Um ano após a sua reforma, um especialista colombiano em drones militares reparou numa mensagem do WhatsApp: “Algum veterano interessado em trabalhar? Estamos à procura de reservistas de qualquer força.”
O trabalho era em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), de acordo com um homem que alegava ser um ex-coronel da força aérea. No entanto, numa chamada de acompanhamento, o veterano soube que teria de passar por alguns meses de treino no Dubai antes de ser destacado para África para realizar reconhecimento táctico. Ele recusou a oferta depois de um amigo nos EAU o ter avisado de que o trabalho provavelmente seria numa das piores zonas de guerra do mundo — a linha da frente da ofensiva das Forças de Apoio Rápido (RSF) no oeste do Sudão.
Outro veterano colombiano não teve a mesma sorte. O homem de 33 anos morreu três meses após chegar ao Sudão, em meados de 2024, quando as RSF lutavam para capturar El-Fasher, capital do Estado de Darfur do Norte. A sua viúva teve medo de revelar o nome quando questionada sobre o destino dele.
“Ainda não trouxeram o corpo dele para casa,” disse à Agence France-Presse (AFP).
Uma investigação da AFP do dia 12 de Dezembro revelou os canais obscuros de recrutamento que enviaram centenas de mercenários colombianos para os Emirados Árabes Unidos e, em seguida, para Darfur, via Líbia e Somália. A agência de notícias entrevistou mercenários e familiares e analisou registos corporativos e dados de geolocalização de vídeos do campo de batalha.
Abel Rojas, ex-coordenador do grupo de veteranos do Ministério da Defesa da Colômbia, disse que a situação é alarmante e que a indignação pública no país sul-americano continua a intensificar-se.
“Os soldados são enganados por empresas, organizações e até mesmo veteranos que lideram esses processos,” disse à revista Semana em 2024. “Eles são enganados para viajar para outros países para realizar actividades que podem ser consideradas crimes.”
As facções beligerantes do Sudão continuam a travar uma sangrenta luta pelo poder, com as RSF controlando todos os cinco Estados da região de Darfur. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas, e as Nações Unidas estimam que 13,6 milhões foram deslocadas desde o início da guerra, em Abril de 2023.
Em Setembro de 2025, o representante permanente do Sudão na ONU apresentou uma queixa formal ao Conselho de Segurança da ONU, alegando ter “provas extensas” de uma “campanha sistemática dos Emirados Árabes Unidos para minar a paz, a segurança e a soberania do Sudão, através do recrutamento, financiamento e envio de mercenários para lutar ao lado das Forças de Apoio Rápido.”
Em Agosto de 2025, as Forças Armadas do Sudão afirmaram que um ataque aéreo atingiu um aeroporto controlado pelas RSF em Nyala, na região de Darfur, e destruiu um avião militar dos Emirados, matando pelo menos 40 suspeitos de serem mercenários colombianos.
Um dos novos detalhes revelados pela investigação da AFP foi o papel de trânsito de uma base aérea em Bosaso, na Somália, que abriga oficiais militares dos Emirados. Fontes locais e imagens de satélite confirmaram que, desde o início de 2025, pelotões de combatentes estrangeiros têm-se conectado ao Sudão através do aeroporto, que foi construído em 2007 com fundos de financiadores baseados nos Emirados Árabes Unidos.
Os combatentes estrangeiros costumam chegar em aviões de carga e são então transportados para a fronteira sudanesa. O Ministro da Defesa da Somália, Ahmed Moalim Fiqi, disse ao parlamento em 2025 que aeronaves têm transportado pessoal de Bosaso para o Chade e o Níger para facilitar a entrada em Darfur.
Segundo o site de notícias La Silla Vacía, com sede em Bogotá, cerca de 380 mercenários colombianos foram enviados ao Sudão desde 2024. A maioria serve num batalhão conhecido como Lobos do Deserto, composto por quatro companhias de militares colombianos reformados.
Os combatentes colombianos veteranos tornaram-se mercadorias muito procuradas na guerra assimétrica moderna, graças à sua experiência de combate e reputação de disciplina e adaptabilidade a condições adversas. Eles estão prontamente disponíveis, já que mais de 22.000 membros das forças de segurança da Colômbia se aposentaram voluntariamente desde 2022.
“O mundo do trabalho mercenário é visto internamente como uma oportunidade,” José Angel Espinosa, ex-sargento do exército colombiano que agora dirige uma associação de veteranos, disse ao site de notícias Middle East Eye em 2025.
Com a aparição de combatentes colombianos em conflitos do Afeganistão à Ucrânia nos últimos anos, a opinião pública na Colômbia voltou-se contra o recrutamento de mercenários, e os legisladores pressionaram para proibir a prática.
“A situação aqui é péssima, estamos a ser mantidos em cativeiro,” disse um mercenário colombiano no Sudão numa gravação de áudio, de acordo com o La Silla Vacía.
“Isso é tráfico de pessoas,” disse outro. “Contratam-nos para uma coisa e depois levam-nos para outro lugar para fazer outra coisa.”
