As Forças de Defesa do Tigré (TDF) entraram, a 26 de Janeiro, no território etíope disputado de Tselemt, na região noroeste do Tigré, entrando em confronto com tropas federais e milícias da região vizinha de Amhara. Três dias depois, as TDF avançaram para Korem e Alamata, no disputado distrito de Raya, no sul do Tigré, sem resistência federal aparente, informou o International Crisis Group.
O governo federal cancelou então todos os voos para a região e, no dia 31 de Janeiro, realizou dois ataques com drones no centro do Tigré. Isso levou analistas a alertar que a continuação dos combates no Tigré poderia desencadear outra guerra.
Tigré, a região mais setentrional da Etiópia, está numa disputa pelo poder desde 2018, quando os líderes tigrenhos perderam a sua influência dominante no governo da Etiópia.
Após os ataques com drones, Tadesse Werede, líder das TDF, disse que o governo federal havia iniciado “algo parecido com uma guerra total,” informou a revista The Economist. Werede também disse que as TDF se retirariam de Tselemt para acalmar a situação e que “as divergências … podem ser resolvidas através do diálogo.”
As forças tigrenhas enfrentam uma ofensiva conjunta da Força de Defesa Nacional da Etiópia (ENDF) e das milícias Amhara, que tomaram Tselemt durante a guerra anterior em Tigré e se recusaram a retirar-se. Embora os voos para Tigré tenham sido retomados a 3 de Fevereiro, as tensões permanecem. Naquele dia, o Primeiro-Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, sugeriu durante um discurso no Parlamento que a Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF), o partido governante da região, era composta por “traidores” que trabalhavam para “desmantelar a Etiópia.”
Um funcionário da TPLF respondeu dizendo que a ENDF estava “a mobilizar todas as suas forças.”
“Não consigo expressar o quão assustadora esta guerra será se Abiy não parar o que está a fazer,” o funcionário disse numa reportagem da revista The Economist.
No dia 10 de Fevereiro, Volker Türk, chefe dos direitos humanos das Nações Unidas, apelou a todas as partes para tomarem medidas urgentes para acalmar o conflito.
“A situação continua altamente volátil e tememos que se deteriore ainda mais, agravando a já precária situação humanitária e dos direitos humanos na região,” afirmou Türk. “Os civis estão mais uma vez presos entre tensões crescentes, com as TSF (Forças de Segurança de Tigré) e a ENDF a realizarem alegadamente detenções por suspeita de afiliação ao lado oposto. Isto tem de parar.”
A animosidade remanescente da guerra civil alimenta a crise. Quando a guerra eclodiu em 2020, as milícias Amhara tomaram o oeste do Tigré, onde centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir. Desde então, a maioria tem vivido em campos de deslocados miseráveis noutras partes da região.
Alguns milhares de pessoas regressaram às suas casas em Tigré em 2024, mas muitas enfrentaram intimidação e abusos por parte das milícias Amhara. Abiy também bloqueou as exigências da TPLF de devolver o controlo dos territórios disputados de Amhara a Tigré.
Abiy teme que a TPLF queira recuperar o oeste do Tigré pela força. O exército etíope terá movido grandes quantidades de tropas e armamento para as fronteiras do Tigré.
Analistas da revista The Economist escreveram que ambos os lados podem agir com cautela. A TPLF está enfraquecida por constantes lutas internas e Abiy está a lidar com as tensões com a vizinha Eritreia. No dia 3 de Fevereiro, acusou as tropas eritreias de cometerem assassinatos em massa enquanto lutavam ao lado das tropas etíopes na guerra anterior, que terminou em 2022, durante a qual mais de 400.000 pessoas foram mortas. A Eritreia aproximou-se diplomaticamente da TPLF no meio de uma disputa entre Asmara e Adis Abeba sobre o acesso ao Mar Vermelho.
“No entanto, a crise da Etiópia também está interligada com a guerra civil no Sudão e as rivalidades entre as potências externas que a têm alimentado,” escreveram os analistas da revista The Economist. “Uma nova guerra no Tigré provavelmente se transformaria num desastre regional. Aqueles que podem devem pressionar pela paz enquanto ainda há tempo.”
O tempo pode estar a esgotar-se. Numa carta de 7 de Fevereiro ao seu homólogo eritreu, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Etiópia, Gedion Timothewos, afirmou que as forças eritreias estavam no seu país há um “período considerável” e acusou Asmara de fornecer apoio material directo a grupos militantes que operam na Etiópia.
“Os desenvolvimentos dos últimos dias indicam que o Governo da Eritreia escolheu o caminho de uma maior escalada,” Timothewos disse numa reportagem da agência noticiosa bne IntelliNews. Timothewos exigiu que Asmara “retirasse as suas tropas do território etíope e cessasse todas as formas de colaboração com grupos rebeldes,” classificando as alegadas acções como “não apenas provocações, mas actos de agressão directa.”
