eles não declaram [a produção de ouro] e criam empresas fantasma para capturar esses minerais. Agem como uma máfia e tentam contornar as sanções.”
