A presença da Rússia na Guiné Equatorial expandiu-se recentemente para incluir um novo centro cultural na capital, Malabo.
A instalação reflecte 16 operações em outros países africanos, como a República Centro-Africana, onde a Rússia pretende expandir a sua influência. Mais da metade dos 28 centros culturais da Rússia em todo o mundo estão em África.
O novo centro cultural exibiu recentemente o filme “Blockade Diary,” um filme de propaganda que a Rússia usa para recrutar novos combatentes para a sua guerra em curso contra a Ucrânia. A abertura do centro cultural segue-se ao envio, em 2024, de mais de 200 mercenários do Africa Corps para a Guiné Equatorial para proteger o presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo e treinar tropas. O envio imita o do antecessor do Africa Corps, o Grupo Wagner, para a República Centro-Africana há quase uma década.
Embora o governo da Guiné Equatorial tenha negado a presença de russos no país, testemunhas relataram ter visto homens brancos em uniformes com insígnias russas nas ruas daquele país de língua espanhola.
O envio para Malabo e Bata seguiu-se a três visitas do presidente Obiang à Rússia e duas viagens a Malabo do Vice-Ministro da Defesa da Rússia, Yunus-bek Yevkurov, o homem encarregue de usar o Africa Corps para expandir a influência da Rússia no continente.
A Rússia ajudou a Guiné Equatorial a estabelecer uma nova força militar de 684 membros, conhecida como Brigada de Intervenção Rápida. Obiang prometeu equipar a força com armamento avançado russo e chinês, incluindo veículos blindados de transporte de pessoal e mísseis de longo alcance.
“Seja qual for a sua origem, a Guiné Equatorial não está em guerra e a presença de mercenários não traz qualquer benefício para a população,” Juvenal Osuan Ondo Mba, residente em Malabo, disse ao Le Monde e à Agence France-Presse (AFP) no ano passado.
As actividades da Rússia na Guiné Equatorial suscitam preocupações entre os líderes da oposição exilados do país de que a Rússia esteja a tentar recrutar mais africanos para lutar no leste da Ucrânia. Em Março de 2025, o Ministério da Defesa da Guiné Equatorial convocou os jovens guineenses a candidatarem-se a bolsas de estudo para receberem treino militar na Rússia. A liderança da Guiné Equatorial negou ter enviado cidadãos para lutar em nome da Rússia.
O Vice-Presidente Teodoro Nguema Obiang, filho do presidente, disse que os cidadãos do seu país viajam para a Rússia “para se formarem nas prestigiadas universidades da Federação Russa.”
“No final dos seus estudos, (eles) regressam orgulhosamente ao país para contribuir para a defesa da pátria,” disse à AFP.
A experiência de centenas de outros africanos que viajaram recentemente para a Rússia sugere o contrário. Ao longo do último ano, mais de 1.400 africanos de dezenas de países chegaram à Rússia apenas para se verem na linha da frente no leste da Ucrânia, muitos com pouca ou nenhuma formação militar. O Quénia e a África do Sul relataram que os seus cidadãos foram para a Rússia à procura de emprego e, em vez disso, foram forçados a assinar contratos militares escritos em russo e sem tradução. Alguns relataram que os seus passaportes foram apreendidos, tornando quase impossível para eles saírem do país.
Francis Ndung’u Ndarua viajou do Quénia para a Rússia com a promessa de trabalhar como engenheiro eléctrico. Ele publicou um vídeo nas redes sociais alguns meses depois, alertando outros africanos contra a ida para a Rússia, de acordo com o site de notícias nigeriano Legit.
“Você acabará por ser levado para o exército, mesmo que nunca tenha servido nas forças armadas, e será levado para a linha de frente da batalha. E há mortes reais,” alertou Ndarua. “Muitos amigos morreram por causa de dinheiro.”
Pouco tempo depois, Ndarua apareceu num outro vídeo vestindo um uniforme militar com uma mina terrestre amarrada ao peito. Um falante de russo, usando insultos racistas, descreveu-o como um “abridor de latas,” um termo usado para designar pessoas forçadas a servir como bombistas suicidas para abrir brechas nas defesas ucranianas.
À medida que a Rússia expande a sua presença na Guiné Equatorial, a publicação Diario Rombe, um meio de comunicação da oposição exilada, descreveu recentemente a missão da Rússia em Malabo da seguinte forma:
“Trata-se de recrutar cidadãos sem experiência militar para serem sacrificados em troca da presença de mercenários russos na Guiné Equatorial.”
