Em Outubro de 2025, manifestantes malgaxes receberam a notícia da tomada do poder pelos militares com júbilo e validação dos seus comícios, que buscavam a destituição do presidente Andry Rajoelina.
Então, uma realidade sóbria se instalou: a vida sob o regime militar.
“Muitas vezes, essas tomadas de poder bem-sucedidas são recebidas com aplausos e apoio nas ruas, como em Madagáscar,” os investigadores Salah Ben Hammou e Jonathan Powell escreveram numa análise para a revista Foreign Policy. “Mas a aparência de legitimidade, muitas vezes, desaparece assim que a poeira se assenta. Afinal, muitos golpes são encenados não para promover demandas revolucionárias, mas para contê-las.”
Os protestos contra as falhas de energia e a escassez de água começaram no final de Setembro de 2025. Em duas semanas, uma unidade militar de elite conhecida como CAPSAT e o seu líder, o Coronel Michael Randrianirina, deram o seu apoio aos manifestantes contra Rajoelina, que também chegou ao poder em 2009 com o apoio da CAPSAT durante protestos em massa. Com o presidente Rajoelina escondido, Randrianirina assumiu o controlo das forças armadas de Madagáscar no dia 12 de Outubro e assumiu a presidência no dia 15 de Outubro.
Teresa Nogueira Pinto, especialista em assuntos africanos, da Geopolitical Intelligence Services (GIS), descreveu o papel da CAPSAT em Madagáscar como o de um criador de reis.
“A escalada foi incrivelmente rápida,” disse num podcast de 16 de Janeiro. “Na política malgaxe, quando a CAPSAT se move, o jogo acaba. Eles têm sido o factor decisivo desde a independência. … Se a CAPSAT se posicionar contra alguém, essa pessoa não sobrevive. Vimos isso em 2009 e acabámos de ver novamente.
“Eles não são apenas uma unidade do exército qualquer. São um corpo de elite estrategicamente baseado perto da capital. Controlam a logística, as comunicações — toda a infra-estrutura crítica necessária para governar ou derrubar um governo.”
A desilusão entre os malgaxes instalou-se rapidamente quando Randrianirina anunciou uma transição de cerca de dois anos, com eleições provisoriamente marcadas para o final de 2027, ignorando a exigência constitucional de que as eleições ocorram no prazo de 60 dias após a vacância da presidência.
“Este é um padrão familiar visto nos recentes golpes de Estado em África, onde os líderes golpistas mostraram pouca vontade de afastar-se,” escreveram Ben Hammou e Powell. “[Isso] sinaliza que as forças armadas já estão a afastar-se dos objectivos da sua revolução e a impor a sua própria vontade.”
Nogueira Pinto citou a longa história de pragmatismo da CAPSAT ao avaliar a probabilidade de a junta dar prioridade à estabilidade, ao comércio e aos investimentos de parceiros internacionais. Madagáscar tem uma importância estratégica porque faz fronteira com o Canal de Moçambique, com 1.609 quilómetros de extensão, uma artéria marítima vital da África Oriental que transporta cerca de 30% do tráfego mundial de petroleiros.
“É um ponto de estrangulamento,” clarificou. “Toda essa zona marítima tornou-se um palco fundamental para a competição geopolítica e geoeconómica. Madagáscar está bem no meio dela. [A China] vê a ilha como uma parte fundamental da sua rota marítima da seda, a sua Iniciativa do Cinturão e Rota. Trata-se de garantir acesso e influência em todo o Oceano Índico.
“Mas, embora a China seja o interveniente a longo prazo, quem preenche o vazio imediato é a Rússia. Já enviaram um carregamento de armas para a guarda nacional, chamando-a ‘cooperação internacional legítima.’ É uma jogada clara para garantir uma posição.”
A frustração com o governo não é novidade em Madagáscar, onde o apoio público raramente parece durar. Por enquanto, uma nova geração aguarda e observa para ver se os seus novos governantes militares atenderão às exigências por uma tábua de salvação económica.
“[O golpe] ameaça desfazer anos de progresso frágil,” o Instituto Robert Lansing para Estudos sobre Ameaças Globais e Democracias escreveu numa análise de Outubro de 2025. “O futuro próximo dependerá da capacidade das instituições de Madagáscar se reafirmarem, de o exército realmente devolver o poder aos civis e de como a comunidade internacional equilibrará a pressão pela democracia com a necessidade imperativa de estabilidade.”
