Um grupo rebelde nigerino atacou infra-estruturas de produção petrolífera, o que poderá enfraquecer as finanças do país e ameaçar o controlo do poder pela junta governante.
Criado em 2024, o Movimento Patriótico pela Liberdade e Justiça (MPLJ) ganhou força através de uma série de ataques ao maior oleoduto de África, que se estende por quase 2.000 quilómetros desde os desertos ricos em petróleo do leste do Níger até à costa do Benin. Os principais alvos dos rebeldes são duas empresas petrolíferas chinesas que representam a principal fonte de rendimento da junta e do seu líder, o General Abdourahamane Tiani.
“Destruir o oleoduto significa destruir o General Tiani,” o líder do MPLJ, Moussa Kounaï, disse à revista Jeune Afrique num artigo publicado a 12 de Janeiro. “Este regime ilegítimo tornou a situação mais instável e precária para todos os nigerinos. Se sobrevive hoje, é apenas graças ao dinheiro do petróleo. Por isso, pedimos aos nossos parceiros chineses que deixem de financiar este regime, mas eles não nos ouvem.”
A dívida do Níger para com a China continua a aumentar. Em Abril de 2024, a junta militar contraiu um empréstimo de 400 milhões de dólares a uma taxa de juro de 7% contra as vendas de petróleo bruto. Mas a sabotagem contínua do oleoduto atrasou o reembolso. Cada dia em que o oleoduto está encerrado custa ao governo e aos seus investidores chineses cerca de 10 milhões de dólares em receitas.
O MPLJ pretende interromper a produção de petróleo bruto no Níger como forma de restaurar o presidente democraticamente eleito do país, Mohamed Bazoum, que está preso desde que foi deposto em Julho de 2023.

MOVIMENTO PATRIÓTICO PELA LIBERDADE E JUSTIÇA
“Este petróleo é nosso, mas não nos beneficiamos dele,” disse Kounaï. “Convido todos os nigerinos a juntarem-se à luta: a nossa luta é a sua luta. Vamos cortar o oxigénio de Tiani.”
Kounaï formou o MPLJ após um desacordo e uma cisão com a Frente Patriótica de Libertação (FPL), um grupo rebelde com sede no nordeste do Níger que surgiu após o golpe. A FPL fragmentou-se e desarmou-se após a prisão dos seus líderes.
A African Security Analysis (ASA), uma consultoria sueca especializada em riscos, afirmou que as primeiras operações do MPLJ pareciam ser avisos simbólicos antes de o grupo intensificar os seus ataques com um em Novembro e dois em Dezembro de 2025.
“A ocorrência de dois ataques no mesmo mês e na mesma área operacional sugere uma intenção de exercer pressão sustentada sobre activos económicos estratégicos e demonstrar resiliência face às medidas de segurança,” a ASA escreveu num relatório de 17 de Janeiro. “A abordagem operacional do grupo parece orientada para a coerção económica, danos à reputação e influência política, em vez de controlo territorial.”
Com sede nas áreas desérticas que rodeiam os campos petrolíferos de Agadem, na região de Diffa, no leste do Níger, o MPLJ afirma ser um desdobramento de clãs pastorais e nómadas locais. O MPLJ afirma que, quando a China National Petroleum Corp. (CNPC) e a sua subsidiária, a West African Oil Pipeline Co. (WEPCO), construíram o oleoduto nas suas terras, prometeram cumprir uma quota de contratação de pessoal local.
O segundo no comando do MPLJ, Brahim Mohamed Hagar, disse que, embora alguns nigerinos tenham sido contratados, “eles quase nunca são pessoas da região. Os chineses preferem trazer o seu próprio pessoal da China e recrutar alguns nigerinos de Niamey,” contou à Jeune Afrique.
Lol Oumar Arami, director-executivo da organização nigerina Initiative pour la Participation Citoyenne sur les Industries Extractives, é um antigo vice-chefe de segurança do oleoduto de Agadem que concorda com a avaliação de Hagar.
“Desde que as empresas chinesas começaram a explorar o petróleo nigerino em 2011, as promessas de recrutar pessoas das comunidades nómadas da região nunca foram cumpridas,” disse à Jeune Afrique. “Além disso, os fundos destinados às populações locais foram desviados pelas câmaras municipais. Mesmo trabalhos subalternos, como manuseamento ou vigilância, são realizados por estrangeiros.”
Kounaï disse que as operações extractivas chinesas deveriam impulsionar o desenvolvimento local, mas falharam.
“Aqui, falta tudo,” desabafou. “Não há hospitais, nem poços de água, nem escolas. As crianças estudam em cabanas improvisadas. Os rebanhos morrem por causa da poluição, sem que os seus proprietários recebam qualquer compensação. E desde que Tiani chegou ao poder, a situação piorou. Os soldados perseguem os residentes locais. Revistam-nos, ameaçam-nos, tratam-nos como inimigos. Famílias que viviam nesta terra há centenas de anos estão a ser forçadas a partir.”
